Sei que os mais novos não lembram dos jornais da antiga, mas, desde os tempos do “Correio da Manhã” que cultivo o estranho vício de ler jornais todo dia, dia após dia. A notícia televisiva ou a radiofônica nunca substituíram, em mim, a dependência da palavra escrita nos jornais. Se eu não decifrar os acontecimentos nas páginas dos jornais, parece que eles não aconteceram. Quando volto de férias, período em que geralmente substituo a leitura de jornais por outras palavras muito mais interessantes, descubro que fico “por fora” nas conversas da vida diária.
Tenho um amigo que não lê mais jornais e diz que a vida fica mais interessante e ele entende mais a realidade sem os jornais. E é verdade. Quando vou discutir com ele, a razão, sobre qualquer assunto, fica sempre do seu lado. Ele realmente entende a realidade melhor do que eu. Mas sem querer admitir que sou menos inteligente, tendo a culpar meu vício. Afinal, dizem que o vício causa uma dependência bem maior que a nossa vontade. Concordo com isto ,até porque fui fumante por muitos anos. Se me libertei do vício do cigarro, quem sabe, um dia ,deixo de ler jornais. Mas, por enquanto, ainda não inventaram um adesivo com notícias concentradas nem uma pílula que tire a vontade de folhear jornais.
Vejam só o esforço que um dependente de jornais faz para tentar entender a realidade. Nos meus tempos de “Correio da Manhã”, os jornais se diferenciavam pela linha editorial. As notícias eram narradas por um viés ideológico, por mais tênue que fosse. As notícias eram diferentes, segundo o jornal onde eram lidas. E você procurava o jornal mais próximo da sua formação ideológica. Durante a ditadura, fui um leitor de um jornal do Brasil, até porque o planeta diário, de uma globalização em gestação, era mais alinhado aos ditadores de plantão. Resisti até que o meu jornal perdeu o conteúdo e o tamanho. Foi muito duro substituir o vício (agora é que descubro que ali eu poderia ter me livrado dele definitivamente). Pois bem, para entender a realidade por um jornal que pensa diferente de você, um exercício muito grande tem de ser feito para que a notícia, contada de um jeito, possa ser entendida mais perto da verdade. Num tempo, até comecei a ler um jornal de outro Estado, mas aí descobri uma triste realidade. Todos os jornais estão iguais. É a mesma droga que é distribuída nas bancas. Para que os viciados pensem do mesmo jeito. Comecei a odiar o “Correio da Manhã” que era uma droga leve, mas me levou às drogas pesadas de agora…
Continuo lendo jornais, mas hoje já tenho consciência do meu problema. É o primeiro passo para enfrentar a dependência, dizem. Portanto, deixando as notícias atuais, que cada vez mais demandam um esforço interpretativo para chegar próximo à realidade, priorizo agora as notícias leves das páginas de cultura e “cientificas”. Certo, camaradas, abobrinhas e informações inúteis. Os mais velhos sabem o que são notícias tipo “você sabia?” da Rádio Relógio. Vou enrolando os jornais para manter o vício menos nocivo.
E vejam o que descobri hoje: na Síria, próximo à fronteira com o Iraque, entre o Tigre e o Eufrates, arqueólogos descobriram vestígios de uma cidade muito antiga. E as inscrições arqueológicas revelam, ao contrário do que a Ciência nos informava, que as cidades podem ter surgido a partir de meras aglomerações de povoados e não de um poder centralizador de um imperador, como se acreditava até agora. Eu não sei se vocês compartilham do meu contentamento, mas ser informado de que as cidades apareceram na história como uma livre associação de vizinhos e não pela vontade soberana de um imperador me deixa muito mais contente com meus ancestrais. E ancestrais bíblicos da Mesopotâmia, entre os rios que formaram o jardim do Éden, lá mesmo aonde o imperador Bush e a civilização vêm destruindo as primeiras cidades que apareceram na face da terra…
Tentarei esquecer a parte do Bush e da guerra de hoje para me concentrar nas abobrinhas, enquanto durar esta estranha dependência. Mas ninguém está livre de uma recaída.
Edmar Oliveira