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	<title>Oficina da Palavra</title>
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	<description>Casa que promove cultura, cursos de português, Eventos culturais como SALIPI - Salão do Livro do Piauí e FENAVIPI</description>
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		<title>VOZES DA CIDADE</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Aug 2010 19:18:13 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Dois dedos de prosa]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Dia desses, um político <em>de carteirinha</em>, desses cevados nos gabinetes da República, me fez a seguinte pergunta: “Professor, por que  o final da letra do Hino de  Teresina  é tão pra baixo? “. De imediato, lembrei-me de uma coluna criada pelo  Millôr Fernandes, denominada “Ministério das perguntas cretinas”.  Engatilhei uma resposta condizente, mas segurei o freio de mão.  Respondi: <em>Talvez tenhamos ideias diferentes do que seja “para baixo”.</em> Vejamos a última estrofe do hino: “Teresina, eterno raio de sol,/  Manhãs de claro azul num céu de anil;/ És fruto do labor da gente  simples,/ Humilde entre os humildes do Brasil”. Pensando bem, o político  tem razão: para um arrivista capaz de vender a alma ao diabo para  chegar ao poder, os adjetivos <strong>simples</strong> e <strong>humilde</strong> devem soar depreciativas. Não bastasse isso, convém lembrar que os  hinos, com raras exceções, são marchas marciais que conclamam os  cidadãos a morrerem pela pátria. Até mesmo os hinos dos clubes de  futebol, além de cantarem glórias e conquistas, incitam os torcedores a  morrerem e matarem “pelas cores do time”.  E como matam e morrem&#8230;</p>
<p>No  caso de Teresina, há um dado curioso: a cidade passou 145 anos sem ter  um hino, fato incomum. Pode-se argumentar que, a despeito disso, a  capital cresceu e prosperou, o que é  verdade.  Mas, por oportuno, vale ressaltar que o homem é um animal que constrói  sua identidade com símbolos. Alguém é capaz de imaginar o Cristianismo  sem a imagem da cruz? Um hino, por pior que seja, é um símbolo e, como  tal, deve  ser entendido. Não por acaso, a autoestima do teresinense anda quase sempre ao rés do chão.</p>
<p>Como  entrei nessa história? Bem: em 1997, a prefeitura de Teresina instituiu  um concurso público para a escolha do hino da cidade. O músico  Erisvaldo Borges compôs uma melodia e, sabendo do meu amor à cidade,  pediu-me que escrevesse a letra. Na hora, retruquei que, em matéria de  hino, o único que conhecia era o do Flamengo que, ainda hoje, mais choro  do que canto. Por insistência do músico, encarei a empreitada. Nossa  canção acabou sendo a escolhida e tornou-se o Hino de Teresina.</p>
<p>Na hora de iniciar a composição, pensei: vou cantar o essencial.  E  o essencial, em qualquer lugar do mundo, é Povo, o mais é paisagem. O  Hino de Teresina é uma louvação ao cidadão comum, humilde,  generoso  e trabalhador. O que mais poderia cantar? O sol, os rios e o verde que, infelizmente, vai minguando a cada dia. Nada além.  Não me cabia inventar guerras, feitos heroicos, grandes conquistas. A cidade sempre foi pacata, ordeira e acolhedora.</p>
<p>Talvez  o ilustre político tenha considerado “pra baixo” justamente a louvação  do povo simples, humilde e trabalhador, que lhe paga o salário e lhe  garante um gabinete junto ao poder onde trama, alinhava conchavos e  brinca de ser poderoso.</p>
<p>Cineas Santos</p>
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		<title>PRESENTE DE PREGO</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Aug 2010 11:58:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Antes mesmo do aniversário de Teresina (16  de agosto), a cidade recebe e agradece o “presentão”, louvado na mídia  local como algo extraordinário. Engana-se quem, porventura, estiver  pensando no tal <em>mirante</em> da ponte estaiada, na vigésima  “reinauguração” da <em>Potycabana</em> ou  em coisa  parecida. A cidade está exultante com a  inauguração de mais um supermercado na zona leste da cidade. Novidadeiro  como ele só, o teresinense atendeu ao chamado do “progresso”: lota o  gigantesco estacionamento e faz filas para conferir mercadorias, preços e  prazos. Segundo uma cidadã bem-nascida que ostenta, com orgulho, um  sobrenome pomposo, “Teresina, finalmente, ganha ares de cidade moderna,  livrando-se do rótulo provinciano de Cidade Verde”. Acertou em cheio.  