fev
22
2010
2

O DIA EM QUE MACHADO SALVOU UMA BORBOLETA

Mesmo na penumbra, percebi que o banheiro estava limpo: o cheiro de eucalipto o confirmava. De repente, levanto a vista e descubro, na parede frontal, uma mancha escura, feia, disforme. Dir-se-ia um pequeno trapo sujo grudado no azulejo. Acesa a lâmpada, a mancha ganhou vida: era uma borboleta preta, uma autêntica escalapha odorata, se não me trai o São Google. Além de pouco decorativas, as borboletas pretas sofrem de uma enfermidade rara e mortal: desorientação congênita. Explico: são capazes de adentrar qualquer espaço por frinchas minúsculas, mas incapazes de sair, mesmo que portas e janelas estejam escancaradas. Uma vez dentro do espaço, tonteiam pelo ar como anjos bêbados, debatem-se às cegas e se esfacelam, liberando as minúsculas escamas que lhes recobrem as asas: sujam tudo. Não bastasse isso, são vulgarmente conhecidas como “bruxasâ€. Reza a crendice popular que anunciam maus presságios. Decididamente, não são bem-vindas, razão por que, mal se mostram, transformam-se em repasto de formigas.

Instintivamente, peguei uma toalha molhada e decidi eliminá-la com um golpe certeiro antes que ela sujasse o banheiro recém-lavado. A bem da verdade, cheguei a levantar o braço. Mas me contive: de repente, ocorreu-me a lembrança de um dos capítulos mais belos de Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra-prima de Machado de Assis. O título é justamente “A borboleta pretaâ€. Não resisto à tentação de transcrever um fragmento: “…Dei de ombros, saí do quarto; mas retornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

– Também por que diabos não era ela azul? disse comigo.â€

Brás Cubas, personagem que dá título ao romance, era um pequeno-burguês cínico, inútil e dado a filosofices. Depois de matar a borboleta preta, tenta justificar o gesto engendrando uma teoria que efetivamente não se sustenta. Quanto ao texto em si, apenas demonstra o já sabido: Machado, como um verdadeiro alquimista, transformava episódios banais em excelente literatura.

Enquanto “desbebia†sossegadamente, contemplei a borboleta e fiz uma reflexão pueril, digna do Brás Cubas. Os latinos tinham razão: “a arte serve à vidaâ€, mesmo que seja a vidinha errante e efêmera de um inseto repulsivo. Assim, graças à excelência da prosa do Bruxo do Cosme Velho, uma borboleta preta ganhou o direito de continuar em sua vadiice pelos céus de Teresina.

Cineas Santos

Written by admin in: Dois dedos de prosa |
fev
08
2010
2

AS REINAÇÕES DE PEDRO MACAQUINHO

Constatei, com uma pontinha de alívio, que a figura mais “notável†de Campo Formoso, que nem existe mais, não sou eu. Trata-se de um certo Pedro José de Sousa que, por suas reinações, ganhou a adequada alcunha de Pedro Macaquinho. Menino ainda, Pedro se deu conta de que não tinha a menor vocação para puxar cobra para os pés, preso ao rabo de uma enxada. Num descuido da família, azulou no mundo e foi cumprir sua sina. Analfabeto, sem maior qualificação, descobriu que o próprio corpo poderia ser um excelente instrumento. Simples: punha a mão esquerda na cova da axila direita e, movimentando o braço, marcava  o  ritmo do xote  “O Cheiro de Carolinaâ€, sucesso de Luiz Gonzaga. Foi nessa época que o agraciaram com o rótulo Macaquinho.

Excelente ritmista, tornou-se zabumbeiro do Mané Vicente, que ganhava a vida judiando de uma pé-de-bode ranheta. Sempre  que o sanfoneiro parava para entornar uma talagada de cana, Macaquinho abarcava a sanfoninha e mandava ver. Acabou aprendendo o mínimo; o mais correu por conta de sua intuição. Tornou-se presença obrigatória em feiras, quermesses, leilões, desobrigas, circos e funções. Sentou praça  no Canto do Buriti e se fez  showman: canta, dança, improvisa e conta piadas. O público o adora. Mas sua carreira artística tem sido marcada por um problema crônico: só querem pagar ao Macaquinho com cachaça. Dinheiro, que é bom, nada. Como qualquer macaco que se preze, entre uma reinação e outra, o Macaquinho fazia um filho. Família crescendo, dinheiro curto, as coisas se complicaram. Pequeno ainda, os macaquinhos do Macaquinho passaram a ajudá-lo: tornaram-se todos sanfoneiros e ritmistas. Nascia o conjunto “Pedro e seus Macaquinhosâ€. Um dos garotos, o Walmir, é um sanfoneiro de grandes recursos técnicos.

