Archive for julho, 2007

DA ARTE DE AMAR LEMBRANÇAS

Eu teria uns nove anos de idade, se muito, quando a irmã mais velha me levou para assistir a “uma hora de arte” no Ginásio Dom Inocêncio. Era uma sala enorme (aos olhos do menino), um palco mal iluminado, com morcegos realizando estranhas coreografias. De repente, apareceu uma moça loura, com uma saia muito curta (para os padrões da época) e botas de cano longo, tentando dançar Siboney, executada por um trompetista bêbado. Desastre total: o cara não acertou uma nota. A moça desceu do palco desfazendo-se em pranto. A platéia, delicadamente, aplaudiu-lhe o esforço. O número seguinte, um alumbramento: um cantor magro, misto de Clark Glabe e Zé Bonitinho, com um vozeirão de assustar os anjos, interpretou El Reloj, de Carlos Cantoral. Não pude reter as lágrimas. Aquele bolero entranhou-me na alma e nunca mais saiu. Embora o compositor não o saiba, foi feito especialmente para mim. É meu. Ninguém poderá impedir-me de ouvi-lo até o último dia de minha existência.

Depois de um dia inteiro de solavancos, sacolejos, poeira e sol, a jardineira parou em frente a uma estalagem ordinária no povoado de Várzea Grande (hoje, Cel. José Dias). Encostei a cabeça no banco da frente para descansar o juízo. De repente, levantei a vista e uma moça morena, linda como as coisas que só existem na imaginação, recostada numa janela rústica, me sorriu. Tudo não passou de uma fração de segundo, tempo mais do que suficiente para que eu a fixasse, para sempre, na memória. Para vê-la, basta fechar os olhos, e ei-la que ressurge, imune ao poder corrosivo do tempo, com o seu sorriso de colorir auroras…

Tarde de inverno, depois de uma chuva rápida, o sol se insinua entre as nuvens escuras. De repente, saído da cartola do Grande Mágico, um arco-íris ilustra o céu de Campo Maior. Extasiado com tanta beleza, lamentei não conduzir, naquela tarde, uma máquina fotográfica. Logo, logo, me dei conta de que era melhor assim: aquele momento não poderia ficar aprisionado numa simples fotografia. Guardei-o na lembrança como um talismã, uma imagem irretocável “ na vida de minhas retinas tão fatigadas”, como diria o Poeta.

A moça, feita de porcelana e sonho, aproximou-se de mim e, com extrema delicadeza, pediu-me: – Por favor, não me ame tanto a ponto de me perder. Para alguém menos atento, a frase soaria enigmática, “coisa de mulher”. Para mim, o recado não poderia ter sido mais explícito: chega! Eu estava a caminho de uma paixão desvairada, cujas conseqüências não consigo imaginar. A moça, suave como o vôo de uma garça numa tarde azul, saiu de minha vida como entrou: sem pressa, sem ruído… Um sonho bom que se esvaiu, deixando no ar um leve cheiro de jasmim. Deixou-me também um arremedo de poema, que termina com os versos: É que, em matéria de amor/ eu sou assim:/ um pouco mais/ um muito menos…/ eu nunca sei o ponto certo principalmente se você está por perto. Agora, já não corro o perigo de perdê-la. Será, para sempre, minha como a luz de Vésper que, sem nada exigir, ilumina-me o anoitecer.

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DAS COISAS QUE AINDA NÃO FIZ

A primeira vez que entrei num avião – abril de 72, tive a impressão de estar adentrando o nirvana: ao meu lado, viajava uma moça de olhos policromados por quem eu estava (talvez ainda esteja) perdidamente apaixonado. Embora a ditadura ensombrasse o país, todas as noites se fazia uma revolução nalguma mesa de bar: a vitória era só uma questão de dias. Durante a viagem, bêbado de encantamento, nem me dei conta de que aquela geringonça voava a 18 mil pés de altitude. Parafraseando Caymmi, era doce morrer no ar…

O avião era um Boeing da Sadia reluzindo, de novo. O serviço de bordo, coisa para inglês ver: as aeromoças, bonecas da mais fina porcelana, deslizavam pelo corpo da aeronave com leveza e graça. Antes de nos servir, perguntavam: – O senhor prefere massa, carne ou peixe?Talheres de aço inox, taças de cristal, vinho branco ou tinto, ao gosto do freguês. Terminada a refeição, outra pergunta: – Mais alguma bebida, senhor? Os paus-d’água lavavam a égua!

