Manchete de O Dia (17/03/07): Leis Só Protegem Bandidos. Tremi nos tamancos. Pensei comigo: o editor do Jornal do Coronel enlouqueceu, perdeu o emprego e, nessa altura do campeonato, deve estar preso ou internado no Meduna. Como se sabe, mexer com a justiça brasileira é brincar com fogo. Pedi um cafezinho, sentei-me, abri o jornal e li: “Só quem tem proteção hoje é bandido; o cidadão de bem, não”. Para minha surpresa, a declaração trazia a chancela de uma desembargadora piauiense. Bem, aí a coisa muda de figura: ela sabe o que diz. O cidadão comum sabe, sofre, mas não pode abrir o bico. Quando muito, asseguram-lhe o sagrado direito de espernear. A ilustre magistrada fez questão de deixar bem claro que a culpa é das leis, notadamente do Código Penal “caduco” e ineficiente. Bom, aí já é um problema do Poder Legislativo que, por sua vez… Por ora, resta-nos possibilidade de queixar-nos ao bispo (Macedo?) ou ao Papa, que já está a caminho…
Li a matéria e, desalentado, já me preparava para fechar o jornal quando deparo com outra pérola: “Osmar Júnior quer explicação do Ibama sobre Serra Vermelha na câmara Federal”. Pensei comigo: até que enfim um aliado de peso ao lado dos ambientalistas piauienses. Ledo e tredo engano. Com todas as letras: “Queremos que o presidente do Ibama esclareça as razões que levaram à suspensão das atividades do Projeto Energia Verde”, exigia o ilustre deputado. Secundando opinião do primeiro mandatário da nação, o digno parlamentar acredita que a atuação dos ambientalistas “atrapalha” o desenvolvimento do país. Indignado, afirmou: “Eu não concordo com esse tipo de coisa. Temos tecnologia hoje. O manejo florestal sustentável faz parte das mais modernas técnicas para conviver (sic) com o meio ambiente”. Em tom de desabafo, deixou no ar uma pergunta pungente: “Como vamos viver sem energia?” A resposta bem que poderia ser: Não vamos viver, deputado. Vamos, quando muito, sobreviver para sofrer e lamentar…
Não posso, não devo e não quero ser pessimista. Seria a negação da minha história de vida. Até agora, enfrentei todas as “pauleiras” sem correr com a sela. Ao longo de mais de 35 anos de labuta, tenho pugnado por causas perdidas: educação, cultura, ecologia. Não construí carreira literária, não recorri à política como trampolim; não amealhei fortuna; não tenho nem mesmo uma modesta aposentadoria. Estou literalmente falido e mal pago. Mas não quero perder a esperança, o tesão pela vida, a vontade de continuar fazendo. Mas até quando? Há poucos dias, a Folha de São Paulo publicou a opinião de um renomado filósofo, defendendo a barbárie. O cidadão, tido e havido como “humanista”, acha a pena de morte “branda demais” para certos criminosos. Uma desembargadora descrê das leis que aplica; um deputado federal defende um inqualificável crime ambiental… E o cidadão comum vai acreditar em quê? Ultimamente, tenho pensando seriamente em voltar para o sertão do Caracol, enfurnar-me naquelas brenhas, “sem rádio e sem notícia da terra civilizada”. O diabo é que, em todas as roças do sertão, já existe uma antena parabólica plantada no chão, democratizando o consumismo, a baixaria, a violência. Desgraçadamente, estamos condenados à barbárie, também conhecida como “progresso”.
Cineas Santos