A parceria com os meninos rendeu alguns frutos, mas a grana continua curta, e o tempo começa a maltratar o nosso bravo macaco. De repente, aquele novelo de encrencas, que atende pelo nome de próstata, começou a incomodá-lo. Pedro teve de diminuir o ritmo de trabalho, fazer tratamento, gastar o que não tinha. A magra aposentadoria que recebe não lhe garante a sobrevivência com um mínimo de dignidade. Foi aí que pintou a ideia de lançar um CD artesanal, mas realizado com cuidado e capricho. O CD traz o instigante título de The best of Pedro Macaquinho, com um punhado de canções, entre elas as clássicas “Delita†e “De madrugada no calor do frioâ€, uma versão light, já que a original , down, é imprópria para menores de 78 anos de idade. Sucesso absoluto: o CD vende mais que farinha nas feiras do Ceará. Sucesso e encrenca: segundo fui informado pelo sanfoneiro, pelo menos duas lojas de discos de Canto do Buriti clonaram o CD e passaram a vendê-lo sem autorização do Macaquinho, ou seja, furtam-lhe a única coisa que tem para sobreviver. Sem ter a quem recorrer, Pedro veio me pedir ajuda.

Denunciei o fato no programa Feito em Casa e o faço agora nas páginas de O Dia. Se a pirataria continuar, irei ao Canto do Buriti, denunciar os criminosos ao promotor da cidade. Não tenho poderes para ir além. De qualquer forma, tenho o dever de tentar ajudar aquele humilde cidadão que, com sua arte feita de pura intuição, destronou-me do incômodo posto de única “celebridade†de Campo Formoso.

Cineas Santos

Written by admin in: Dois dedos de prosa |
jan
25
2010
2

DA ARTE DE ENGABELAR OTÃRIOS

Durante alguns anos, tive um carrinho peba, ronceiro, sestroso que, justo por esses atributos, ganhou a alcunha de “jumentinhoâ€. Vez que outra, em momento de maior necessidade, o ordinário me deixava  na mão. Ainda assim, na hora de me desfazer do condenado, senti uma pontinha de tristeza. Como o carrinho era azul, julguei ser o motivo do apego. Não era. Na verdade, o que me ligava ao caranguinho era a placa: LVO – 0564. No desenrolar dessa arenga, vocês entenderão.

Dia de Reis, no Shopping da Cidade, eu participava, com vivo entusiasmo, da festa organizada pelo professor Vagner Ribeiro. De repente, durante a apresentação do Reisado de Mãe Feliciana, um dos mais antigos de Teresina, fui abordado por um cidadão humilde, idade inescrutável, com  aquele ar de quem não foi acariciado pela vida. Maneiroso, pediu licença para aproximar-se, elogiou a iniciativa da festança  (lembram-se daquela sensação do álcool na pele antes da picada da agulha?) e gaguejou: -Professor, eu gosto muito de reisado; sou do interior e acompanhava essa brincadeira quando era menino… Preparei-me para a facada. – Parei pra apreciar a brincadeira, deixei minha bicicleta ali na porta, com minhas ferramentas na garupa e veja o que sobrou dela! Com ar compungido, exibiu o arco de um cadeado pequeno, o arco sem o cadeado, naturalmente. – Veja o senhor: a gente para pra assistir uma festa de santo e vem um malfazejo e leva o pouco que a gente tem… Agora tô aqui precisando de uma passagem pra voltar pra minha terra… Antes de cair no choro, o que me estragaria a maquilagem, saquei os caraminguás que trazia no bolso e entreguei-lhe. Num átimo, o cidadão soverteu-se na multidão. Com seus botões, deve ter dito: engabelei mais um otário…

