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VOZES DA CIDADE

Dia desses, um político de carteirinha, desses cevados nos gabinetes da República, me fez a seguinte pergunta: “Professor, por que  o final da letra do Hino de  Teresina é tão pra baixo? “. De imediato, lembrei-me de uma coluna criada pelo Millôr Fernandes, denominada “Ministério das perguntas cretinas”. Engatilhei uma resposta condizente, mas segurei o freio de mão. Respondi: Talvez tenhamos ideias diferentes do que seja “para baixo”. Vejamos a última estrofe do hino: “Teresina, eterno raio de sol,/ Manhãs de claro azul num céu de anil;/ És fruto do labor da gente simples,/ Humilde entre os humildes do Brasil”. Pensando bem, o político tem razão: para um arrivista capaz de vender a alma ao diabo para chegar ao poder, os adjetivos simples e humilde devem soar depreciativas. Não bastasse isso, convém lembrar que os hinos, com raras exceções, são marchas marciais que conclamam os cidadãos a morrerem pela pátria. Até mesmo os hinos dos clubes de futebol, além de cantarem glórias e conquistas, incitam os torcedores a morrerem e matarem “pelas cores do time”.  E como matam e morrem…

No caso de Teresina, há um dado curioso: a cidade passou 145 anos sem ter um hino, fato incomum. Pode-se argumentar que, a despeito disso, a capital cresceu e prosperou, o que é  verdade. Mas, por oportuno, vale ressaltar que o homem é um animal que constrói sua identidade com símbolos. Alguém é capaz de imaginar o Cristianismo sem a imagem da cruz? Um hino, por pior que seja, é um símbolo e, como tal, deve  ser entendido. Não por acaso, a autoestima do teresinense anda quase sempre ao rés do chão.

Como entrei nessa história? Bem: em 1997, a prefeitura de Teresina instituiu um concurso público para a escolha do hino da cidade. O músico Erisvaldo Borges compôs uma melodia e, sabendo do meu amor à cidade, pediu-me que escrevesse a letra. Na hora, retruquei que, em matéria de hino, o único que conhecia era o do Flamengo que, ainda hoje, mais choro do que canto. Por insistência do músico, encarei a empreitada. Nossa canção acabou sendo a escolhida e tornou-se o Hino de Teresina.

Na hora de iniciar a composição, pensei: vou cantar o essencial.  E o essencial, em qualquer lugar do mundo, é Povo, o mais é paisagem. O Hino de Teresina é uma louvação ao cidadão comum, humilde,  generoso  e trabalhador. O que mais poderia cantar? O sol, os rios e o verde que, infelizmente, vai minguando a cada dia. Nada além.  Não me cabia inventar guerras, feitos heroicos, grandes conquistas. A cidade sempre foi pacata, ordeira e acolhedora.

Talvez o ilustre político tenha considerado “pra baixo” justamente a louvação do povo simples, humilde e trabalhador, que lhe paga o salário e lhe garante um gabinete junto ao poder onde trama, alinhava conchavos e brinca de ser poderoso.

Cineas Santos

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PRESENTE DE PREGO

Antes mesmo do aniversário de Teresina (16 de agosto), a cidade recebe e agradece o “presentão”, louvado na mídia local como algo extraordinário. Engana-se quem, porventura, estiver pensando no tal mirante da ponte estaiada, na vigésima “reinauguração” da Potycabana ou em coisa  parecida. A cidade está exultante com a inauguração de mais um supermercado na zona leste da cidade. Novidadeiro como ele só, o teresinense atendeu ao chamado do “progresso”: lota o gigantesco estacionamento e faz filas para conferir mercadorias, preços e prazos. Segundo uma cidadã bem-nascida que ostenta, com orgulho, um sobrenome pomposo, “Teresina, finalmente, ganha ares de cidade moderna, livrando-se do rótulo provinciano de Cidade Verde”. Acertou em cheio. Para a construção do novo templo do consumo na capital, derrubaram-se dezenas de árvores centenárias. Da noite para o dia, mangueiras, jaqueiras, oitizeiros e cajueiros foram reduzidos a pó.  Onde, até bem pouco tempo, havia um dos clubes mais tradicionais de Teresina, com piscina, campo de futebol e espaçosa área verde, ergueram-se galpões modernosos, com cores berrantes, abarrotados de quinquilharias. Este parece ser o destino de todos os clubes da capital (Flamengo, River, Piauí, Tabajara, Classes Produtoras, etc). Neste ritmo, em dois ou três anos, não sobrará um.