Para a construção do novo templo do consumo na capital, derrubaram-se  dezenas de árvores centenárias. Da noite para o dia, mangueiras,  jaqueiras, oitizeiros e cajueiros foram reduzidos a pó.  Onde,  até bem pouco tempo, havia um dos clubes mais tradicionais de Teresina,  com piscina, campo de futebol e espaçosa área verde, ergueram-se  galpões modernosos, com cores berrantes, abarrotados de quinquilharias.  Este parece ser o destino de todos os clubes da capital (Flamengo,  River, Piauí, Tabajara, Classes Produtoras, etc). Neste ritmo, em dois  ou três anos, não sobrará um.</p>
<p>É extraordinário o esforço que os  teresinenses vêm fazendo no sentido de despir a capital do tal rótulo  “Cidade Verde”, cortesia do escritor Coelho Neto, na década  de trinta. Até onde sei, ainda não se fez um  levantamento de quantas árvores são derrubadas em Teresina a cada dia. O  tal “cinturão verde” da capital, há muito, tornou-se um amontoado de  “vilas”, eufemismo usado para designar as favelas da capital. Quintais e  chácaras dão lugar a edifícios de nomes sofisticados ou condomínios  fechados que usam como chamariz o anzol da “segurança”. O que se vende  não é um produto, mas uma ideia, uma grife, uma expectativa que não se  cumpre. “Morar bem”, segundo o conceito dos expertos, é enjaular-se num  apartamento com ar condicionado em cada um dos cômodos, circuito interno  de televisão, porteiro eletrônico  toda a  parafernália que engorda o faturamento da indústria do medo.</p>
<p>Compreensivelmente,  todas  as praças de Teresina estão às moscas, exceto as dos shoppings  onde existem ar refrigerado e “segurança”. O  teresinense já não consegue viver ao ar livre e, a cada dia, vai-se  tornando refém do “clima artificial”  e do medo  que, como diria o poeta, “esteriliza os abraços”. Só assim se explica a  sofreguidão com que recebe de braços abertos  os  presentes de grego que nos chegam a cada dia. Brava gente. Pobre gente.</p>
<p>Cineas Santos</p>
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		<title>DAS COISAS IMPOSSÍVEIS (1)</title>
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		<pubDate>Mon, 31 May 2010 15:39:08 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Sempre que faz referência  ao Salão do Livro do Piauí, o escritor Edmílson Caminha, citando autor  que desconheço, afirma: “Se os meninos soubessem que era impossível, não  teriam feito”. Exagero à parte, a sentença contém muita verdade.  Quando, em 2003, os professores  Wellington  Soares, Luiz Romero e Nilson Ferreira me [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sempre que faz referência  ao Salão do Livro do Piauí, o escritor Edmílson Caminha, citando autor  que desconheço, afirma: “Se os meninos soubessem que era impossível, não  teriam feito”. Exagero à parte, a sentença contém muita verdade.  Quando, em 2003, os professores  Wellington  Soares, Luiz Romero e Nilson Ferreira me propuseram participar do que, à  época, me pareceu <em>uma</em> <em>aventura errante,</em> fui taxativo: Estou fora! Eu tinha as  minhas razões. Durante cinco anos, a duras penas, realizei, praticamente  sozinho, cinco edições do  seminário <strong>Língua  Viva</strong>, tarefa para Hércules nenhum botar defeito. Por minha conta e  risco, eu convidava grandes autores (Celso Pedro Luft, Antônio Houaiss,  Evanildo Bechara, Napoleão Mendes de Almeida, Celso Cunha, entre  outros), alugava espaço, contratava som e, como um camelô, saía pelos  colégios de Teresina tentando convencer os diretores das escolas a  liberarem (na verdade, libertarem) os professores para que pudessem  participar do evento. Colecionei toneladas de <em>nãos</em>. Eu estava farto daquilo.</p>
<p>Os três <em>mosqueteiros</em> voltaram à carga e, desta feita, já me trouxeram um projeto formatado,  muito embora nenhum deles tivesse a menor ideia do custo de um salão e,  menos ainda, de onde sairiam os recursos para bancá-lo. A bem da  verdade, nenhum de nós tinha qualquer experiência na realização de  grandes eventos. Não bastasse isso, éramos (somos ainda) apenas um  punhado de <em>duros</em>. Mas o Wellington é movido a desafios e  acabou me arrastando para a empreitada. Assim, na primeira semana de  julho de 2003, realizamos a primeira edição do SALIPI no velho Centro de  Convenções de Teresina. De todas as dificuldades, a maior foi convencer  os livreiros a participar. Com a colaboração de alguns  parceiros  – Governo do Estado e Prefeitura de Teresina, desde a primeira hora –  realizamos o que, aos olhos de muitos, parecia impossível: um grande e  belo salão. Eu não teria a menor dúvida em afirmar que o SALIPI só se  viabilizou porque os teresinenses adonaram-se dele. Aspiração antiga, o  público compareceu em peso, obrigando os incrédulos a prestarem atenção  nele. A mídia piauiense, por seu turno, acreditou no Salão e deu-lhe a  necessária visibilidade.</p>