O ruim dessa história é saber que está sendo depenado e não conseguir safar-se. Certa feita, em Salvador, resolvi conhecer a tão decantada Lagoa do Abaeté. Bruta decepção! Na verdade, o trem não passa de um barreiro escuro, cercado de areia branca. Nem tive tempo de curtir meu desapontamento. Fui encurralado por um enxame de ciganas, todas devidamente caracterizadas, com aquela prosa preguiçosamente envolvente: “com azeite de dendê, não vai doer nada,meu rei†… Tentei vãmente desvencilhar-me da horda que, como hienas famintas, me cercavam por todos os lados. Uma me falou de “uma loura maldosa que só quer o seu dinheiroâ€; a outra, de “um sócio que está lhe roubandoâ€, etc. Quando me liberartaram, eu estava literalmente na lona. Retiraram-se cantando uma toada alegre e, naturalmente, comemorando a féria conseguida à custa de  mais um otário

Ao longo da vida tem sido assim: pressinto a facada, mas não consigo evitá-la. Aparvalhado, acovardado, deixo-me explorar  sem reação como uma criança indefesa.

Antes que me perguntem onde a placa do carrinho entra nessa história, lembrem-se das letras LVO. Pois é: um amigo gozador decifrou o enigma com a mais absoluta propriedade: “Lá Vai  o  Otárioâ€. Como diria meu irmão mais lúcido, cada um para o que nasce…

Cineas Santos

Written by admin in: Dois dedos de prosa |
jan
19
2010
2

A CARA MAIS ALEGRE DO PIAUÃ

Há trinta e três anos, por minha conta e risco, arrebanhei um pequeno grupo de jovens (Paulo Machado, Rogério Newton, Fernando Costa, Alcide Filho e Margô Coelho), formei uma trupe mambembe e embrenhamo-nos pelos sertões do Piauí. Objetivo: ver, ouvir, ensinar, aprender, conviver. Amontoados num velho fusca verde-sonho, fomos a Oeiras, Floriano, São Raimundo Nonato e José de Freitas. Por falta de dinheiro para a gasolina do fusca, arquivamos o sonho. À época, nenhum de nós sabia que estava lançando ali as sementes do projeto A Cara Alegre do Piauí. Pouco tempo depois, eu e o Paulo Machado passamos a ministrar cursos de literatura piauiense para professores no interior do Estado. Quando Elias Arêa Leão assumiu a Secretaria de Cultura do Piauí, montamos uma trupe bem mais encorpada e voltamos a mambembar pelos sertões. Finalmente, em 97, na cidade de Parnaíba, o poeta e professor Fernando Ferraz batizou a cabroeira com o nome de A Cara Alegre do Piauí, usando um argumento irrefutável: “Há séculos, mostramos sempre a cara triste do Piauí. O máximo que conseguimos foi a piedade de alguns e o escárnio da maioria. Chegou a hora de mostrarmos a face luminosa de nossa gente: a rica e multifacetada cultura do Piauíâ€.Com o novo rótulo, o projeto ganhou asas e percorreu praticamente todo o estado do Piauí, de Parnaíba a Guaribas.

O grupo enriqueceu-se, com a participação de músicos, coreógrafos, escritores, professores, ecologistas, etc. Hoje, somos 30 voluntários a serviço da educação e da cultura do Piauí. Tantas fizemos, que fomos tema de um programa especial da Globo News, realizado pelo poeta Claufe Rodrigues. Curiosamente, nunca nos sentamos para traçar um plano de trabalho. Como time que joga junto há muito tempo, ao entrar em campo, cada um sabe  o que vai fazer e faz  com engenho e arte.

No final do ano passado, o Cara Alegre foi contemplado com um ponto de cultura (FUNDAC – MINC). A partir de agora, mais que eventos esporádicos, poderemos dar continuidade às ações iniciadas quando da visita do grupo a determinado município. Inicialmente, vamos oferecer cursos de história do Piauí e literatura piauiense para professores da rede pública de ensino. Para os alunos, oficinas de xilogravura, violão e flauta doce. No campo da música, estamos iniciando a gravação de um DVD – Pássaros da Terra - com os músicos mirins do Piauí.

Atendendo a exigência do MINC, vamos adquirir o kit multimídia: máquina fotográfica, filmadora, notebook, data show, etc. Na sede do Projeto – Rua 7 de Setembro – 671, estamos montando um pequeno estúdio para gravação de CDs e DVDs.

