Archive for setembro, 2007

CONVERSA DE VELHOS

Em Teresina, até as pedras sabem da minha aversão a telefone celular. É coisa antiga. Não se trata, como pensam alguns, de simples capricho de velho rabugento. É que existe entre mim o esse brinquedo do cão um fosso intransponível, uma incompatibilidade insanável. O celular “sabe” que não o aprecio; em represália, nunca me serve quando a ele recorro. O jogo não sai do zero a zero. No mês passado, de Pio IX, passei uma tarde inteira tentando uma ligação para Teresina. Nada. No display da caixinha mágica, só a frase inigmática: “buscando rede”. Lá pelas tantas, perdi a paciência: fui ao mercado da cidade, comprei uma rede de embira de caruá e deixei o bicho madornando nela a noite inteira. Vai ter preguiça assim lá na casa do capiroto, diacho!

Tenho miríades de razões para não gostar de celular. Em primeiro lugar, esse trem vicia mais do que coca-cola e nicotina, juntas. Em segundo lugar, como confiar num artefato que é capaz de perturbar a complexa ecologia de um Boing? Não bastasse isso, as operadoras estão sempre oferecendo uma carrada de “vantagens” para você mudar de plano, trocar o aparelho, etc. É pior do que casamento com viúva pobre carregada de filhos.

Ao longo da vida, sempre me neguei peremptoriamente a portar esse guizo eletrônico. Tinha pronto, na ponta da língua, um argumento irrefutável: não sou cardiologista, nem delegado de polícia, nem corretor. Quando não estou é porque não quero ser encontrado. Mas a vida tem curvas. Vai que meu filho, no dia dos pais, resolveu fazer-me um “carinho” e pendurou o chocalho da aldeia global no meu pescoço. Me deu um celularzinho peba, desses de cartão, que não mandam e-mail, não fotografam, não fazem mapa astral. Só acidentalmente, o meu completa uma chamada. Pronto: foi o bastante para desassossegar a minha vida. Na semana passada, por exemplo, uma velha amiga me ligou do Rio de Janeiro para uma consulta rápida: queria saber se, em determinado contexto, devia usar este ou esse. É pouco? Acrescente-se a isso a gozação dos amigos. Ontem mesmo, a jornalista Isabel Cardoso ligou apenas para confirmar se “o dinossauro estava realmente online”, sorriu e desligou. Mas o melhor, digo, o pior ainda estava por vir.

Na semana passada, em plena sessão do Conselho de Cultura, o bicho estrebuchou (o meu é mudo) no meu bolso. Não atendi. Terminada a sessão, dirigi-me à Oficina da Palavra onde tinha compromisso agendando com o mestre Santana. Muito bem acompanhado (uma mulher bonita ao lado), Santana recebeu com a elegância que o caracteriza: “Como vai o nobre amigo?”. Lembrei-me da chamada e resolvi retornar a ligação, cujo autor não consegui identificar. Deu-se então uma cena que nem Woody Allen, sem seus melhores momentos, seria capaz de imaginar.

-Alô!

- Quem fala?

- Companheiro, estou apenas retornando uma ligação…

- Não sei do que se trata.

- Meu senhor, quem está falando é o professor Cineas. É que …

- O Cineas está aqui ao meu lado, você quer falar com ele?

Nessa altura do campeonato, a jovem e bela cidadã, que a tudo assistira, não conseguiu conter: desmanchou-se em gargalhada. Eu estava falando ao telefone justamente com o Santana, ao meu lado. Olhamo-nos envergonhados, desligamos nossos brinquedos inúteis e fomos tomar um cafezinho. Para disfarçar,passamos a discutir o calvário do Flamengo no brasileirão. Acreditai, irmãos, envelhecer dói!

Cineas Santos

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PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI…

Tenho feito um esforço desgramado pra não me meter nessa arenga dos cansados, cuja conseqüência mais palpável, até agora, foi a declaração do Sr. Zottolo, que tanto melindrou os piauienses. Impossível: aonde chego, sou recebido com a pergunta: “O que você acha da declaração do diretor da Philips?”. Tento desconversar, explico que Joca Oeiras, Cláudio Lembo, Mão Santa, Wellington Dias, para citar apenas os mais ilustres, já se manifestaram sobre o assunto, com a necessária veemência. Inútil: querem a minha “abalizada” opinião. Um dos meus três leitores chegou a ligar-me, pedindo que eu “dispare um petardo capaz de destruir a arrogância dos paulistas”. Fiz ver ao ingênuo leitor que, com a munição de que disponho, um “petardo” disparado por mim não chegaria a Timon. A última vez que uma pedra de funda derrubou um gigante, o Senhor guiava a mão de Davi. Isso já faz um tempinho.

Mas se querem minha opinião sobre o imbróglio, ei-la: em primeiro lugar, concordo plenamente com o Sr. Jorge Dória Jr., líder dos cansados, perdão, ricos, quando pergunta: “Desde quando, para você ter o direito de protestar, é preciso ter atestado de pobreza?”. Os ricos têm, sim, o direito de manifestar-se livremente contra ou a favor do que bem entenderem. Aliás, o que rico mais faz – além, naturalmente, de viajar, comer bem, beber melhor ainda e surucucar – é manifestar-se livremente. Basta ler as revistas semanais, as colunas sociais e até mesmo os jornalões “sérios”. Antônio Ermírio de Morais, o rico dos ricos brasileiros, é colunista do mais influente jornal da República. Semanalmente, deita falação sobre o que bem entende e até sobre o que não entende.

Em segundo lugar, os ricos têm também o sagrado direito de estarem cansados. Não deve ser fácil trabalhar dezessete horas por dia (como faz o Sr. Dória Jr.), cuidar da família, viajar, circular pelos lugares chiques da cidade, organizar desfiles de cães e ainda encontrar tempo para ouvir a discurseira do Lula (recheada de erros de concordância e metáforas futebolísticas). Os cansados devem estar morrendo de saudades das platitudes e tiradas acacianas do “Príncipe dos sociólogos”. Tudo isso é legítimo e até razoável. O que não me parece razoável é querer contar com a adesão dos sem-nada para engrossar o cordão da canseira. Se o protesto foi pífio, não foi por causa de boicote e coisa parecida; é que os ricos do país são poucos.

Quanto à declaração do Sr. Zottolo sobre o Piauí, trata-se de, como bem afirmou o Sr. Dória, “um descuido”. Em psicologia, isso se chama ato falho. Explicando: é aquilo sabido e consabido, dito e repetido, mas em local adequado. Não pode ser proclamado em praça pública.

Particularmente, tenho minha tese: num mundo de economia globalizada, já não existem etnias, raças, nações, cidadãos, nada. O que existe é consumidor e não consumidor, ou seja, quem pode e quem não pode comprar. Parece que, para o diretor da Philips, o Piauí figura na última categoria. Se não compra, não conta. Fazer o quê? Melhorar a imagem do Piauí aqui mesmo, para o consumo interno, como afirmava aquele ex-cartunista. Nada além.

Cineas Santos

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