<p>Ao longo desses anos,  tivemos muitas decepções e grandes alegrias. Para mim, a maior delas foi  receber de uma cidadã do povo um cofrinho de barro com um punhado de  moedas e o pedido de desculpas: “O senhor me desculpe, mas espero que dê  para pagar o almoço de um dos convidados”. Não deu porque aquele  cofrinho continua fechado: tornou-se uma espécie de amuleto. Como um  objeto sagrado, é inviolável.</p>
<p>Impossível saber aonde  essa aventura vai dar, mas parece que até a grande mídia já descobriu  que a SALIPI existe. Para mim, que ultimamente tenho participado pouco,  ver milhares de crianças da periferia da cidade adentrarem o espaço do  Salão, como gralhas felizes, já me diz que valeu a pena. O Poeta tem  razão: “Tudo vale a pena/ se a alma não é pequena”. A nossa é do tamanho  do universo.</p>
<p>Cineas Santos</p>
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		<title>DAS COISAS QUE NÃO SE ESQUECEM (4)</title>
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		<pubDate>Mon, 24 May 2010 10:46:19 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Novembro chegou e com ele, as primeiras chuvas. Com as  chuvas, vieram a alegria e o Zé Sanfoneiro. Passageiro do vento, nada  conduzia. Nunca se soube de onde vinha. Não tinha destino certo nem  prazo para chegar. Teria pouco mais de 30 anos de idade, estatura  mediana, cabelos ruivos e barba [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Novembro chegou e com ele, as primeiras chuvas. Com as  chuvas, vieram a alegria e o Zé Sanfoneiro. Passageiro do vento, nada  conduzia. Nunca se soube de onde vinha. Não tinha destino certo nem  prazo para chegar. Teria pouco mais de 30 anos de idade, estatura  mediana, cabelos ruivos e barba rala. Tinha um quê de Jackson Antunes.  Por causa dos dentes proeminentes, parecia estar  sempre sorrindo. Falava pouco e tocava o tempo inteiro. Curiosamente,  não tinha sanfona, melhor dizendo, tinha uma <em>sanfona  imaginária</em>. As costelas funcionavam como um teclado que os dedos  ágeis, nervosos, percorriam num frenesi sem termo. Com a mão esquerda,  fazia o movimento de abrir e fechar o fole do instrumento invisível. Com  a boca, emitia uma infinidade de sons. <em>Tocava</em> basicamente baiões, xotes, cocos, forrós e frevos. O repertório  contemplava Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Sivuca, Pedro Sertanejo e  outras feras nordestinas. Tocava bem: era afinado e não  saía  do ritmo.  Em curtíssimo espaço de tempo,  conquistou a todos nós.</p>
<p>Como já afirmei em outras oportunidades, dona Purcina  tinha o condão de atrair loucos de todas as versidades.  Zé  Sanfoneiro era  mais um. Chegou num final de  tarde, sentou-se na calçada alta e, sem se fazer de rogado, começou a  tocar. Minha mãe ouviu as músicas, cantou uma delas e entrou na casa. Ao  retornar, trazia um taco de rapadura, um pouco de farinha e uma caneca  d’água. Como naquela propaganda do uísque, pensei comigo: “entrou para o  clube”. A comida e a água eram uma espécie de senha: a partir daquele  instante, o Zé Sanfoneiro passava a integrar a grei dos “loucos da tia  Purcina”.</p>
<p>Em nossa casa havia uma lei que se cumpria à risca: só  comia quem trabalhasse. Assim, entre uma “sanfonada” e outra, o Zé  cortava lenha, dava ração aos bichos, capinava. Não causava espécie  vê-lo interromper um quefazer para solar um frevo. Lá de dentro, dona  Purcina berrava: “Primeiro a obrigação; depois, a devoção”. O Zé  entendia e voltava ao batente. Até seu Liberato, que não apreciava os <em>hóspedes</em> da matriarca, encheu-se de afeição pelo  Sanfoneiro. Às vezes, acendia um cigarro e pedia: “Zé, toca aquela do  pássaro cego”.  O Zé empertigava-se, respirava  fundo, e sapecava “Assum Preto”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. O  velho concedia-lhe o único elogio que conhecia: “Tocou conforme, Zé”.</p>