É gratificante coordenar um projeto que conta com a participação de pessoas do nível de prof. Santana, Erisvaldo Borges, Paulo Machado, Fonseca Neto, Catarina Santos, Luíza Miranda, Rosinha Amorim, Halan Silva, Luiz Romero, Tânia Martins, Gabriel Archanjo, Geni Costa, Graça Vilhena, Carlos Martins, Vanda Queiroz, Wilker Marques, para citar apenas alguns. A filosofia do projeto continua a mesma: o saber só faz sentido quando compartilhado. Assim seja.

Cineas Santos

Written by admin in: Dois dedos de prosa |
jan
11
2010
2

UM JEITO NOVO DE INICIAR O ANO

No sertão onde nasci, apenas duas datas tinham, efetivamente, algum significado: a sexta-feira da paixão e o primeiro do ano. Na sexta-feira grande, não se podia fazer quase nada. Não se tomava banho, não se tirava a barba, não se ordenhavam as vacas, não se comia carne, não se falava alto. Os mais devotos passavam o dia em completo jejum e alguns até se autoflagelavam . Já no primeiro dia do ano, podia-se quase tudo, inclusive percorrer a pé duas ou três léguas à caça de um forró de latada, mesmo sabendo que o sanfoneiro era ruim, a cachaça estava batizada, as mulheres eram poucas e os arruaceiros, muitos. Não bastasse isso, as escaramuças eram comuns e, por um nadinha, alguém era mandado para o reino da glória…

Quando me transplantaram para a cidade, apresentaram-me a palavra réveillon, que trazia consigo alguns penduricalhos: queima de fogos, roupas brancas, música de gosto duvidoso, espumante ordinário, dor de cabeça e felicidade compulsória. Perdi o interesse pela data. Decididamente, já não se fazem entradas de ano como antigamente. Ganhou-se em barulho; perdeu-se em lirismo.

Este ano, decidi iniciar o ano novo com um programa diferente: passear por ruas, becos e praças da cidade amada. Saí cedo, sozinho e, sem pressa ou roteiro preestabelecido, fui avançando: Monte Castelo, Redenção, Macaúba, Porenquanto, Buenos Aires, Poti Velho, Vila Operária e, finalmente, centro histórico. Sem a torrente de automóveis que entulha ruas e avenidas, Teresina é uma cidade sossegada, encantadora. Lavada pelas chuvas que caíram à noite, a cidade mais parecia uma dessas donas de casa que, de cara limpa, senta-se à porta apenas para olhar o espetáculo da vida na rua. Lembrei-me de um tempo, não muito distante, em que se podia atravessar a cidade inteira, do Poti Velho à Tabuleta, sem risco de ser molestado.  Quando muito, era-se abordado por um bêbado tresmalhado que pedia um cigarro ou um trocado para mais um gole de pinga. Os poetas notívagos, capitaneados por William Soares, eram os pastores da noite a perambular por bares e biroscas onde se discutia poesia, falava-se mal da ditadura e campeava-se mulher disponível, mesmo que fosse a do próximo…

Um dia, alguém acometido de megalomania galopante resolveu trocar o rótulo “cidade verde†por “grande Teresinaâ€. Como se movida por uma força estranha, a cidade verticalizou-se, livrou-se dos quintais, ganhou shoppings,  edifícios com nomes pomposos,  engarrafamentos  enervantes  e encheu-se de lojas barulhentas, templos evangélicos e motéis. Despiu-se do verde, cercou-se de favelas e nunca mais foi a mesma.

No primeiro dia do ano que se inicia, com as “retinas fatigadasâ€, olhei minha cidade como quem olha o que já não lhe pertence.  Como naquela remota manhã de maio de 65, quando me despejaram na Praça Saraiva, voltei a sentir-me apenas um náufrago…

Cineas Santos

Written by admin in: Dois dedos de prosa |
jan
04
2010
2

POR QUE AINDA ESTOU POR AQUI

Ao longo dos últimos 60 anos, ou seja, durante toda a minha existência, sempre tive o cuidado de manter prudente distância do poder. E nem vou invocar o Lord Acton, que afirmava: “O poder tende a corromperâ€. O poder simplesmente não me atrai nem me fascina, a não ser o poder de divino, pleno, ilimitado. Parafraseando Paul Valéry, só o poder absoluto tem encanto. Mas deixemos de erudição barata, que o chão é minha praia. Convidado pelo Dr. Sílvio Mendes a integrar sua equipe de governo à frente da Fundação Municipal de Cultura Mons.Chaves, tive o cuidado de adverti-lo: Senhor Alcaide, acredito que sirvo melhor ao município de Teresina longe de qualquer instituição pública.O prefeito não me ouviu e aqui ( ainda) estou.