É extraordinário o esforço que os teresinenses vêm fazendo no sentido de despir a capital do tal rótulo “Cidade Verde”, cortesia do escritor Coelho Neto, na década  de trinta. Até onde sei, ainda não se fez um levantamento de quantas árvores são derrubadas em Teresina a cada dia. O tal “cinturão verde” da capital, há muito, tornou-se um amontoado de “vilas”, eufemismo usado para designar as favelas da capital. Quintais e chácaras dão lugar a edifícios de nomes sofisticados ou condomínios fechados que usam como chamariz o anzol da “segurança”. O que se vende não é um produto, mas uma ideia, uma grife, uma expectativa que não se cumpre. “Morar bem”, segundo o conceito dos expertos, é enjaular-se num apartamento com ar condicionado em cada um dos cômodos, circuito interno de televisão, porteiro eletrônico  toda a parafernália que engorda o faturamento da indústria do medo.

Compreensivelmente,  todas as praças de Teresina estão às moscas, exceto as dos shoppings  onde existem ar refrigerado e “segurança”. O teresinense já não consegue viver ao ar livre e, a cada dia, vai-se tornando refém do “clima artificial”  e do medo que, como diria o poeta, “esteriliza os abraços”. Só assim se explica a sofreguidão com que recebe de braços abertos  os presentes de grego que nos chegam a cada dia. Brava gente. Pobre gente.

Cineas Santos

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DAS COISAS IMPOSSÍVEIS (1)

Sempre que faz referência ao Salão do Livro do Piauí, o escritor Edmílson Caminha, citando autor que desconheço, afirma: “Se os meninos soubessem que era impossível, não teriam feito”. Exagero à parte, a sentença contém muita verdade. Quando, em 2003, os professores  Wellington Soares, Luiz Romero e Nilson Ferreira me propuseram participar do que, à época, me pareceu uma aventura errante, fui taxativo: Estou fora! Eu tinha as minhas razões. Durante cinco anos, a duras penas, realizei, praticamente sozinho, cinco edições do  seminário Língua Viva, tarefa para Hércules nenhum botar defeito. Por minha conta e risco, eu convidava grandes autores (Celso Pedro Luft, Antônio Houaiss, Evanildo Bechara, Napoleão Mendes de Almeida, Celso Cunha, entre outros), alugava espaço, contratava som e, como um camelô, saía pelos colégios de Teresina tentando convencer os diretores das escolas a liberarem (na verdade, libertarem) os professores para que pudessem  participar do evento. Colecionei toneladas de nãos. Eu estava farto daquilo.

Os três mosqueteiros voltaram à carga e, desta feita, já me trouxeram um projeto formatado, muito embora nenhum deles tivesse a menor ideia do custo de um salão e, menos ainda, de onde sairiam os recursos para bancá-lo. A bem da verdade, nenhum de nós tinha qualquer experiência na realização de grandes eventos. Não bastasse isso, éramos (somos ainda) apenas um punhado de duros. Mas o Wellington é movido a desafios e acabou me arrastando para a empreitada. Assim, na primeira semana de julho de 2003, realizamos a primeira edição do SALIPI no velho Centro de Convenções de Teresina. De todas as dificuldades, a maior foi convencer os livreiros a participar. Com a colaboração de alguns  parceiros – Governo do Estado e Prefeitura de Teresina, desde a primeira hora – realizamos o que, aos olhos de muitos, parecia impossível: um grande e belo salão. Eu não teria a menor dúvida em afirmar que o SALIPI só se viabilizou porque os teresinenses adonaram-se dele. Aspiração antiga, o público compareceu em peso, obrigando os incrédulos a prestarem atenção nele. A mídia piauiense, por seu turno, acreditou no Salão e deu-lhe a necessária visibilidade.