<p>Numa manhã qualquer de abril, sem mais nem menos, o Zé  Sanfoneiro levantou-se, sacudiu a poeira da roupa e, sem se despedir de  ninguém, partiu tocando “A volta da asa branca”. Foi-se afastando,  afastando, até ser engolido pelo azul&#8230;</p>
<p>Às  vezes, quando estou sozinho, me surpreendo tocando minha sanfoninha  imaginária. O repertório é basicamente o mesmo do Zé Sanfoneiro, mas as  notas nem sempre saem nítidas e afinadas&#8230; Fazer o quê? O Zé era um  louco profissional; quanto a mim, nunca passei de um amador.</p>
<p>Cineas Santos</p>
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		<title>DAS COISAS QUE NÃO SE ESQUECEM (3)</title>
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		<pubDate>Mon, 17 May 2010 14:02:02 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[1969. A pretexto de combater os terroristas, a ditadura recrudescia. Prisões, mortes, desaparecimentos. A censura, como o big brother (o do Orwel), adivinhava até os pensamentos mais recônditos. Ásperos tempos. Justo naquele momento, resolvi criar um grupo de teatro: Teatro Popular do Piauí. Na verdade, uma trupe mambembe sem maior experiência e sem qualquer veleidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>1969. A pretexto de combater os terroristas, a ditadura recrudescia. Prisões, mortes, desaparecimentos. A censura, como o big brother (o do Orwel), adivinhava até os pensamentos mais recônditos. Ásperos tempos. Justo naquele momento, resolvi criar um grupo de teatro: Teatro Popular do Piauí. Na verdade, uma trupe mambembe sem maior experiência e sem qualquer veleidade profissional.  Integravam-na: Lázaro, Moacir, Chico Viana, Sólis, Terezinha e um garoto, cujo nome já não me lembro. Cada um de nós tinha de se desdobrar para fazer quase tudo. As funções se misturavam. Por falta de textos disponíveis, eu e Chico Viana engendramos uma peça – “Uma noite entre miseráveis” – pastiche ordinário de “Dois perdidos numa noite suja”, de Plínio Marcos, e “Morte e vida Severina”, de João Cabral. Por obra e graça do Espírito Santo, permitiram-nos ensaiar a peça no auditório do Colégio Diocesano, “território livre” da ingerência dos esbirros. Não havia cenário, iluminação, nada. Estávamos inaugurando, na Chapada, o teatro nu e cru.</p>
<p>Onde montar a peça? Em Teresina, nem pensar. Foi aí que Chico Viana e Moacir tiveram a ideia de levar a peça a Bacabal (MA), onde o prefeito era boa praça e o Moacir tinha uma namorada. Acertou-se o dia da apresentação, fizemos meia dúzia de ensaios e embarcamos num dos “expressos” da Líder. Lá pelas tantas, olhei para o Viana e perguntei: &#8211; E se, avisada pelo capitão Astrogildo, a PF estiver no esperando em Bacabal?  O Viana sorriu e desconversou. Pura paranoia: a Polícia Federal não tomara conhecimento das nossas estripulias.</p>
<p>Chegamos a Bacabal e, numa deferência especial, o prefeito se dignou a nos receber em seu gabinete. Era um cidadão corpulento, alegre, bonachão, com um sorriso confiável. Ao lado dele, um homem cinzento com cara de quem já morreu e ainda não foi comunicado. De repente, adentra o gabinete um cidadão baixo, chapéu Panamá, trajando um conjunto cinza, com olhar de ave de rapina, o perfeito estereótipo do policial civil. Tirou o chapéu e, alto e bom som, declarou: &#8211; Peço licença a Vossa Excelência para, em nome da revolução prender este indivíduo!  Disse isso sem apontar para o tal “indivíduo” que, <em>por supuesto</em>, como dizem los<em> hermanos</em> argentinos, só poderia ser eu. Por alguns segundos perdi a noção do tempo, minha respiração tornou-se pesada, a saliva, travosa e a visão embaçada. Naquele momento, descobri que o medo tem cheiro, gosto e cor. Foram segundos que duraram uma eternidade. Tão aparvalhado estava, que nem percebi que tudo não passava de uma brincadeira do coletor estadual com o vice-prefeito, o homem cinzento. Todos riram da patuscada, menos eu que, em estado deplorável, limitei-me a perguntar: &#8211; Por favor, onde fica o banheiro?</p>
<p>Naquela manhã, percebi que não tinha <em>cujones</em> para tornar-me um “subversivo”. À noite, apresentamos a peça, a plateia generosa nos aplaudiu, o prefeito nos deu trezentos cruzeiros e o Teatro Popular do Piauí desapareceu sem deixar saudades. Ufa!</p>
<p>Cineas Santos</p>
