Por que será que depois de tantos anos, Torquato Neto, o anjo torto da cultura brasileira, continua a ser homenageado, reverenciado,amado, lido , editado? Por que será que esse sentimento termina por alcançar saudosistas dentre os quais me incluo sem nenhuma reserva, aqueles que com ele conviveram, dividiram atitudes, idéias e viagens artísticas próprias de um tempo? Por que será que os mais jovens vêem aguçadas suas curiosidades, sentem-se atraídos por Torquato, encantados por ele? Resposta simples, direta: a obra, as idéias, atitudes sobreviveram.
É lugar comum dizer-se que artistas vivem à frente de seu tempo, mas aqui cabe como uma luva. Torquato viveu. Um cara que encarou essa de unir – será que pode? – vida e morte, sem começo ou fim, apenas como trajetória, só podia ser um iluminado, ferrenho defensor de suas convicções. Alguém a quem se concede o direito de agir, do alto dos seus rasos 28 anos de existência, de virar as costas ao lugar e ao sol, por melhor que seja. Fez da linha da vida um círculo que se fechou no seu início.Uma linha curta, de 10 anos.
Daqui de onde vejo, sempre restou a indagação: coragem ou fuga? Ousadia ou cansaço? O início ou fim de tudo? Nosso artífice da palavra, qualquer palavra, de preferência a que corta bem fundo, saiu por aí a desafinar o coro dos contentes, desacomodando a tudo e a todos. Não passou em branco. Deixou rastros criativos. Na bagagem, a palavra como arma. Alguém cuja coragem, pelo brilho intelectual, não comportava o corpo franzino e a língua ferina que podia dizer: “não gosto de brigas, mas graças a Deus, não fujo delas”.
Este ano temos mais uma feliz e estranha coincidência. O ano em que o Salipi resolve escolher Torquato como autor homenageado é , também , o ano em que a Tropicália crava na folhinha do tempo, a marca dos 40 anos de influência e rebuliço na cultura nacional. Nada ficou como dantes. Como que a prenunciar fortes solavancos, até hoje, somos capazes de encontrar gente disposta a sustentar que o tropicalismo é o sentimento dominante na cultura brasileira. Torquato Neto tem muita parte nisso tudo. Talvez seja o cimento e base, junto com Capinan e Tom Zé, do movimento que não quis ser ideológico e o foi, até a medula. Caetano, Gil e Gal foram vitrines, com todos os méritos possíveis e por isso, continuam lá, centro das atenções nacionais; amados e odiados; talentosos, inovadores, revolucionários, acomodados ou não, mas sempre tocados pelo frescor do novo.
É bom que se leia , ouça, veja e sinta Torquato sem regionalismos. Sim, ele é daqui do Piauí, da cidade que anunciava ser “minha terra é onde o céu é mais limpo”. Legal é festejar Torquato como o criador que mais influenciou a arte e cultura brasileira. E o Salipi é uma oportunidade e tanto para re-ver; re- ou – vir; re – pensar; re – ler. E re-ter Torquato Neto. A homenagem segue pela disponibilidade dos livros organizados por amigos e pesquisadores, palestras cujo tema é a obra e a vida do poeta. Lá vai rolar, também, uma exposição musical cujo título é O Cancioneiro Torquateano – a palavra cantada.
George Mendes