Archive for maio, 2007

BÚFALOS DA MALDADE

Certeiro como uma bala perdida, Millôr escreveu um texto genial sobre a tirania dos “miúdos”, como dizem os portugueses. Diz que era um garoto birrento, voluntarioso e chato que vivia enchendo o saco do pai, exigindo tudo e mais alguma coisa. Um dia, cismou de querer um revólver. O pai, sensato, tentou dissuadi-lo, argumentando existirem brinquedos bem mais interessantes que revólveres. Irascível, o garoto bateu pé, berrou, chorou. O pai, para evitar “traumas” que pudessem comprometer o desempenho sexual do moleque no futuro, acabou cedendo. Passou num armarinho e comprou-lhe um revólver de plástico. Com olímpico desprezo, o moleque olhou o brinquedo e berrou: – Desses, eu não quero, não! Quero um de verdade! O pai perdeu a paciência: deu-lhe uns piparotes e, dedo em riste, perguntou: – Pirralho de merda, desde quando revólver é brinquedo de criança? E tem mais: quem é que manda nesta casa? Sem titubear, o moleque retrucou: – Me dá o revólver, que eu te digo.

A lembrança dessa história me ocorreu quando vi, na TV, aquela reportagem sobre o garoto americano que, aos 11 meses de idade (isso mesmo), ganhou do avô uma espingarda Bereta, calibre 12, igualzinha àquela que o Hemingway usava para matar leões na África, antes de estourar os próprios miolos. O pai do moleque, comovido com o gesto do avô, imediatamente providenciou um porte de arma para o filho. Legalmente, o garoto já pode sair engatinhando por aí, portando seu “brinquedinho” mortífero. Belo gesto!

É escusado dizer que, aos dois anos de idade, esse feliz pimpolho será matriculado numa boa escola, onde aprenderá que a conquista do solo americano se fez a bala; que a constituição lhe garante o “sagrado” direito de portar uma arma; que a indústria bélica dos EUA é a mais poderosa e letal do planeta; que “a pátria da liberdade” pode invadir qualquer país, a qualquer momento, sob qualquer pretexto, sem ligar à mínima para as resoluções da ONU; que os únicos filhos legítimos de Deus são os norte-americanos (nosotros somos apenas bastardos). Acrescente-se a isso a batelada de filmes violentos a que assistirá; os vídeos games aterrorizantes que jogará, etc, etc.

Como na vida nem tudo sai conforme o planejado, vai que, um dia, na adolescência, esse moleque leva um fora da namoradinha, ou uns cascudos daquele colega grandalhão que adora bater nos mais fracos. Está pronto o script da tragédia. O moleque romperá com Deus, queimará seus navios, comprará dez caixas de cartuchos, pegará seu brinquedo predileto e, na manhã seguinte, exterminará 22 colegas, 8 professores e 2 bedéis. Para não fugir à regra, estourará os miolos antes de a polícia chegar. A imprensa mostrará tudo, com detalhes, o presidente Bush Neto fará um pronunciamento comovente à nação; psicólogos de todos os matizes buscarão explicações para a tragédia; o mundo ocidental chorará… Hipocrisia ou loucura? O que se poderia esperar de alguém com esse histórico? Por essas e outras, é que mantenho prudente distância de norte-americanos em geral. Faço minha a pergunta do poeta Salgado Maranhão: – O que podemos nós, armados com nossas modestas cacetinhas, contra esses búfalos da maldade? Nada, nadica.

Cineas Santos

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AS COISAS FINDAS

Afirmei, em outra oportunidade (estou sempre me repetindo, coisas da idade), que pesco as minhas alegrias em águas rasas com anzol pequeno e linha curta. Como diria nosso poeta, “não me arde o desespero de ser dono de nada”, passageiro que sou , sem bilhete de volta. Mas chega de literatice. Quarta-feira da semana passada, depois de uma manhã extremamente cansativa, voltei à minha base – a Oficina da Palavra – para recarregar as baterias e encarar o turno da tarde. Mal desci do carro, fui abordado por uma cidadã de aparência humilde, que pediu licença antes de me dirigir a palavra. Com a maior naturalidade afirmou: - Professor, tenho acompanhado sua luta em defesa da cultura piauiense. No ano passado, ouvi o senhor afirmar na televisão que, para realizar o Salão do Livro do Piauí, precisa da ajuda dos amigos. Um lhe dá uma passagem; outro, a hospedagem de um dos escritores… A partir daquele momento, resolvi também ajudar: passei o ano inteiro juntando moedas neste cofrinho, que trouxe para o senhor. Espero que dê para pagar pelo menos o almoço de um dos convidados. E retirou de uma sacola de plástico um cofrinho de argila, miniatura de uma casinha branca com telhado e portas cor-de-rosa…

Como naquela canção do Chico, me pegou tão desarmado, que nem sei direito o que lhe disse. Devo ter balbuciado apenas um Deus lhe acrescente e saí de perto para que ela, o Santana, o Amaral e o Halan não me vissem de olhos marejados de lágrimas. Embora zonzo de emoção, ocorreu-me a lembrança dos belos versos de Adoniram Barbosa: “Com a corda mi/ do meu cavaquinho/ fiz uma aliança pra ela/ prova de carinho…” Sabe Deus quanto sacrifício aquela mulher simples, bela como a claridade da hora, fez para juntar aquele punhado de moedas e, com elas, ajudar-me a realizar um sonho do povo do Piauí. Um gesto para não ser esquecido.