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		<title>DAS COISAS QUE NÃO SE ESQUECEM (2)</title>
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		<pubDate>Mon, 10 May 2010 20:28:52 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Na remota década de 60, todos os dias, no final da tarde, uma cambada de moleques entanguidos plantava-se à porta da casa de dona Purcina, no bairro Aldeia, à espera da ração de bola. Éramos quase todos do mesmo tope e todos da mesma cor: marrom-descaso. Integravam a cabroeira: Cleto, Valdemar, Paredão, Tonico, Berto, Zé [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na remota década de 60, todos os dias, no final da tarde, uma cambada de moleques entanguidos plantava-se à porta da casa de dona Purcina, no bairro Aldeia, à espera da ração de bola. Éramos quase todos do mesmo tope e todos da mesma cor: marrom-descaso. Integravam a cabroeira: Cleto, Valdemar, Paredão, Tonico, Berto, Zé do Jaburu, Orlando da Bela, Nivaldo, Walter do Candinho, Pedro e Solimar. Eventualmente, apareciam no terreiro: Marcelo Castro e Antônio Macedo, os dois únicos bem-nascidos do bando. Os outros éramos xerém. À época, bola era produto raro e caro. Muitas vezes, disputamos rachas animadíssimos com prosaicas bexigas de boi ou bolinhas de meia. No dia em que comprei minha primeira bola de borracha, uma autêntica “casco-de-peba”, não consegui me concentrar na aula: meu pensamente não se desgrudava dela. Parafraseando Bandeira, aquela bolinha foi minha primeira amante. E como o porquinho-da-índia do Poeta, ela não fazia o menor caso dos meus acenos e carinhos: preferia os chutes certeiros de Paredão e Solimar, o que me deixava roído de ciúmes&#8230;</p>
<p>Perdidos naquela aldeia remota, onde o rádio era um luxo só permitido a dois ou três ricaços, tínhamos uma verdadeira veneração pelo   único time que conhecíamos: o do Pelé. Qualquer um de nós sabia de cor e salteado a escalação daquela máquina de destroçar adversários: Gilmar, Mauro, Dalmo, Lima, Zito, Melgálvio, Calvet, Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. À época, o time da Vila não tinha o menor pejo em pegar quatro gols numa partida; Pelé, Coutinho e Pepe, faziam cinco ou seis, dependendo do humor de cada um. Houve um dia, porém (14 de novembro de 63), em que o Milan cruzou o caminho do Santos para tirar-lhe o título de bi-campeão Interclubes. Para desbancar a equipe da Vila, o time italiano contava com a cumplicidade e a competência de dois brasileiros: Mazola e Amarildo, também conhecido como “o possesso”. Para os mais jovens, um lembrete: Amarildo fora o substituto de Pelé na copa de 62 da qual saiu consagrado. Era um centroavante rompedor e perigoso. Não bastasse isso, o Santos, naquele dia, não podia contar com Pelé, Zito e Calvet. 130 mil torcedores, no Maracanã, assistiram, consternados, a um primeiro tempo em que o Santos levou dois gols e não fez nenhum. Nos mais antigos, bateu a síndrome de macaranaço, medo de que se repetisse ali o que ocorrera em 1950,  quando perdemos a copa do mundo para o Uruguai. Ledo engano. Se os italianos tinham um “possesso”, o Santos tinha um “alucinado”, Almir Pernambuquinho que, literalmente, comandou a reação e a virada sensacional. Vencemos por 4X2. Um dia para não ser esquecido.</p>
<p>Por que me lembrei disso agora? É escusado explicar. Com a mesma angústia vivida há 47 anos, vi o time dos “Meninos da Vila”, com três jogadores a menos, segurar a fúria do Santo André, na tarde do dia 2 de maio. Neymar, Robinho e Ganso fizeram a diferença. Finda a peleja, só me faltou a companhia dos moleques da minha aldeia, notadamente do Paredão, para que a alegria fosse completa. Um dia para ser lembrado, mesmo por um flamenguista juramentado como eu.</p>
<p>Cineas Santos</p>
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		<title>DAS COISAS QUE NÃO SE ESQUECEM</title>
