Archive for outubro, 2007

DE VÍCIOS, JORNAIS E ABOBRINHAS

Sei que os mais novos não lembram dos jornais da antiga, mas, desde os tempos do “Correio da Manhã” que cultivo o estranho vício de ler jornais todo dia, dia após dia. A notícia televisiva ou a radiofônica nunca substituíram, em mim, a dependência da palavra escrita nos jornais. Se eu não decifrar os acontecimentos nas páginas dos jornais, parece que eles não aconteceram. Quando volto de férias, período em que geralmente substituo a leitura de jornais por outras palavras muito mais interessantes, descubro que fico “por fora” nas conversas da vida diária.

Tenho um amigo que não lê mais jornais e diz que a vida fica mais interessante e ele entende mais a realidade sem os jornais. E é verdade. Quando vou discutir com ele, a razão, sobre qualquer assunto, fica sempre do seu lado. Ele realmente entende a realidade melhor do que eu. Mas sem querer admitir que sou menos inteligente, tendo a culpar meu vício. Afinal, dizem que o vício causa uma dependência bem maior que a nossa vontade. Concordo com isto ,até porque fui fumante por muitos anos. Se me libertei do vício do cigarro, quem sabe, um dia ,deixo de ler jornais. Mas, por enquanto, ainda não inventaram um adesivo com notícias concentradas nem uma pílula que tire a vontade de folhear jornais.

Vejam só o esforço que um dependente de jornais faz para tentar entender a realidade. Nos meus tempos de “Correio da Manhã”, os jornais se diferenciavam pela linha editorial. As notícias eram narradas por um viés ideológico, por mais tênue que fosse. As notícias eram diferentes, segundo o jornal onde eram lidas. E você procurava o jornal mais próximo da sua formação ideológica. Durante a ditadura, fui um leitor de um jornal do Brasil, até porque o planeta diário, de uma globalização em gestação, era mais alinhado aos ditadores de plantão. Resisti até que o meu jornal perdeu o conteúdo e o tamanho. Foi muito duro substituir o vício (agora é que descubro que ali eu poderia ter me livrado dele definitivamente). Pois bem, para entender a realidade por um jornal que pensa diferente de você, um exercício muito grande tem de ser feito para que a notícia, contada de um jeito, possa ser entendida mais perto da verdade. Num tempo, até comecei a ler um jornal de outro Estado, mas aí descobri uma triste realidade. Todos os jornais estão iguais. É a mesma droga que é distribuída nas bancas. Para que os viciados pensem do mesmo jeito. Comecei a odiar o “Correio da Manhã” que era uma droga leve, mas me levou às drogas pesadas de agora…

Continuo lendo jornais, mas hoje já tenho consciência do meu problema. É o primeiro passo para enfrentar a dependência, dizem. Portanto, deixando as notícias atuais, que cada vez mais demandam um esforço interpretativo para chegar próximo à realidade, priorizo agora as notícias leves das páginas de cultura e “cientificas”. Certo, camaradas, abobrinhas e informações inúteis. Os mais velhos sabem o que são notícias tipo “você sabia?” da Rádio Relógio. Vou enrolando os jornais para manter o vício menos nocivo.

E vejam o que descobri hoje: na Síria, próximo à fronteira com o Iraque, entre o Tigre e o Eufrates, arqueólogos descobriram vestígios de uma cidade muito antiga. E as inscrições arqueológicas revelam, ao contrário do que a Ciência nos informava, que as cidades podem ter surgido a partir de meras aglomerações de povoados e não de um poder centralizador de um imperador, como se acreditava até agora. Eu não sei se vocês compartilham do meu contentamento, mas ser informado de que as cidades apareceram na história como uma livre associação de vizinhos e não pela vontade soberana de um imperador me deixa muito mais contente com meus ancestrais. E ancestrais bíblicos da Mesopotâmia, entre os rios que formaram o jardim do Éden, lá mesmo aonde o imperador Bush e a civilização vêm destruindo as primeiras cidades que apareceram na face da terra…

Tentarei esquecer a parte do Bush e da guerra de hoje para me concentrar nas abobrinhas, enquanto durar esta estranha dependência. Mas ninguém está livre de uma recaída.

Edmar Oliveira

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QUASE CAINDO EM TENTAÇÃO

Tenho afirmado, com alguma freqüência, que me considero imune ao pecado da inveja. Invejar é reconhecer-se miúdo; é confessar-se inferior, já que ninguém inveja quem está um degrau abaixo. Trata-se evidentemente de complexo de inferioridade dissimulado. É uma enfermidade que provoca distúrbios sérios no paciente. Pois bem, há poucos dias, tive de fazer finca-pé para não permitir que a nódoa da inveja me conspurcasse a alma. Explico: atendendo a convite da jornalista Tânia Martins – a mignon que incomoda os que têm o dever legal de cuidar do meio ambiente no Piauí e não o fazem – fui ao Maranhão ver a 1º Feira do Livro de São Luís (1ª FELIS), que se realizou entre os dias 18 e 27 de outubro. A Tânia foi uma das conferencistas. Das feiras que já vi, a de São Luís é a mais bonita. Instalada na bela Praça Maria Aragão, a simples decoração do espaço já era um espetáculo digno de ser visto. Até os banheiros foram decorados com motivos – azulejos – que fazem de São Luís patrimônio cultural da humanidade. O slogan não poderia ser mais adequado: “Venha mirar o mundo”.