No ano passado, terminada a 4ª edição do SALIPI, estávamos no fundo do fundo do poço. O evento que, para o público, fora uma festa, para os organizadores, tornou-se um pesadelo: uma cachoeira de dívidas a pagar e nenhum dinheiro em caixa. Foi aí que o nosso glorioso João Cláudio Moreno me procurou e prontificou-se a realizar um show cuja renda se reverteria em benefício do SALIPI. O João, como se sabe, é um cidadão pobre que, de seu, tem apenas o talento, a competência, o compromisso com a cultura piauiense e, principalmente, a solidariedade. Com muitos sacrifícios, pagamos as contas sem a necessidade do show, mas o gesto dele me tocou profundamente. É Na hora do porto e da barra que sabemos com quem se pode contar. Agora vem essa cidadã e repete a dose. Haja coração!

Um tantinho envergonhado, confesso que nem ao menos perguntei o nome daquela mulher simples que me entregou o cofrinho recheado de moedas. Melhor assim: para mim, será sempre lembrada como alguém da minha tribo, uma irmãzinha que, no ano da graça de 2007, ajudou-nos a realizar a 5ª edição do Salão do Povo do Piauí. Impossível esquecê-la, pois no dizer do poeta: “… as coisas findas/ muito mais que lindas/ essas ficarão”.

Cineas Santos

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LANÇAMENTO DO 5º SALIPI

A Galeria do Clube dos Diários foi palco na noite desta quarta-feira, dia 4, do lançamento da 5ª edição do SALIPI – Salão do Livro do Piauí. O evento, fruto de várias parcerias articuladas que buscam engrandecer a cultura do Estado, teve início com uma breve retrospectiva das edições passadas, entrega de troféus aos colaboradores do projeto, além de mostrar um pouco da programação esperada para este ano.

O lançamento contou com a presença dos professores Cineas Santos, Wellington Soares, Luiz Romero e Nilson Ferreira. “Eu sou um pouco suspeito para falar desse evento, que a cada dia deixa de ser um patrimônio de professores e passa a ser parte do patrimônio do povo do Piauí”, enfatizou o professor Cineas Santos.

A 5ª edição do SALIPI irá homenagear o poeta Torquato Neto, o anjo torto, símbolo da produção cultural piauiense e um dos mentores do tropicalismo. O senhor Heli Nunes, pai de Torquato, esteve presente no evento e disse sentir “muita alegria e satisfação de ver seu filho ser lembrado neste evento de grande importância na cultura do Estado”.

O final da cerimônia de lançamento do SALIPI foi marcado por uma mistura de música e literatura. O músico Roraima apresentou composições do poeta Torquato Neto, embalado por um belo coquetel organizado pelos Coordenadores do evento.

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O SALÃO DO POVO PIAUIENSE

A primeira edição do Salão do Livro do Piauí – julho de 2003 – foi pouco menos que uma temeridade: nenhum dos organizadores do evento tinha qualquer experiência em matéria de salão e tampouco tínhamos recursos financeiros para bancar um empreendimento de tal magnitude. A despeito disso, o 1º SALIPI foi sucesso absoluto: superou todas as expectativas. A razão de ser o sucesso deveu-se à maciça presença do publico teresinenses, clara demonstração de que o Salão do Livro era uma necessidade, mais do que isso: uma aspiração do nosso povo. As demais edições só confirmaram essa verdade. Este ano, entre os dias 04 e 09 de junho, realizar-se-á, no Centro de Convenções de Teresina, a 5ª edição do SALIPI que, este ano, homenageará o poeta, letrista e jornalista Torquato Neto. Morto em 1972, Torquato continua incomodamente vivo, “desafinando o coro dos contentes”. Em vida, o “Anjo Torto” foi incômodo como um espinho fincado na carne ou, para usar uma expressão dele próprio, “escorpião encravado na sua própria ferida”.
Iconoclasta, provocador, instigante e, acima de tudo genial, Torquato Neto foi (continua sendo) um convite romper com o conformismo, com a aceitação das “verdades definitivas”. Homenageá-lo, nesta edição, é demonstrar o nosso respeito por piauiense atípico.

Entre os convidados deste SALIPI figuram: Evanildo Bechara, Nei Lopes, Antônio Carlos Secchin, Ana Miranda, Alice Ruiz, Roberto Damata, Domício Proença Filho, José de Nicola Neto, Ivan Junqueira, entre outros.
Este ano, daremos ênfase especial ao seminário Língua Viva, daí a presença de um grande número de autores que são também professores. Além de cursos, teremos lançamentos de livros, cinema, música, exposição de artes plásticas, e o que mais rolar. Procure informar-se e participe da maior festa da cultura piauiense.

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