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		<pubDate>Mon, 03 May 2010 12:25:00 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Se você ainda não leu o conto Viagem aos  seios de Duília, de Aníbal Machado, leia-o: é a mais patética, digo,  a mais humana de todas as narrativas que já li. Para não lhe furtar o  prazer da leitura, direi apenas que é a história de um cidadão, José  Maria que, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se você ainda não leu o conto <em>Viagem aos  seios de Duília, </em>de Aníbal Machado, leia-o: é a mais patética, digo,  a mais humana de todas as narrativas que já li. Para não lhe furtar o  prazer da leitura, direi apenas que é a história de um cidadão, José  Maria que, adolescente, num dia de festa religiosa, teve a felicidade ou  a desdita de ver os seios de uma bela jovem, Duília, num povoado (Pouso  Triste) perdido nos cafundós de Minas. A cena durou apenas uma fração  de segundo, tempo suficiente para marcar-lhe a existência. Uns 40 anos  depois, José Maria, aposentado, resolve voltar ao local da mágica visão,  na vã tentativa de reencontrar Duília&#8230;</p>
<p>Por que me lembrei desse conto agora?  Honestamente, não sei. Sei apenas que, ao acordar na manhã de ontem,  lembrei-me de Evanilde, uma menina baiana que parecia feita de porcelana  e sonho. Parafraseando o poeta, quando olhada de face, era uma boneca  de louça; quanto vista de perfil, a haste de um lírio, prestes a  partir-se. Tudo nela reclamava cuidados especiais. Era muito branca,  dissimulada e gaga. Falava aos trancos. Às vezes, na tentativa de  pronunciar uma palavra, fechava os olhos como se o gesto pudesse  livrá-la da gaguice. Aos olhos do menino, era encantadora. Seu  passatempo preferido era provocar-me. Sagazmente, aproximava-se de mim,  sem jamais me permitir tocá-la. Era um jogo de sedução sofisticado  demais para uma garota tão jovem, de aparência angelical.</p>
<p>Uma noite, saímos para acompanhar o Reisado  do Manuel Antônio, no bairro Aldeia. Éramos um bando de meninos e  meninas do mesmo tope. Lá pelas tantas, ela afastou-se das meninas e,  sorrateiramente, aproximou-se de mim. Como peças imantadas, nossas mãos  se atraíram e entrelaçaram-se. A cena deve ter durado apenas alguns  segundos, mas me fez acreditar na existência de um paraíso terreno&#8230;  Naquela noite, sepultei de vez o sonho de dona Purcina de me fazer  padre. No dia seguinte, ela se comportou como se nada tivesse  acontecido, o que me deixou profundamente magoado. Aquele jogo pendular  que lhe dava tanto prazer me exasperava.</p>
<p>O tempo e os contratempos nos separaram. Poucos dias  depois, numa manhã de sábado, com a leveza de um felino, ela veio até  mim e, sem aviso prévio, beijou-me o rosto. Aparvalhado, nem percebi que  aquele beijo inusitado se fazia acompanhar um doloroso ADEUS. Como  naquela canção do Chico, “agora eu era um louco a perguntar/ o que é que  a vida vai fazer mim?”. Nunca mais a vi. Se bem me lembro, foi a  primeira vez que morri de amor. Mas o tempo tudo cura. Com Quintana,  aprendi que <em>é tão bom morrer de amor e continuar respirando</em>&#8230;</p>
<p>Cineas Santos</p>
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		<title>QUASE CANDANGO</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Apr 2010 11:12:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em mais de uma oportunidade, afirmei: seu  Liberato não tocava viola, não fazia versos, não contava vantagens. Era  um sertanejo morigerado, com vocação para pedra. Só grudado ao chão da  caatinga, sentia-se em casa. Perfeitamente integrado ao seu habitat,  não estendia suas aspirações além dos limites de suas roças. Ao longo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em mais de uma oportunidade, afirmei: seu  Liberato não tocava viola, não fazia versos, não contava vantagens. Era  um sertanejo morigerado, com vocação para pedra. Só grudado ao chão da  caatinga, sentia-se em casa. Perfeitamente integrado ao seu <em>habitat</em>,  não estendia suas aspirações além dos limites de suas roças. Ao longo  da vida, empreendeu apenas três viagens. Em nenhuma delas fez boa  colheita. Acontece que, em 1958, as chuvas se negaram a cair no sertão  do Caracol. Levas e levas de catingueiros deixavam para trás roças,  mulheres e filhos e rumavam para o imenso canteiro de obras no Planalto  Central onde um presidente visionário pretendia plantar a capital do  País. Magoado com a sovinice dos céus, seu Liberato, aos 55 anos de  idade, encarapitado num pau-de-arara, foi tentar a sorte naqueles ermos  onde sobrava trabalho e faltavam mulheres.</p>
<p>Dona Purcina, com sua alma cigana,  vislumbrou naquele gesto desesperado do marido a possibilidade de levar  os filhos para uma terra onde “corria dinheiro e tinha escola”. Para  aquela camponesa semi-analfabeta, educar os filhos não era apenas  aspiração; era obsessão. Enquanto seu Liberato cavava valas na terra  vermelha do cerrado, dona Purcina urdia planos. Pensou tudo: abriria uma  pensão <em>familiar</em> para fornecer <em>boia</em> aos  candangos, construiria uma casinha para a família, o mais próximo  possível de uma escola<em>. </em>O mais viria com o tempo.</p>
