Archive for abril, 2007

LIÇÕES DE VIDDA

Quando afirmo – e já o fiz muitas vezes – que onde nasci (sertão do Caracol) não havia água potável nem livros, não se trata, como pode parecer, de força de expressão ou tentativa de conferir algum brilho à minha opaca existência. É só um jeito de dizer que, em minha aldeia, faltava quase tudo, inclusive o indispensável. Só muito tempo depois, transplantado para a cidade, me dei conta de que a nossa maior pobreza era de repertório, de palavras, para ser mais preciso. Nosso universo vocabular compunha-se de um punhado de expressões, girando em torno de três substantivos: sol, chuva, trabalho. Das poucas expressões que conhecíamos, a mais significativa, pelo que encerrava de expectativas, era: “está bonito pra chover”. A mais triste de todas, “o inverno acabou”. O mais era aquele silêncio carregado de significados que o velho Graça traduziu tão bem em “Vidas Secas”. Para que se tenha uma idéia da nossa pobreza vocabular, não conhecíamos o adjetivo feliz. Não estou afirmando que não experimentássemos, às vezes, a sensação de felicidade. Para designá-la, usamos a palavra satisfeito; feliz, nunca. Assim, o maior xingo que conhecíamos e, acidentalmente, usávamos era infeliz. Quando se pretendia reduzir alguém a nada, ofender de verdade, bastava tachar o cristão de infeliz sem sorte. Podia resultar em morte.

Por que estou relembrando isso agora? Bem, há poucos dias, encontrei-me com uma sobrinha ( filha de uma sobrinha, para ser mais preciso) que ainda não completou dois anos idade. Trata-se de uma garotinha bonita, sossegada, com olhos que parecem caber as belezas do mundo. De brincadeira, perguntei-lhe o nome. Sem titubear, a pequena respondeu: “Vidda Caland Ponto Com”. Julgando ter ouvido mal, refiz a pergunta e, um tantinho agastada, Vidda me deu a mesma resposta. Não me perguntem de onde saiu esse ponto com: eu não saberia explicar. Foi aí que me ocorreu a seguinte indagação: como será a existência de uma criança que, antes mesmo de livrar-se das fraldas, já está imersa no mundo do “internetês”? Analfabeto digital, não me arisco a fazer previsões: seria um tiro na água. É possível que a geração da Vidda seja bem mais feliz que a minha: mais bem informada; mais cuidadosa com a natureza; mais atenta aos valores humanos; mais solidária; mais fraterna, etc. O problema é o legado que receberá de nós: um planeta literalmente enfermo, com temperaturas insuportáveis, ar irrespirável, água envenenada, escassez de comida e excesso de bocas para alimentar… Um mundo de incertezas.

Um tanto envergonhado, senti a compulsão de abraçar a pequenina Vidda e, em nome da minha geração, pedir-lhe perdão pelos estragos que provocamos à Terra, pelo egoísmo que nos fez cegos, pelo crime hediondo de termos arruinado o que não sabemos nem podemos consertar… Não o fiz: a garotinha não iria entender nada e o gesto patético nem mesmo aplacaria a minha sensação de culpa. Alheia à minha angústia, Vidda sorriu candidamente, virou-me as costas e correu para os braços da mãe. Inconscientemente, talvez aquela criança já esteja buscando a única saída possível saída: migrar da realidade cáustica que nos asfixia para a realidade virtual, onde tudo é possível, inclusive algum milagre. Que Deus a proteja.

Cineas Santos

posted by admin in Dois dedos de prosa and have No Comments