Ao longo desses anos, tivemos muitas decepções e grandes alegrias. Para mim, a maior delas foi receber de uma cidadã do povo um cofrinho de barro com um punhado de moedas e o pedido de desculpas: “O senhor me desculpe, mas espero que dê para pagar o almoço de um dos convidados”. Não deu porque aquele cofrinho continua fechado: tornou-se uma espécie de amuleto. Como um objeto sagrado, é inviolável.

Impossível saber aonde essa aventura vai dar, mas parece que até a grande mídia já descobriu que a SALIPI existe. Para mim, que ultimamente tenho participado pouco, ver milhares de crianças da periferia da cidade adentrarem o espaço do Salão, como gralhas felizes, já me diz que valeu a pena. O Poeta tem razão: “Tudo vale a pena/ se a alma não é pequena”. A nossa é do tamanho do universo.

Cineas Santos

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DAS COISAS QUE NÃO SE ESQUECEM (4)

Novembro chegou e com ele, as primeiras chuvas. Com as chuvas, vieram a alegria e o Zé Sanfoneiro. Passageiro do vento, nada conduzia. Nunca se soube de onde vinha. Não tinha destino certo nem prazo para chegar. Teria pouco mais de 30 anos de idade, estatura mediana, cabelos ruivos e barba rala. Tinha um quê de Jackson Antunes.  Por causa dos dentes proeminentes, parecia estar sempre sorrindo. Falava pouco e tocava o tempo inteiro. Curiosamente, não tinha sanfona, melhor dizendo, tinha uma sanfona imaginária. As costelas funcionavam como um teclado que os dedos ágeis, nervosos, percorriam num frenesi sem termo. Com a mão esquerda, fazia o movimento de abrir e fechar o fole do instrumento invisível. Com a boca, emitia uma infinidade de sons. Tocava basicamente baiões, xotes, cocos, forrós e frevos. O repertório contemplava Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Sivuca, Pedro Sertanejo e outras feras nordestinas. Tocava bem: era afinado e não  saía do ritmo.  Em curtíssimo espaço de tempo, conquistou a todos nós.

Como já afirmei em outras oportunidades, dona Purcina tinha o condão de atrair loucos de todas as versidades.  Zé Sanfoneiro era  mais um. Chegou num final de tarde, sentou-se na calçada alta e, sem se fazer de rogado, começou a tocar. Minha mãe ouviu as músicas, cantou uma delas e entrou na casa. Ao retornar, trazia um taco de rapadura, um pouco de farinha e uma caneca d’água. Como naquela propaganda do uísque, pensei comigo: “entrou para o clube”. A comida e a água eram uma espécie de senha: a partir daquele instante, o Zé Sanfoneiro passava a integrar a grei dos “loucos da tia Purcina”.

Em nossa casa havia uma lei que se cumpria à risca: só comia quem trabalhasse. Assim, entre uma “sanfonada” e outra, o Zé cortava lenha, dava ração aos bichos, capinava. Não causava espécie vê-lo interromper um quefazer para solar um frevo. Lá de dentro, dona Purcina berrava: “Primeiro a obrigação; depois, a devoção”. O Zé entendia e voltava ao batente. Até seu Liberato, que não apreciava os hóspedes da matriarca, encheu-se de afeição pelo Sanfoneiro. Às vezes, acendia um cigarro e pedia: “Zé, toca aquela do pássaro cego”.  O Zé empertigava-se, respirava fundo, e sapecava “Assum Preto”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. O velho concedia-lhe o único elogio que conhecia: “Tocou conforme, Zé”.

