
Eu teria uns nove anos de idade, se muito, quando a irmã mais velha me levou para assistir a “uma hora de arte” no Ginásio Dom Inocêncio. Era uma sala enorme (aos olhos do menino), um palco mal iluminado, com morcegos realizando estranhas coreografias. De repente, apareceu uma moça loura, com uma saia muito curta (para os padrões da época) e botas de cano longo, tentando dançar Siboney, executada por um trompetista bêbado. Desastre total: o cara não acertou uma nota. A moça desceu do palco desfazendo-se em pranto. A platéia, delicadamente, aplaudiu-lhe o esforço. O número seguinte, um alumbramento: um cantor magro, misto de Clark Glabe e Zé Bonitinho, com um vozeirão de assustar os anjos, interpretou El Reloj, de Carlos Cantoral. Não pude reter as lágrimas. Aquele bolero entranhou-me na alma e nunca mais saiu. Embora o compositor não o saiba, foi feito especialmente para mim. É meu. Ninguém poderá impedir-me de ouvi-lo até o último dia de minha existência.
Depois de um dia inteiro de solavancos, sacolejos, poeira e sol, a jardineira parou em frente a uma estalagem ordinária no povoado de Várzea Grande (hoje, Cel. José Dias). Encostei a cabeça no banco da frente para descansar o juízo. De repente, levantei a vista e uma moça morena, linda como as coisas que só existem na imaginação, recostada numa janela rústica, me sorriu. Tudo não passou de uma fração de segundo, tempo mais do que suficiente para que eu a fixasse, para sempre, na memória. Para vê-la, basta fechar os olhos, e ei-la que ressurge, imune ao poder corrosivo do tempo, com o seu sorriso de colorir auroras…
Tarde de inverno, depois de uma chuva rápida, o sol se insinua entre as nuvens escuras. De repente, saído da cartola do Grande Mágico, um arco-íris ilustra o céu de Campo Maior. Extasiado com tanta beleza, lamentei não conduzir, naquela tarde, uma máquina fotográfica. Logo, logo, me dei conta de que era melhor assim: aquele momento não poderia ficar aprisionado numa simples fotografia. Guardei-o na lembrança como um talismã, uma imagem irretocável “ na vida de minhas retinas tão fatigadas”, como diria o Poeta.
A moça, feita de porcelana e sonho, aproximou-se de mim e, com extrema delicadeza, pediu-me: – Por favor, não me ame tanto a ponto de me perder. Para alguém menos atento, a frase soaria enigmática, “coisa de mulher”. Para mim, o recado não poderia ter sido mais explícito: chega! Eu estava a caminho de uma paixão desvairada, cujas conseqüências não consigo imaginar. A moça, suave como o vôo de uma garça numa tarde azul, saiu de minha vida como entrou: sem pressa, sem ruído… Um sonho bom que se esvaiu, deixando no ar um leve cheiro de jasmim. Deixou-me também um arremedo de poema, que termina com os versos: É que, em matéria de amor/ eu sou assim:/ um pouco mais/ um muito menos…/ eu nunca sei o ponto certo principalmente se você está por perto. Agora, já não corro o perigo de perdê-la. Será, para sempre, minha como a luz de Vésper que, sem nada exigir, ilumina-me o anoitecer.

Acaba de nascer um projeto cultural que promete. Trata-se de “Um Grande Encontro”, iniciativa da cantora Luíza Miranda e da produtora Cultural Josy Brito. O projeto é tão simples que custa crer que não se tenha pensado nele antes. Uma vez por mês, um dos intérpretes da música piauiense fará um show só com músicas de um dos grandes compositores da MPB. A primeira edição já se realizou no dia 5 de julho, na Oficina da Palavra, com Luíza Miranda, Josué Costa e Maneco Nascimento. O compositor homenageado foi poeta e letrista Vinícius de Moraes, morto há exatos 27 anos.