<p>O que ela não poderia imaginar é que o velho  Liba, embora estivesse fisicamente no Planalto, seu espírito  catingueiro jamais se ausentou do Campo Formoso, sua gleba, seu reino,  seu mundo. Assim, o exílio doloroso durou pouco mais de oito meses. Ao  saber que chovia no Piauí, juntou seus teréns e voltou correndo para o  sertão. Por pouco, por muito pouco, dona Purcina não o expulsou de casa.  Morria ali o sonho de construir “um futuro melhor” para os filhos. À  época, eu não fazia a menor ideia do que fosse morar numa cidade grande.  Na verdade, aquela aventura não me tentava. A exemplo do meu pai, eu  começava a fincar raízes fundas na terra árida do sertão. Tenho ( como  meu velho) uma indeclinável vocação para pedra.</p>
<p>Plantada por mãos calejadas e regada com o  suor dos candangos, Brasília nasceu acanhada. Mas, com o adubo do  dinheiro e o fascínio do poder, cresceu rapidamente. Em pouco tempo,  tornou-se uma espécie de Las Vegas do cerrado.  Para  lá migraram arrivistas, falsários e apostadores de todas as  procedências. Gente que só aposta com o dinheiro alheio e nunca perde.</p>
<p>Brasília, “ninho de tédios” e de escândalos, faz 50 anos  de existência e tem pouco a comemorar. De minha parte, não me canso de  agradecer a seu Liberato por ter voltado para o sertão do Caracol. Como o  canto das sereias, o poder  vicia, inebria e  alucina&#8230;</p>
<p>Cineas Santos</p>
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		<title>A PERIGOSA BUSCA DOS ATALHOS</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Apr 2010 16:41:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Viceja entre nós, como erva daninha, uma praga perigosa  que se alastra com enorme velocidade. Trata-se da cultura do atalho que,  grosso modo, poderia ser resumida assim: está difícil ou custoso  conseguir o que se quer pelas vias normais, busca-se um atalho. Tal  prática tanto serve à mocinha preguiçosa que não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Viceja entre nós, como erva daninha, uma praga perigosa  que se alastra com enorme velocidade. Trata-se da cultura do atalho que,  grosso modo, poderia ser resumida assim: está difícil ou custoso  conseguir o que se quer pelas vias normais, busca-se um atalho. Tal  prática tanto serve à mocinha preguiçosa que não gosta de estudar, mas  sonha com o mundo glamoroso das estrelas, como ao político carreirista  que faz alianças até com o diabo para não desapear do poder. É uma  espécie de vale tudo onde os fins justificam os meios, por mais torpes  que sejam. Creio que o melhor espelho dessa cultura nefasta é o <em>Big Brother, </em>programa televisivo que arrebanha gente de  todos os estratos sociais que, como animais enjaulados, exibem-se  despudoradamente naquele circo de aberrações. Em artigo memorável,  publicado no <strong>Jornal do Brasil</strong>, a professora Bárbara  Musumeci Soares afirma: “O que se vê é o reforço das aspirações  imediatistas de conquista de fama e dinheiro. Não a fama de quem  investiu na criação de algo, de quem se arriscou para salvar alguém ou  de quem se empenhou para transformar alguma coisa. Nem, tampouco, o  dinheiro que resulta do trabalho e que retorna para a cadeia produtiva,  realimentando circuitos vitais. O que se vende, como um bem que passa a  valer por si mesmo, é a possibilidade de reconhecimento fácil, de quem  se torna instantaneamente famoso por desempenhar, diante de milhões de  brasileiros, o papel de pessoa comum. É a atração do ganho imediato, que  não requer nenhum talento, nenhuma grandeza, nenhuma capacidade,  nenhuma inspiração”. Melhor definição, impossível.</p>