Numa manhã qualquer de abril, sem mais nem menos, o Zé Sanfoneiro levantou-se, sacudiu a poeira da roupa e, sem se despedir de ninguém, partiu tocando “A volta da asa branca”. Foi-se afastando, afastando, até ser engolido pelo azul…

Às vezes, quando estou sozinho, me surpreendo tocando minha sanfoninha imaginária. O repertório é basicamente o mesmo do Zé Sanfoneiro, mas as notas nem sempre saem nítidas e afinadas… Fazer o quê? O Zé era um louco profissional; quanto a mim, nunca passei de um amador.

Cineas Santos

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DAS COISAS QUE NÃO SE ESQUECEM (3)

1969. A pretexto de combater os terroristas, a ditadura recrudescia. Prisões, mortes, desaparecimentos. A censura, como o big brother (o do Orwel), adivinhava até os pensamentos mais recônditos. Ásperos tempos. Justo naquele momento, resolvi criar um grupo de teatro: Teatro Popular do Piauí. Na verdade, uma trupe mambembe sem maior experiência e sem qualquer veleidade profissional.  Integravam-na: Lázaro, Moacir, Chico Viana, Sólis, Terezinha e um garoto, cujo nome já não me lembro. Cada um de nós tinha de se desdobrar para fazer quase tudo. As funções se misturavam. Por falta de textos disponíveis, eu e Chico Viana engendramos uma peça – “Uma noite entre miseráveis” – pastiche ordinário de “Dois perdidos numa noite suja”, de Plínio Marcos, e “Morte e vida Severina”, de João Cabral. Por obra e graça do Espírito Santo, permitiram-nos ensaiar a peça no auditório do Colégio Diocesano, “território livre” da ingerência dos esbirros. Não havia cenário, iluminação, nada. Estávamos inaugurando, na Chapada, o teatro nu e cru.

Onde montar a peça? Em Teresina, nem pensar. Foi aí que Chico Viana e Moacir tiveram a ideia de levar a peça a Bacabal (MA), onde o prefeito era boa praça e o Moacir tinha uma namorada. Acertou-se o dia da apresentação, fizemos meia dúzia de ensaios e embarcamos num dos “expressos” da Líder. Lá pelas tantas, olhei para o Viana e perguntei: – E se, avisada pelo capitão Astrogildo, a PF estiver no esperando em Bacabal?  O Viana sorriu e desconversou. Pura paranoia: a Polícia Federal não tomara conhecimento das nossas estripulias.

Chegamos a Bacabal e, numa deferência especial, o prefeito se dignou a nos receber em seu gabinete. Era um cidadão corpulento, alegre, bonachão, com um sorriso confiável. Ao lado dele, um homem cinzento com cara de quem já morreu e ainda não foi comunicado. De repente, adentra o gabinete um cidadão baixo, chapéu Panamá, trajando um conjunto cinza, com olhar de ave de rapina, o perfeito estereótipo do policial civil. Tirou o chapéu e, alto e bom som, declarou: – Peço licença a Vossa Excelência para, em nome da revolução prender este indivíduo!  Disse isso sem apontar para o tal “indivíduo” que, por supuesto, como dizem los hermanos argentinos, só poderia ser eu. Por alguns segundos perdi a noção do tempo, minha respiração tornou-se pesada, a saliva, travosa e a visão embaçada. Naquele momento, descobri que o medo tem cheiro, gosto e cor. Foram segundos que duraram uma eternidade. Tão aparvalhado estava, que nem percebi que tudo não passava de uma brincadeira do coletor estadual com o vice-prefeito, o homem cinzento. Todos riram da patuscada, menos eu que, em estado deplorável, limitei-me a perguntar: – Por favor, onde fica o banheiro?

