Archive for agosto, 2007

PESO DAS HOMENAGENS (III)

Aniversário de Teresina. Abro a edição especial de O Dia, encorpada, ilustrada, bonita, e, na capa de um dos cadernos, uma figura decrépita (olhos baços, carapinha branca) me encara com um ar de mofa, como se dissesse: “Eu não disse que chegava lá!”. Incontinenti, acometeu-me a síndrome de João Teodoro. Para quem não se lembra, João Teodoro é um personagem criado por Monteiro Lobato, em Cidades Mortas, se não me trai a memória. Simples, honesto, trabalhador, seu João tinha um problema seriíssimo: não dava o mínimo valor a si mesmo. Acreditava em tudo, acreditava em todos, menos na possibilidade de vir a ser qualquer coisa na vida. Sua cidadezinha – Itaoca – definhava a olhos vistos. Os outros fugiam, migravam, mudavam-se e seu João ia ficando, certo de que, mais cedo ou mais tarde, a cidade voltaria a ser o que outrora fora. Sua crença durou até o dia em que o nomearam delegado. Aproveitou a cumplicidade da noite, juntou seus “teréns” e arribou. Na saída da cidade, encontrou um velho conhecido, que lhe perguntou: “Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens?”. “Vou-me embora – respondeu o retirante. – Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim”. “Mas, como? Agora que você é delegado?”. “Justamente por isso. Terra que João Teodoro chega a delegado, eu não moro. Adeus”. E sumiu no horizonte. Confesso que a síndrome de João Teodoro anda me visitando, com incômoda freqüência. Foi o que ocorreu ao ver-me estampado num dos cadernos daquela edição de O Dia (16/08/07). O Banco do Estado do Piauí resolveu homenagear-me com o título de “Patrimônio Literário do Piauí”. Segunda a Eclética, agência responsável pela peça publicitária, houve uma enquete, pesquisa ou eleição e eu teria sido o “escolhido”. Convenhamos que isso desafia o bom senso. É certo que o Piauí não é um celeiro de gênios literários, mas aqui nasceram Da Costa e Silva, Alvina Gameiro, O.G. Rego de Carvalho, Assis Brasil, H. Dobal, Mário Faustino, Torquato Neto, para ficar só naqueles cujas obras vêm resistindo bravamente à ação corrosiva do tempo. Quanto a mim, sou, quando muito, um “patrimônio literário” de Campo Formoso, hoje, uma capoeira infestada de carrapicho. Ao longo da vida, alinhavei meia dúzia de contos chochos, cometi um punhado de poemas e, com alguma regularidade, escrevo arremedos de crônicas publicados neste espaço. O que isso efetivamente representa? Nadinha. Tenho sido, com muito orgulho, um divulgador – camelô, se quiserem – da literatura piauiense. Leio, edito e divulgo, com regularidade, o que de melhor se produz no Piauí. Como criador, minha contribuição é nula.Por que não recusei a homenagem? Por simples delicadeza. Entendo que uma homenagem, por mais singela que seja, se não foi “cavada”, deve ser aceita. Agradeço, pois, o gesto do BEP, da Eclética e dos que “votaram” em mim, mas essa homenagem é pesada demais para um cidadão avançado na senescência, mas com algum senso crítico. Por essas e outras, estou pensando seriamente em voltar para o sertão do Caracol que, brevemente, integrará a gloriosa unidade do estado do Gurguéia. Terra onde Cineas Santos é “patrimônio literário” não tem futuro.

Cineas Santos

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ECOLOGIA – ECOS DE DORA

Vernissage

19/set/2007 às 19h

Exposição

20/set à 2/out/2007, das 10h às 19h (exceto às sábados e domingos)

Local

Shopping Cassiano Atlântico
Av. Atlântica, 4240 loja 212 – Copacabana – Rio de Janeiro

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DAS ENFERMIDADES QUE NÃO TIVE

Sou de um tempo de doenças conhecidas, remédios baratos e curas duvidosas. É certo que se morria bem mais cedo, mas, em compensação, sem tantas diluições, vivia-se cada segundo da existência com muito mais intensidade. Com o progresso científico e os avanços da medicina moderna, ocorreu um fenômeno curioso: descobriram-se mais doenças do que remédios para as já existentes. Um exemplo: o que fez a medicina, além de uma vacina de efeitos discutíveis, para evitar ou curar a gripe? Absolutamente nada. Os médicos, por seu turno, tornaram-se mais espertos: quando não conseguem diagnosticar uma enfermidade, por mais banal que seja, nem titubeiam: “Trata-se de uma virose”. È como se dissessem: é a vontade de Deus.

Menino, no sertão do Caracol, fui acometido de todas as doenças, até então, conhecidas. Com mezinhas, chás e rezas fortes, sobrevivi a tudo e aqui estou para contar a história. Peço permissão aos meus três leitores para nomear as enfermidades mais comuns e os remédios de que dispúnhamos para curá-las. Para cicatrizar o corte do cordão umbilical, sarro de cachimbo era tiro e queda; para apressar o endurecimento da moleira, usava-se gema de ovo aquecida; dordói (conjuntivite), curava-se com sumo de fedegoso; para frieira, nada mais eficiente do que folha de cabaceira aquecida; combatiam-se as impingens com sumo de limão e pólvora; curavam-se as verminoses com mastruço , melão-de-são-caetano ou semente de abóbora; tosse-braba (coqueluche), aliviava-se com leite de jumenta preta; as crises de asma eram amenizadas com mel de cupira , caldo de cauã ou cigarro de flor de zabumba ; prisão de ventre curava-se com óleo de rícino; aliviavam-se as crises de enxaquecas com chá de imburana-de-cheiro; para os desarranjos intestinais, nada melhor que casca de pau-de-rato; para caxumba (papeira) , barro de casa de parantonha umedecido com cuspe; para o sarampo “sair” , chá de merda de cachorro;para estancar sangria desatada, pó de café ou bosta de jumento; para quebranto, mau-olhado e espinhela caída, o remédio era reza forte com galho de arruda. As demais enfermidades eram combatidas com aguardente alemã, remédio que não podia faltar na casa de cristão nenhum. É escusado afirmar que havia, como ainda há, doenças incuráveis: feiúra, preguiça, sem-vergonhice, dor-de-corno…

Por que me lembrei disso agora? É que, dia desses, um amigo me ligou extremamente apreensivo: descobriu que sofre de transtorno bipolar, ou seja, é capaz de passar da euforia à depressão num piscar de olhos . Não bastasse isso, o infeliz sofre também de úlcera de origem nervosa, rinite, pressão alta , insônia e estresse. A despeito disso (ou talvez por isso), ainda está vivo e faz muito sucesso como artista. Ganha um picolé caseiro quem adivinhar o nome dele.

Diante de um quadro como o descrito acima, sinto-me um privilegiado. Sofro apenas de feiúra crônica, dureza galopante e envelhecimento irreversível, enfermidades que só se fazem sentir diante do espelho ou quando os cobradores batem à porta. Conversando com um médico amigo sobre o assunto, ele me explicou que sofre de uma doença rara, mas preocupante: workaholic. Ante o meu espanto, explicou-me que se trata de obsessão pelo trabalho ou “vício do trabalho”, como a denominam os americanos. Por via das dúvidas, resolvi dedicar-me à releitura de Da preguiça como método de trabalho, do impagável Quintana. É melhor morrer de nada do que de tudo. Assim seja.

Cineas Santos

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