<p>Por que volto a esse tema tão repisado?  Explico: o caderno <em>Folhateen (</em>05/04/10) trouxe estampada  na primeira capa a foto de uma jovem (19 anos de idade) com a língua  bifurcada, piercings e tatuagens espalhadas pelo corpo. Uma figura  bizarra, para dizer o mínimo. Título da reportagem: <strong>Muito  Prazer</strong>. A matéria de capa relata histórias de garotas, recém-saídas  da adolescência, que “faturam com a sensualidade” em shows  na <em>webcam</em>.  Por  um punhado de dólares (reais também servem), as meninas se insinuam,  exibem-se e até se masturbam para quem se dispuser a pagar. Nenhuma das  entrevistadas é tão pobre a ponto de necessitar de tais expedientes para  sobreviver. Na verdade, buscam bem mais que os caraminguás que faturam  com esse tipo de prostituição virtual; buscam os holofotes, o brilho, a  fama, mesmo que seja aquela  efêmera, de apenas 15  minutos, prevista por Andy Wharol. Para a psicóloga Leila Tardivo, “a  coisificação de si ou do outro é um problema: o ser humano não é um  objeto. Isso pode trazer consequências, elas podem ser vítimas de  bullyng, por inveja ou por preconceito. A garota se expõe e pode ser  vítima de ataques“.</p>
<p>Vai longe o tempo em que as meninas queriam  ser professoras, enfermeiras, advogadas, aeromoças etc. Hoje, sem o  menor pudor, meninas de classe média, universitárias, buscam os atalhos,  por mais perigosos ou abjetos que sejam. <em>O tempora,  o mores! </em></p>
<p>Cineas Santos<em><br />
</em></p>
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		<title>A TEIA DA DIVERSIDADE</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Apr 2010 11:17:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O que aconteceria se, de repente, integrantes de todas  as tribos culturais do país decidissem se encontrar,  numa cidade ensolarada, para falar, ouvir, ensinar, aprender e,  principalmente, conviver solidariamente? A resposta é simples: tudo e  mais alguma coisa, principalmente alegria e beleza. Foi essa a impressão  que guardei do encontro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O que aconteceria se, de repente, integrantes de todas  as <em>tribos culturais</em> do país decidissem se encontrar,  numa cidade ensolarada, para falar, ouvir, ensinar, aprender e,  principalmente, conviver solidariamente? A resposta é simples: tudo e  mais alguma coisa, principalmente alegria e beleza. Foi essa a impressão  que guardei do encontro nacional de pontos de cultura – <strong>TEIA:  tambores digitais</strong> &#8211; realizado entre os dias 25 e 31 de março do ano  em curso, em Fortaleza. Consta que pelo menos 4 mil  representantes  de pontos de cultura de todos os recantos do Brasil marcaram presença. O  número pode parecer superestimado, mas não duvido de que esteja bem  próximo da realidade: em menos de 24 horas, encontrei 3 <em>catingueiros</em> que, como eu, olhavam abismados aquele dilúvio de  gente. Uma moça de Caracol, outra de São Raimundo Nonato e um rapaz de  Anísio de Abreu, gente de minha antiga aldeia. Confesso, com muita  alegria, que nunca me senti tão enturmado. Pela vez primeira na vida,  encontrei uma caracolense bem mais articulada do que eu. Com uma câmara  digital na mão, a moça registrava tudo, enquanto eu me limitava a  espiar. Conclusão: uma teia capaz de alcançar o Caracol é, efetivamente,  abrangente.</p>
<p>De repente, o monumental espaço cultural <strong>Dragão do Mar</strong> ficou pequeno para comportar tantas e tão  distintas manifestações culturais. Num mesmo caldeirão musical,  misturavam-se a Orquestra de Câmara Eliezer de Carvalho, banda de  pífanos dos Irmãos Aniceto, Jorge Mautner, Dona Zefinha, Fagner,  Tambores do Tocantins, Orquestra Popular Meninos da Ceilândia, Chico  César, Bloco Afro Ilú Obá de Min, Reisado de Santana, Orquestra de  Berimbaus do Morro do Querosene, Carimbó dos Quentes da Madrugada e o  escambau. Acrescente-se a isso a troca de experiências, debates  apimentados, projetos ousados, mostras de arte e artesanato e muita  alegria. Um caldeirão cultural fervilhante de luz, cor, sons, magia&#8230;  Para o encerramento do encontro, organizou-se o <strong>Cortejo da Ebulição dos Libertos,</strong> com a participação de  mais de 2000 pessoas. A melhor parte: os políticos não tiveram espaço  para suas arengas costumeiras. A festa tinha dono: o povo brasileiro.</p>
<p>Ainda é cedo para que se faça uma avaliação  adequada do legado do governo Lula para a cultura brasileira. Mas é  inegável que, sob a batuta de Gilberto Gil e Juca Ferreira, a cultura  dos “grotões, chapadas e morros” pôde mostrar a cara sem medo de ser  feliz. Os pontos de cultura propiciaram aos “despossuídos” de todas as  aldeias a oportunidade de gritarem ao mundo: ESTAMOS VIVOS! Azar de quem  não quiser ouvir.</p>
<p>Cineas Santos</p>
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