Naquela manhã, percebi que não tinha cujones para tornar-me um “subversivo”. À noite, apresentamos a peça, a plateia generosa nos aplaudiu, o prefeito nos deu trezentos cruzeiros e o Teatro Popular do Piauí desapareceu sem deixar saudades. Ufa!

Cineas Santos

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DAS COISAS QUE NÃO SE ESQUECEM (2)

Na remota década de 60, todos os dias, no final da tarde, uma cambada de moleques entanguidos plantava-se à porta da casa de dona Purcina, no bairro Aldeia, à espera da ração de bola. Éramos quase todos do mesmo tope e todos da mesma cor: marrom-descaso. Integravam a cabroeira: Cleto, Valdemar, Paredão, Tonico, Berto, Zé do Jaburu, Orlando da Bela, Nivaldo, Walter do Candinho, Pedro e Solimar. Eventualmente, apareciam no terreiro: Marcelo Castro e Antônio Macedo, os dois únicos bem-nascidos do bando. Os outros éramos xerém. À época, bola era produto raro e caro. Muitas vezes, disputamos rachas animadíssimos com prosaicas bexigas de boi ou bolinhas de meia. No dia em que comprei minha primeira bola de borracha, uma autêntica “casco-de-peba”, não consegui me concentrar na aula: meu pensamente não se desgrudava dela. Parafraseando Bandeira, aquela bolinha foi minha primeira amante. E como o porquinho-da-índia do Poeta, ela não fazia o menor caso dos meus acenos e carinhos: preferia os chutes certeiros de Paredão e Solimar, o que me deixava roído de ciúmes…

Perdidos naquela aldeia remota, onde o rádio era um luxo só permitido a dois ou três ricaços, tínhamos uma verdadeira veneração pelo único time que conhecíamos: o do Pelé. Qualquer um de nós sabia de cor e salteado a escalação daquela máquina de destroçar adversários: Gilmar, Mauro, Dalmo, Lima, Zito, Melgálvio, Calvet, Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. À época, o time da Vila não tinha o menor pejo em pegar quatro gols numa partida; Pelé, Coutinho e Pepe, faziam cinco ou seis, dependendo do humor de cada um. Houve um dia, porém (14 de novembro de 63), em que o Milan cruzou o caminho do Santos para tirar-lhe o título de bi-campeão Interclubes. Para desbancar a equipe da Vila, o time italiano contava com a cumplicidade e a competência de dois brasileiros: Mazola e Amarildo, também conhecido como “o possesso”. Para os mais jovens, um lembrete: Amarildo fora o substituto de Pelé na copa de 62 da qual saiu consagrado. Era um centroavante rompedor e perigoso. Não bastasse isso, o Santos, naquele dia, não podia contar com Pelé, Zito e Calvet. 130 mil torcedores, no Maracanã, assistiram, consternados, a um primeiro tempo em que o Santos levou dois gols e não fez nenhum. Nos mais antigos, bateu a síndrome de macaranaço, medo de que se repetisse ali o que ocorrera em 1950, quando perdemos a copa do mundo para o Uruguai. Ledo engano. Se os italianos tinham um “possesso”, o Santos tinha um “alucinado”, Almir Pernambuquinho que, literalmente, comandou a reação e a virada sensacional. Vencemos por 4X2. Um dia para não ser esquecido.

Por que me lembrei disso agora? É escusado explicar. Com a mesma angústia vivida há 47 anos, vi o time dos “Meninos da Vila”, com três jogadores a menos, segurar a fúria do Santo André, na tarde do dia 2 de maio. Neymar, Robinho e Ganso fizeram a diferença. Finda a peleja, só me faltou a companhia dos moleques da minha aldeia, notadamente do Paredão, para que a alegria fosse completa. Um dia para ser lembrado, mesmo por um flamenguista juramentado como eu.

