Aniversário de Teresina. Abro a edição especial de O Dia, encorpada, ilustrada, bonita, e, na capa de um dos cadernos, uma figura decrépita (olhos baços, carapinha branca) me encara com um ar de mofa, como se dissesse: “Eu não disse que chegava lá!”. Incontinenti, acometeu-me a síndrome de João Teodoro. Para quem não se lembra, João Teodoro é um personagem criado por Monteiro Lobato, em Cidades Mortas, se não me trai a memória. Simples, honesto, trabalhador, seu João tinha um problema seriíssimo: não dava o mínimo valor a si mesmo. Acreditava em tudo, acreditava em todos, menos na possibilidade de vir a ser qualquer coisa na vida. Sua cidadezinha – Itaoca – definhava a olhos vistos. Os outros fugiam, migravam, mudavam-se e seu João ia ficando, certo de que, mais cedo ou mais tarde, a cidade voltaria a ser o que outrora fora. Sua crença durou até o dia em que o nomearam delegado. Aproveitou a cumplicidade da noite, juntou seus “teréns” e arribou. Na saída da cidade, encontrou um velho conhecido, que lhe perguntou: “Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens?”. “Vou-me embora – respondeu o retirante. – Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim”. “Mas, como? Agora que você é delegado?”. “Justamente por isso. Terra que João Teodoro chega a delegado, eu não moro. Adeus”. E sumiu no horizonte. Confesso que a síndrome de João Teodoro anda me visitando, com incômoda freqüência. Foi o que ocorreu ao ver-me estampado num dos cadernos daquela edição de O Dia (16/08/07). O Banco do Estado do Piauí resolveu homenagear-me com o título de “Patrimônio Literário do Piauí”. Segunda a Eclética, agência responsável pela peça publicitária, houve uma enquete, pesquisa ou eleição e eu teria sido o “escolhido”. Convenhamos que isso desafia o bom senso. É certo que o Piauí não é um celeiro de gênios literários, mas aqui nasceram Da Costa e Silva, Alvina Gameiro, O.G. Rego de Carvalho, Assis Brasil, H. Dobal, Mário Faustino, Torquato Neto, para ficar só naqueles cujas obras vêm resistindo bravamente à ação corrosiva do tempo. Quanto a mim, sou, quando muito, um “patrimônio literário” de Campo Formoso, hoje, uma capoeira infestada de carrapicho. Ao longo da vida, alinhavei meia dúzia de contos chochos, cometi um punhado de poemas e, com alguma regularidade, escrevo arremedos de crônicas publicados neste espaço. O que isso efetivamente representa? Nadinha. Tenho sido, com muito orgulho, um divulgador – camelô, se quiserem – da literatura piauiense. Leio, edito e divulgo, com regularidade, o que de melhor se produz no Piauí. Como criador, minha contribuição é nula.Por que não recusei a homenagem? Por simples delicadeza. Entendo que uma homenagem, por mais singela que seja, se não foi “cavada”, deve ser aceita. Agradeço, pois, o gesto do BEP, da Eclética e dos que “votaram” em mim, mas essa homenagem é pesada demais para um cidadão avançado na senescência, mas com algum senso crítico. Por essas e outras, estou pensando seriamente em voltar para o sertão do Caracol que, brevemente, integrará a gloriosa unidade do estado do Gurguéia. Terra onde Cineas Santos é “patrimônio literário” não tem futuro.
Cineas Santos

