Certeiro como uma bala perdida, Millôr escreveu um texto genial sobre a tirania dos “miúdos”, como dizem os portugueses. Diz que era um garoto birrento, voluntarioso e chato que vivia enchendo o saco do pai, exigindo tudo e mais alguma coisa. Um dia, cismou de querer um revólver. O pai, sensato, tentou dissuadi-lo, argumentando existirem brinquedos bem mais interessantes que revólveres. Irascível, o garoto bateu pé, berrou, chorou. O pai, para evitar “traumas” que pudessem comprometer o desempenho sexual do moleque no futuro, acabou cedendo. Passou num armarinho e comprou-lhe um revólver de plástico. Com olímpico desprezo, o moleque olhou o brinquedo e berrou: – Desses, eu não quero, não! Quero um de verdade! O pai perdeu a paciência: deu-lhe uns piparotes e, dedo em riste, perguntou: – Pirralho de merda, desde quando revólver é brinquedo de criança? E tem mais: quem é que manda nesta casa? Sem titubear, o moleque retrucou: – Me dá o revólver, que eu te digo.
A lembrança dessa história me ocorreu quando vi, na TV, aquela reportagem sobre o garoto americano que, aos 11 meses de idade (isso mesmo), ganhou do avô uma espingarda Bereta, calibre 12, igualzinha àquela que o Hemingway usava para matar leões na África, antes de estourar os próprios miolos. O pai do moleque, comovido com o gesto do avô, imediatamente providenciou um porte de arma para o filho. Legalmente, o garoto já pode sair engatinhando por aí, portando seu “brinquedinho” mortífero. Belo gesto!
É escusado dizer que, aos dois anos de idade, esse feliz pimpolho será matriculado numa boa escola, onde aprenderá que a conquista do solo americano se fez a bala; que a constituição lhe garante o “sagrado” direito de portar uma arma; que a indústria bélica dos EUA é a mais poderosa e letal do planeta; que “a pátria da liberdade” pode invadir qualquer país, a qualquer momento, sob qualquer pretexto, sem ligar à mínima para as resoluções da ONU; que os únicos filhos legítimos de Deus são os norte-americanos (nosotros somos apenas bastardos). Acrescente-se a isso a batelada de filmes violentos a que assistirá; os vídeos games aterrorizantes que jogará, etc, etc.
Como na vida nem tudo sai conforme o planejado, vai que, um dia, na adolescência, esse moleque leva um fora da namoradinha, ou uns cascudos daquele colega grandalhão que adora bater nos mais fracos. Está pronto o script da tragédia. O moleque romperá com Deus, queimará seus navios, comprará dez caixas de cartuchos, pegará seu brinquedo predileto e, na manhã seguinte, exterminará 22 colegas, 8 professores e 2 bedéis. Para não fugir à regra, estourará os miolos antes de a polícia chegar. A imprensa mostrará tudo, com detalhes, o presidente Bush Neto fará um pronunciamento comovente à nação; psicólogos de todos os matizes buscarão explicações para a tragédia; o mundo ocidental chorará… Hipocrisia ou loucura? O que se poderia esperar de alguém com esse histórico? Por essas e outras, é que mantenho prudente distância de norte-americanos em geral. Faço minha a pergunta do poeta Salgado Maranhão: – O que podemos nós, armados com nossas modestas cacetinhas, contra esses búfalos da maldade? Nada, nadica.
Cineas Santos