Cineas Santos

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DAS COISAS QUE NÃO SE ESQUECEM

Se você ainda não leu o conto Viagem aos seios de Duília, de Aníbal Machado, leia-o: é a mais patética, digo, a mais humana de todas as narrativas que já li. Para não lhe furtar o prazer da leitura, direi apenas que é a história de um cidadão, José Maria que, adolescente, num dia de festa religiosa, teve a felicidade ou a desdita de ver os seios de uma bela jovem, Duília, num povoado (Pouso Triste) perdido nos cafundós de Minas. A cena durou apenas uma fração de segundo, tempo suficiente para marcar-lhe a existência. Uns 40 anos depois, José Maria, aposentado, resolve voltar ao local da mágica visão, na vã tentativa de reencontrar Duília…

Por que me lembrei desse conto agora? Honestamente, não sei. Sei apenas que, ao acordar na manhã de ontem, lembrei-me de Evanilde, uma menina baiana que parecia feita de porcelana e sonho. Parafraseando o poeta, quando olhada de face, era uma boneca de louça; quanto vista de perfil, a haste de um lírio, prestes a partir-se. Tudo nela reclamava cuidados especiais. Era muito branca, dissimulada e gaga. Falava aos trancos. Às vezes, na tentativa de pronunciar uma palavra, fechava os olhos como se o gesto pudesse livrá-la da gaguice. Aos olhos do menino, era encantadora. Seu passatempo preferido era provocar-me. Sagazmente, aproximava-se de mim, sem jamais me permitir tocá-la. Era um jogo de sedução sofisticado demais para uma garota tão jovem, de aparência angelical.

Uma noite, saímos para acompanhar o Reisado do Manuel Antônio, no bairro Aldeia. Éramos um bando de meninos e meninas do mesmo tope. Lá pelas tantas, ela afastou-se das meninas e, sorrateiramente, aproximou-se de mim. Como peças imantadas, nossas mãos se atraíram e entrelaçaram-se. A cena deve ter durado apenas alguns segundos, mas me fez acreditar na existência de um paraíso terreno… Naquela noite, sepultei de vez o sonho de dona Purcina de me fazer padre. No dia seguinte, ela se comportou como se nada tivesse acontecido, o que me deixou profundamente magoado. Aquele jogo pendular que lhe dava tanto prazer me exasperava.

O tempo e os contratempos nos separaram. Poucos dias depois, numa manhã de sábado, com a leveza de um felino, ela veio até mim e, sem aviso prévio, beijou-me o rosto. Aparvalhado, nem percebi que aquele beijo inusitado se fazia acompanhar um doloroso ADEUS. Como naquela canção do Chico, “agora eu era um louco a perguntar/ o que é que a vida vai fazer mim?”. Nunca mais a vi. Se bem me lembro, foi a primeira vez que morri de amor. Mas o tempo tudo cura. Com Quintana, aprendi que é tão bom morrer de amor e continuar respirando

Cineas Santos

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QUASE CANDANGO

Em mais de uma oportunidade, afirmei: seu Liberato não tocava viola, não fazia versos, não contava vantagens. Era um sertanejo morigerado, com vocação para pedra. Só grudado ao chão da caatinga, sentia-se em casa. Perfeitamente integrado ao seu habitat, não estendia suas aspirações além dos limites de suas roças. Ao longo da vida, empreendeu apenas três viagens. Em nenhuma delas fez boa colheita. Acontece que, em 1958, as chuvas se negaram a cair no sertão do Caracol. Levas e levas de catingueiros deixavam para trás roças, mulheres e filhos e rumavam para o imenso canteiro de obras no Planalto Central onde um presidente visionário pretendia plantar a capital do País. Magoado com a sovinice dos céus, seu Liberato, aos 55 anos de idade, encarapitado num pau-de-arara, foi tentar a sorte naqueles ermos onde sobrava trabalho e faltavam mulheres.