Dirigir a FMC é uma experiência complicada, para dizer o mínimo. Antes mesmo de sentar-me na cadeira da presidência, já um coro de ensandecidos pedia a minha cabeça. Em um ano de serviço público, já peguei mais cipoadas que durante toda a minha vida. Basta contrariar algum interesse, legítimo ou não, para que chovam bordoadas. Como me falta jogo de cintura, não consigo esquivar-me.

Assumi a presidência da FMC num ano difícil: a crise rondava as prefeituras do país, exigindo prudência, cortes, prudência e muita responsabilidade. A despeito disso, cumprimos rigorosamente o Calendário Cultural da Fundação e, sem estourar o orçamento, iniciamos alguns projetos bem-sucedidos. Ressuscitamos o Projeto Picoler, de grande alcance social; incorporamos o Festival Nacional de Violão do Piauí à programação da FCM; instituímos o Festival de Música de Teresina, cuja primeira edição se realizou no aniversário da cidade; criamos os projetos Música na Praça, Arte Itinerante e Teresina Visita, todos funcionando regularmente. É escusado afirmar que pretendíamos fazer mais, muito mais. Fizemos apenas o possível. Em meio a muitos aborrecimentos, tivemos algumas alegrias: ampliamos o número de alunos inscritos nos projetos Musicalizando e Violão na Escola: hoje são mais de 700 crianças inscritas nos projetos; 50 delas, as mais adiantadas, já integram a Orquestra de Violões de Teresina. Impossível não esquecer a experiência do garoto Leonardo de Cáprio ( 9 anos de idade), que trocou um cabo de vassoura por um violão e, em menos de um ano de estudo, já toca por partitura.É comovente e animador, ver duas garotas, de 11 e 9 de anos idade, tocando sax e trompete, respectivamente, numa das bandas juvenis mantidas pela FMC. Estamos contribuindo para elevar a autoestima da molecada mais necessitada.

Mas as provocações persistem. Na semana passada, um repórter me fez a seguinte pergunta: – O que você vai fazer quando deixar a presidência da fundação? Resolvi dar o nó nos neurônios do impertinente. Respondi: Como faço há 40 anos, vou continuar briquitando em defesa da face luminosa do Piauí sem ter de aturar as aleivosias de néscios e apedeutas do seu jaez. Consta que, desarvorado, o infeliz regressou à redação do jornal onde trabalha, gritando: Meu reino por um Aurélio!

Cineas Santos

Written by admin in: Dois dedos de prosa |
dez
28
2009
2

CARTA ABERTA A UM VELHO RANZINZA

Prezado Noel:

É escusado dizer o quanto me custou antepor o adjetivo prezado ao seu nome. Como é do seu conhecimento, eu não o prezo, e a recíproca deve ser verdadeira. Quanto à carta aberta, não tome o meu gesto como indiscrição ou exibicionismo. Quis tão-somente poupá-lo do trabalho ingente de localizá-la em meio à avalanche de cartas que, nesta época do ano, ameaça soterrá-lo. Nada além.

Mas vamos ao que (me)interessa: a primeira vez que ouvi falar do seu nome, eu ainda morava nos cafundós do Caracol. Como qualquer moleque do meu tope, campeava nuvens, conversava com o vento e não me ardia o desespero de ser dono de nada, como diria o poeta Dobal. Eis que, numa manhã qualquer de dezembro, minha mãe, que acabara de chegar da cidade, me entregou um balãozinho vermelho, desses que os moleques de hoje se comprazem em estourar com pés nas festinhas de aniversário. Limitou-se a dizer: “Foi o Papai Noel que mandouâ€. Ressabiado, mas curioso, aceitei o presente e tratei de inflá-lo para atiçar a inveja dos companheiros de traquinagens. Tamanho foi o meu entusiasmo que o balãozinho, depois de um pluft, desfez-se em tirinhas de borracha sem qualquer serventia. Creio ter sido aquela a minha primeira decepção. Chorei tudo o que tinha direito e prometi a mim mesmo que jamais voltaria a chorar por algo perdido ou não conquistado. Assim tem sido. Jurei também odiá-lo para todo o sempre.