O certo é que, por obrigação, fiz muitas outras viagens na vida, mas nenhuma delas com aquele toque de poesia. Hoje, viajar de avião deixou de ser um privilégio dos bem-nascidos: se o freguês tiver saco para passar as noites fuçando na internet, pode viajar de Teresina a São Paulo, pagando a bagatela de cinqüenta reais. Passagens populares: serviço ordinário. Dia desses, passei 12 horas sacolejando de Porto Alegre a Teresina, num vôo pinga-pinga que me levou até Belém, antes de despejar-me em minha aldeia. Tudo que me ofereceram para comer foi sanduíche de pão dormido com queijo de terceira e guaraná Kero. Poltronas apertadas, velhos tossindo, crianças chorando… Pau-de-arara de romeiro é mais confortável. De qualquer forma, para quem fez o percurso de São Raimundo Nonato a Teresina encarapitado num caminhão carregado de feijão, viajar de avião é sempre um luxo.

Durante a última viagem que fiz, astuciei o seguinte: qualquer dia, eu e o poeta Salgado Maranhão viajaremos juntos para o Rio de Janeiro. Como sou farofeiro juramentado, pedirei a D. Áurea que, na véspera , me prepare um frito de galinha, carregando a mão nos condimentos. Isso posto, colocarei o frito numa lata de Neston , fechando-a com cuidado, para dar consistência aromática ao produto. Munidos de tal provisão, embarcaremos, um ao lado do outro, rumo à “Cidade Maravilhosa”. Lá pelas tantas, quando a garçonete, perdão, a aeromoça, com aquela voz de radiola com as pilhas fracas, perguntar se aceito alguma coisa, fingirei de mouco, gritando – Hã? É aí que entre o Salgado Maranhão: – A moça está perguntando se o senhor aceita alguma coisa para comer. Com essa cara de capiau velho, berrarei: – Dona moça, avie só as vasilhas que o de-comer nós já traz! Incontinenti, destamparei a lata, deixando que o cheiro inconfundível da farofa curtida impregne o ar. Não sei exatamente o que poderá acontecer. É até possível que me prendam sob a acusação de desestabilizar olfativamente a tripulação e os passageiros… Vou pagar pra ver: afinal de contas, como naquele comercial idiota da cerveja que “desce redondo”, o que é que vou contar para meus netos amanhã?

Cineas Santos

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UM GRANDE ENCONTRO

Acaba de nascer um projeto cultural que promete. Trata-se de “Um Grande Encontro”, iniciativa da cantora Luíza Miranda e da produtora Cultural Josy Brito. O projeto é tão simples que custa crer que não se tenha pensado nele antes. Uma vez por mês, um dos intérpretes da música piauiense fará um show só com músicas de um dos grandes compositores da MPB. A primeira edição já se realizou no dia 5 de julho, na Oficina da Palavra, com Luíza Miranda, Josué Costa e Maneco Nascimento. O compositor homenageado foi poeta e letrista Vinícius de Moraes, morto há exatos 27 anos.

Maneco Nascimento, além de assinar a direção do espetáculo, fez a leitura de textos do poeta. Luíza Miranda, ao longo de uma hora, interpretou algumas das mais conhecidas composições de Vinícius, acompanhada pelo violonista Josué Costa, a maior revelação da música instrumental do Piauí nos últimos tempos. O espetáculo contou ainda com a participação do percussionista Gílson Fernandes. O resultado foi um show impecável sob todos os aspectos. Uma platéia seleta curtiu, cantou e aplaudiu o quarteto que dividiu o palco.

A próxima atração será o “encontro” de Vanda Queiroz com Luiz Melodia, um dos grandes nomes da MPB. Vanda será acompanhada por Adelino Frazão. O show terá direção do ator Chico Cabró. O espetáculo acontecerá no próximo dia 24 de agosto, na Oficina da Palavra, a partir das 20 h 30 min. Vale a pena conferir.

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BARRIPI UM POETA POPULAR

Venha conhecer um pouco dos belíssimos poemas de BARRIPI na exposição “Barripi um Poeta Popular” na Galeria Fernando Costa, Oficina da Palavra de Segunda a Sábado.

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