Dona Purcina, com sua alma cigana, vislumbrou naquele gesto desesperado do marido a possibilidade de levar os filhos para uma terra onde “corria dinheiro e tinha escola”. Para aquela camponesa semi-analfabeta, educar os filhos não era apenas aspiração; era obsessão. Enquanto seu Liberato cavava valas na terra vermelha do cerrado, dona Purcina urdia planos. Pensou tudo: abriria uma pensão familiar para fornecer boia aos candangos, construiria uma casinha para a família, o mais próximo possível de uma escola. O mais viria com o tempo.

O que ela não poderia imaginar é que o velho Liba, embora estivesse fisicamente no Planalto, seu espírito catingueiro jamais se ausentou do Campo Formoso, sua gleba, seu reino, seu mundo. Assim, o exílio doloroso durou pouco mais de oito meses. Ao saber que chovia no Piauí, juntou seus teréns e voltou correndo para o sertão. Por pouco, por muito pouco, dona Purcina não o expulsou de casa. Morria ali o sonho de construir “um futuro melhor” para os filhos. À época, eu não fazia a menor ideia do que fosse morar numa cidade grande. Na verdade, aquela aventura não me tentava. A exemplo do meu pai, eu começava a fincar raízes fundas na terra árida do sertão. Tenho ( como meu velho) uma indeclinável vocação para pedra.

Plantada por mãos calejadas e regada com o suor dos candangos, Brasília nasceu acanhada. Mas, com o adubo do dinheiro e o fascínio do poder, cresceu rapidamente. Em pouco tempo, tornou-se uma espécie de Las Vegas do cerrado.  Para lá migraram arrivistas, falsários e apostadores de todas as procedências. Gente que só aposta com o dinheiro alheio e nunca perde.

Brasília, “ninho de tédios” e de escândalos, faz 50 anos de existência e tem pouco a comemorar. De minha parte, não me canso de agradecer a seu Liberato por ter voltado para o sertão do Caracol. Como o canto das sereias, o poder  vicia, inebria e alucina…

Cineas Santos

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A PERIGOSA BUSCA DOS ATALHOS

Viceja entre nós, como erva daninha, uma praga perigosa que se alastra com enorme velocidade. Trata-se da cultura do atalho que, grosso modo, poderia ser resumida assim: está difícil ou custoso conseguir o que se quer pelas vias normais, busca-se um atalho. Tal prática tanto serve à mocinha preguiçosa que não gosta de estudar, mas sonha com o mundo glamoroso das estrelas, como ao político carreirista que faz alianças até com o diabo para não desapear do poder. É uma espécie de vale tudo onde os fins justificam os meios, por mais torpes que sejam. Creio que o melhor espelho dessa cultura nefasta é o Big Brother, programa televisivo que arrebanha gente de todos os estratos sociais que, como animais enjaulados, exibem-se despudoradamente naquele circo de aberrações. Em artigo memorável, publicado no Jornal do Brasil, a professora Bárbara Musumeci Soares afirma: “O que se vê é o reforço das aspirações imediatistas de conquista de fama e dinheiro. Não a fama de quem investiu na criação de algo, de quem se arriscou para salvar alguém ou de quem se empenhou para transformar alguma coisa. Nem, tampouco, o dinheiro que resulta do trabalho e que retorna para a cadeia produtiva, realimentando circuitos vitais. O que se vende, como um bem que passa a valer por si mesmo, é a possibilidade de reconhecimento fácil, de quem se torna instantaneamente famoso por desempenhar, diante de milhões de brasileiros, o papel de pessoa comum. É a atração do ganho imediato, que não requer nenhum talento, nenhuma grandeza, nenhuma capacidade, nenhuma inspiração”. Melhor definição, impossível.