Mais tarde, já em São Raimundo Nonato, na véspera do Natal, encontrei, num canteiro mal cuidado, uma pequena imagem de Nossa Senhora de Fátima. Coberta de poeira, abandonada e triste, parecia ter sido jogada ali por alguém que perdera a fé. Encarei o fato como uma mensagem sua: uma tentativa de reconciliação. Prontamente, aceitei-a. Limpei a imagem da fralda da camisa e voltei correndo para casa. Dona Purcina, precisa como um tiro de lazarina, não se comoveu com a minha versão. â€Quem acha o que não perdeu não é o donoâ€, limitou-se a dizer e me obrigou a devolver a imagem ao canteiro onde a encontrei. Não podendo odiar minha mãe por razões de ordem prática : medo de taca, descarreguei todo o meu ódio em você. Jurei que , um dia, ainda lhe arrancaria todos os fios da barba com um alicate enferrujado.

Na adolescência, perdidamente apaixonado por uma fulaninha, passei-lhe uma cantada em regra (sodo tempo em que se cantava mulher). Com ensaiada timidez, ela me prometeu a resposta para a noite de Natal. Estávamos em outubro. Foram dois meses de expectativas, sonhos, pesadelos, febres, poluções noturnas e outras coisinhas impublicáveis. Na noite aprazada, coração aos pulos, fui procurá-la. Sem se despedir, a moça deixara a cidade com a família. Chorei, chorei, “até ficar com dó de mimâ€, como naquela canção do Chico. Jurei que jamais voltaria a chorar por mulher alguma, jura que não cumpri…

Cresci, envelheci, e muitos natais se passaram sem que nada de extraordinário acontecesse. Para ser franco, meu ódio arrefeceu. Cheguei mesmo a ignorá-lo. Como diria um amigo cruel: “Papai Noel é só um velho senil, acompanhado de veados, que se presta ao papel de camelô de ilusões a serviço do capitalismo selvagem 

Eis que, na semana passada, um outdoor de uma fábrica de sapatos mexeu comigo. Nele, vê-se uma perna linda, fornida, generosa, enrolada com fitas coloridas, pronta para ser comida (com os olhos), permita-me a liberdade de expressão. Foi aí que me ocorreu a ideia de lhe fazer uma proposta. Já que é final de ano, tempo de paz, por não aproveitamos a oportunidade para fazermos as pazes? É simples: você me manda a dona daquela soberba perna (pode ser zarolha, dentuça ou corcunda) e eu esquecerei todas as nossas divergências pretéritas. De quebra, para mostrar que não guardo ressentimento, passarei a tratá-lo por Papai Noel, como fazem as pessoas normais.

PS: não precisa trazê-la: irei buscá-la pessoalmente.

Fraternalmente, velho Ancião

Written by admin in: Dois dedos de prosa |
dez
21
2009
2

NOTÃCIAS DA VILA

Vista à distância, Vila Nova do Piauí mais parece um desses arruados que nascem espontaneamente à margem das rodovias. Desmembrado de Padre Marcos há 14 anos, com uma população minúscula (menos de 4 mil habitantes), o município de Vila ainda tem muitos desafios a vencer, o mais urgente deles: solucionar o problema de água potável. Nos meses de estiagem, a prefeitura ainda tem de recorrer aos velhos carros-pipas para amenizar o problema. A despeito disso, Vila Nova ostenta um dado de matar de inveja a maioria dos municípios brasileiros: nos últimos dois, a mortalidade infantil foi reduzida a zero, isso mesmo. Não se registrou a morte de nenhuma criança.

Mas os vila-novenses têm outro motivo para se orgulhar da terrinha onde vivem: uma excelente biblioteca com 13 mil volumes, e uma média de 700 consultas por mês. A  Biblioteca Patativa do Assaré foi construída antes da edificação da igreja. Não bastasse isso, a cidade é pacífica, as mulheres são belas e os rapazes, para cortejá-las, fazem poemas, bateladas de poemas. Não por acaso, a Vila já ostenta o título de “Cidade Poesiaâ€.

Situada num ponto equidistante entre  Ceará e Pernambuco, Vila Nova ameniza a aridez da paisagem com manifestações culturais  ricas e variadas. Neste mês, por exemplo, entre os dias 11 e 14, realizou-se a 3ª edição do Congresso de Cultura, que contou com a participação de, entre outros: Assis Brasil, Rosemberg Cariri, Chagas Vale, Luiz Romero, Jurdam Gomes, Nilson Ferreira, Hipólito Moura, João Lourenço, Jailson Luz, Dorgival Dantas e Luís Varão. O homenageado desta edição foi  Patativa do Assaré, cujo centenário de nascimento se comemora este ano. Representando o clã do velho poeta, esteve presente Pedro da Silva, filho mais novo de Patativa. Música, teatro,  oficinas, debates, lançamento de obras literárias, desafios de violeiros, forró, feira de livros e produtos artesanais e, principalmente, uma plateia atenta e generosa, composta de gente de todas as idades. Nada menos de 600 pessoas,  com representantes de 16 minicípios vizinhos, participaram do evento. Uma festa de encher  olhos e corações .

Vila Nova é uma clara demonstração do poder transformador  da cultura e da arte e de sua capacidade de elevar a autoestima do povo. No rosto de cada vila-novense, percebe-se nitidamente o orgulho dos que não pedem licença para existir. Longa vida, plena e luminosa, à brava gente da VILA.

Written by admin in: Dois dedos de prosa |
dez
14
2009
2

NO FUNDO DA REDE

A rede, como qualquer pessoa saudavelmente preguiçosa sabe, foi a maior contribuição que os índios nos legaram. Graças a ela, passamos mais tempo pensando que fazendo bobagens. É simples: quanto mais tempo passarmos deitados, menos danos causaremos aos nossos irmãos, à Natureza, ao Planeta… Mas isso será tema de outro arremedo de crônica em futuro próximo. O objeto dessa arenga é outro.

Há coisa de três anos, o poeta Paulo Machado, irmão e amigo, presenteou-me com uma bela rede, larga, generosa e acolhedora como um colo materno. Feita sob encomenda por mãos peritas, tem varandas de crochê e tudo mais. Não bastasse isso, ostenta as cores do brioso Mengão. Uma rede supimpa, diriam os antigos. Presente de tal monta só poderia ser usado em momento festivo. E o momento se me apresentou quando minh’alma andava meio embaçada pela tristeza. Uma cabeçada certeira de um zagueiro, cuja carreira quase se encerrou de modo trágico, e a bola foi aninhar-se, carinhosamente, no fundo da rede. Num átimo, a nação rubro-negra contagiou com sua alegria transbordante todas as almas sensíveis dessa República enxovalhada por escândalos de todas as versidades. Um cometa luminoso brilhou no céu da pátria… Do Oiapoque ao Chuí, o grito uníssono: “Uma vez Flamengo/ Flamengo até morrerâ€!

Depois de um jejum de 17 anos, sob o comando de Andrade, um dos remanescentes daquela máquina de triturar adversários, o Mengo tornou-se hexacampeão, tendo como principais estrelas dois jogadores problemáticos e, para muitos, “acabadosâ€: Petkovic e Adriano. O primeiro, “velho demais†para a função de meio-campista; o segundo, “um farrista bipolarâ€. Peti, repetindo as lições de Didi e Gérson, demonstrou que quem precisa correr é a bola; o Imperador, por seu turno, abiscoitou o título de artilheiro do campeonato. “Capricho dos deuses do futebolâ€, diria um cronista paulista, repetindo um chavão desbotado.

Como não sou torcedor de sair por aí atirando pedras nos adversários, curti a conquista sem muito barulho. Sou um flamenguista atípico: torci (e como!) para que o Vasco ascendesse à primeira divisão e, principalmente, para que Fluminense e Botafogo não fossem rebaixados. Gosto de ver o meu time vencer adversários fortes: ser lobo entre cordeiros é a “glória†dos fracos. E fraqueza não combina conosco.

O Flamengo já nasceu vitorioso: no primeiro campeonato que disputou (em 1912), com Buena, Píndaro, Nery, Curiol, Gilberto, Galo, Baiano, Arnaldo, Amarante, Gustavo e Borgerth, derrotou o Mangueira pelo placar de 16×2, levando aquela brava gente a desistir definitivamente do futebol para dedicar-se ao samba. Bater em tamborim é bem mais fácil que bater o Mengão.