Por que volto a esse tema tão repisado? Explico: o caderno Folhateen (05/04/10) trouxe estampada na primeira capa a foto de uma jovem (19 anos de idade) com a língua bifurcada, piercings e tatuagens espalhadas pelo corpo. Uma figura bizarra, para dizer o mínimo. Título da reportagem: Muito Prazer. A matéria de capa relata histórias de garotas, recém-saídas da adolescência, que “faturam com a sensualidade” em shows  na webcam.  Por um punhado de dólares (reais também servem), as meninas se insinuam, exibem-se e até se masturbam para quem se dispuser a pagar. Nenhuma das entrevistadas é tão pobre a ponto de necessitar de tais expedientes para sobreviver. Na verdade, buscam bem mais que os caraminguás que faturam com esse tipo de prostituição virtual; buscam os holofotes, o brilho, a fama, mesmo que seja aquela  efêmera, de apenas 15 minutos, prevista por Andy Wharol. Para a psicóloga Leila Tardivo, “a coisificação de si ou do outro é um problema: o ser humano não é um objeto. Isso pode trazer consequências, elas podem ser vítimas de bullyng, por inveja ou por preconceito. A garota se expõe e pode ser vítima de ataques“.

Vai longe o tempo em que as meninas queriam ser professoras, enfermeiras, advogadas, aeromoças etc. Hoje, sem o menor pudor, meninas de classe média, universitárias, buscam os atalhos, por mais perigosos ou abjetos que sejam. O tempora,  o mores!

Cineas Santos

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A TEIA DA DIVERSIDADE

O que aconteceria se, de repente, integrantes de todas as tribos culturais do país decidissem se encontrar, numa cidade ensolarada, para falar, ouvir, ensinar, aprender e, principalmente, conviver solidariamente? A resposta é simples: tudo e mais alguma coisa, principalmente alegria e beleza. Foi essa a impressão que guardei do encontro nacional de pontos de cultura – TEIA: tambores digitais – realizado entre os dias 25 e 31 de março do ano em curso, em Fortaleza. Consta que pelo menos 4 mil  representantes de pontos de cultura de todos os recantos do Brasil marcaram presença. O número pode parecer superestimado, mas não duvido de que esteja bem próximo da realidade: em menos de 24 horas, encontrei 3 catingueiros que, como eu, olhavam abismados aquele dilúvio de gente. Uma moça de Caracol, outra de São Raimundo Nonato e um rapaz de Anísio de Abreu, gente de minha antiga aldeia. Confesso, com muita alegria, que nunca me senti tão enturmado. Pela vez primeira na vida, encontrei uma caracolense bem mais articulada do que eu. Com uma câmara digital na mão, a moça registrava tudo, enquanto eu me limitava a espiar. Conclusão: uma teia capaz de alcançar o Caracol é, efetivamente, abrangente.

De repente, o monumental espaço cultural Dragão do Mar ficou pequeno para comportar tantas e tão distintas manifestações culturais. Num mesmo caldeirão musical, misturavam-se a Orquestra de Câmara Eliezer de Carvalho, banda de pífanos dos Irmãos Aniceto, Jorge Mautner, Dona Zefinha, Fagner, Tambores do Tocantins, Orquestra Popular Meninos da Ceilândia, Chico César, Bloco Afro Ilú Obá de Min, Reisado de Santana, Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene, Carimbó dos Quentes da Madrugada e o escambau. Acrescente-se a isso a troca de experiências, debates apimentados, projetos ousados, mostras de arte e artesanato e muita alegria. Um caldeirão cultural fervilhante de luz, cor, sons, magia…  Para o encerramento do encontro, organizou-se o Cortejo da Ebulição dos Libertos, com a participação de mais de 2000 pessoas. A melhor parte: os políticos não tiveram espaço para suas arengas costumeiras. A festa tinha dono: o povo brasileiro.

Ainda é cedo para que se faça uma avaliação adequada do legado do governo Lula para a cultura brasileira. Mas é inegável que, sob a batuta de Gilberto Gil e Juca Ferreira, a cultura dos “grotões, chapadas e morros” pôde mostrar a cara sem medo de ser feliz. Os pontos de cultura propiciaram aos “despossuídos” de todas as aldeias a oportunidade de gritarem ao mundo: ESTAMOS VIVOS! Azar de quem não quiser ouvir.

Cineas Santos

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