Na noite de domingo, enquanto meus irmãos de credo e cor desfilavam pelas ruas da cidade, cantando e batucando, armei minha rede rubro-negra, “cheirando a guardado de tanto esperarâ€, abri uma garrafa de vinho e, com ardente paciência, esperei a chuva que se anunciava. E ela veio: suave, silenciosa e acariciante como os dedos da mulher amada. E meu coração de velho, encharcado de alegria, voltou a pulsar no ritmo dos tambores. Como já afirmei tantas vezes: Deus é velho, muito velho e não abandona os Seus.

Written by admin in: Dois dedos de prosa |
dez
07
2009
2

A TRISTE SINA DO GATO VELHO

Vivemos sob a insuportável ditadura da estética, garantem os entendidos. Poderiam acrescentar: patrocinada por uma indústria que fatura, anualmente, bilhões de dólares. Sob suas asas, agasalham-se fabricantes de cosméticos, laboratórios farmacêuticos, cirurgiões plásticos, esteticistas, nutricionistas, agências de publicidade e charlatões em geral.O cientista inglês Aubrey de Grey, presidente da Fundação Matusalém, afirmou que, num futuro próximo, o homem poderá viver mais de mil anos sem maiores problemas. Para o sábio da Universidade de Cambridge, “a fonte da eterna juventude está na reparação dos danos moleculares e celulares que ocorrem no organismo do homem ao longo do tempoâ€. Como ferramenta para reparar as “peças danificadasâ€, o cidadão pretende utilizar vírus modificados, glóbulos brancos e bactérias. Hoje, no entender dos sábios, só envelhece quem quer; só morre quem não se cuida. Consternado, todos os dias, ao barbear-me, coço a carapinha recoberta de algodão, confiro os sulcos deixados pelo tempo em minha face e me sinto um suicida…

Houve uma época, não muito distante, em que quem se submetia a uma cirurgia plástica fazia tudo para ocultá-la; hoje, o (a) paciente pede ao cirurgião: Doutor, o senhor poderia pôr sua assinatura aí embaixo para eu matar os amigos de inveja! Por oportuno, vale lembrar que Martha Rocha perdeu a coroa de miss universo “por duas polegadas a mais nos quadrisâ€; Hoje, todas as concorrentes ao cetro são esculpidas a bisturi ou recheadas de silicone. O tempora! O moris!

Certa feita, Millôr Fernandes escreveu (estou citando de memória): Não entendo essas moças que fazem o possível e o impossível em busca de um corpo perfeito e depois qfirmam que não querem ser julgadas apenas por sua beleza física. Pois eu queria ser julgado, pelo menos uma vez na vida, por outro atributo que não fosse a minha inteligência.

Lembrei-me dessa tirada quando, na semana passada, fui abordado por uma carroceira. Negra, pobre, idade inescrutável, aquela cidadã não fora poupada pela vida. Humildemente, pediu-me que fizesse uma matéria com ela para o programa “Feito em Casaâ€. Expliquei-lhe que, infelizmente, o programa não possui esse viés assistencialista. Por falta de coisa melhor, dei-lhe os caraminguás que trazia no bolso. A cidadã invocou as sete mil virgens para que derramassem bênçãos sobre minha cabeça. Não bastasse isso, delicadamente pegou no meu braço e disparou: – Que Deus lhe faça ainda mais gato! Diante do meu espanto, repetiu, escandindo as sílabas: – DEUS LHE FA-ÇA A-IN-DA MAIS GA-TO!

Ao longo da vida, já fui chamado de quase tudo: feinho, feioso, feião e, ultimamente, feivéi. Gato, nunca! Pensei comigo: finalmente, alguém descobriu em mim aquela beleza recôndita que não se mostra aos olhos levianos. Infelizmente, minha existência felina durou menos de meia hora. Eufórico, contei o ocorrido a uma dileta amiga, que se limitou a dizer: – Em vez de esmola, você bem que poderia ter conseguido uma consulta com um oftalmologista para aquela pobre velha. Desacorçoado, desci do telhado e voltei ao chão da feiura que me acompanha desde sempre como um encosto. Está escrito:ninguém foge à sua sina…

Cineas Santos

Written by admin in: Dois dedos de prosa |

Powered by WordPress | Aeros Theme | edivaldonunes.com