Mas uma feira de livros não se faz apenas com a beleza do espaço; os organizadores do evento tinham consciência disso. A programação contemplou os mais diversos temas: da ecologia à cultura popular, passando, naturalmente, pela literatura, filosofia, política, etc. A feira levou a São Luís um punhado de editoras do eixo Rio/S.Paulo e contou com a presença de grandes nomes da cultura brasileira. Circularam por lá, entre outros: Thiago de Mello, Affonso Romano de Sant’anna, Nélida Piñon, Ignácio de Loyola Brandão, Ana Miranda, Moacyr Scliar e Ariano Suassuna, para falar apenas dos mais conhecidos. Nem mesmo a ausência do poeta Ferreira Gullar, o autor maranhense de maior prestígio no momento, empanou o brilho da festa. Sob a batuta segura de Lúcia Nascimento e sua equipe, tudo funcionou com a precisão de um relógio suíço.

Exposições, debates, oficinas, cursos, palestras e gente, muita gente: escritores, jornalista, professores, estudantes, gente de todas as idades e estratos sociais. Nesse particular, a bela Feira de São Luís lembra o nosso modesto SALIPI. Os organizadores do evento tiveram o cuidado de não excluir os autores locais: em cada palestra, pelo menos um escritor maranhense teve acento à mesa como coordenador ou mediador de debates. O patrono da festa – homenagem mais do que justa – foi o romancista Josué Montelo, morto no ano passado. Uma festa bonita, civilizada, luminosa. Com a desenvoltura que se espera de um político esperto, o prefeito de São Luís – Tadeu Palácio – circulou pela Feira, abraçando escritores, cumprimentando populares, distribuindo autógrafos. Estava no direito dele: afinal de contas, a Feira do Livro de São Luís foi praticamente bancada pela Prefeitura da cidade.

Ao ver tudo funcionando adequadamente, pressenti (por que não confessar?) o espectro da inveja rondando-me o espírito. Em boa hora, ouvi de um jornalista, que cobria o evento, a afirmação, extra-oficial, de que a feira custara ao município algo em torno de um milhão de reais. Alguém que o acompanhava afirmou: “Trata-se de um valor pequeno para as dimensões da festa”. Concordo plenamente: a 1ª FELIS valeu cada centavo investido nela. Livre da inveja, não pude, contudo, escapar de um outro pecado: a vaidade. Pensei comigo: bons somos nós que já realizamos cinco edições do SALIPI com muito menos do que os maranhenses gastaram para fazer o primeiro. Criancice, bobagem… Sem inveja e sem vaidade, desejamos longa vida à Feira do Livro de São Luís. Feliz FELIS!

Cineas Santos

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FESTA HOMENAGEIA BIBLIOTECA E POETA IMORTAL

Uma festa com bolo, guaraná e Parabéns pra Você ao som da banda 16 de Agosto. Foi assim a comemoração do aniversário de cinco anos da Biblioteca H. Dobal, que leva o nome um dos maiores poetas piauienses, que também está de aniversário. A festa aconteceu na manhã desta quarta-feira, dia 20, na Biblioteca, localizada no Bairro Satélite, e contou com a ilustre presença de Hidemburgo Dobal e ainda de estudantes, representantes de outras bibliotecas municipais e funcionários da Fundação Cultural Monsenhor Chaves.

A abertura da solenidade foi feita pela responsável pela biblioteca, Solange Maria da Costa, que ressaltou a importância do local para a comunidade na construção do conhecimento, principalmente para os estudantes, realçando ainda o orgulho de carregar o nome do poeta H. Dobal. Em seguida, foram recitadas duas poesias do homenageado por freqüentadoras da biblioteca.

Para o presidente da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, professor José Reis Pereira, apesar da pouca idade da biblioteca H. Dobal, já estão sendo colhidos bons frutos com os estudantes. Prova disso são as crescentes aprovações dos freqüentadores em vestibulares. “Se o poeta, através de seus escritos, contribuiu com um enorme trabalho para o Piauí, essa biblioteca também está dando a sua contribuição para os jovens”, frisa.

Um dos convidados do evento foi o presidente do Conselho Estadual de Cultura e membro da Academia Piauiense de Letras, Manoel Paulo Nunes, que destacou a importância do poeta para a literatura no país, presenteando ainda os freqüentadores da biblioteca com parte do seu acervo pessoal. “Será uma contribuição minha para compartilhar e ampliar o conhecimento das pessoas”, comentou o escritor durante seu discurso.

Apesar das mãos trêmulas, durante toda a solenidade, o poeta H. Dobal não escondia o sorriso diante das homenagens, com direito a apagar de vela, corte de bolo e muita música. Mas para os que esperavam alguma fala do poeta, que tanto contribuiu para literatura com inúmeros escritos, tiveram que se contentar com o silêncio de um homem na fragilidade dos seus 80 anos.

A biblioteca foi inaugurada em 2002 com o nome em homenagem ao grande poeta H. Dobal. Hoje possui um acervo de cerca de 5.192 exemplares e 1.688 periódicos. A Biblioteca contém todas as obras do poeta H. Dobal, inclusive o filme “O Homem Particular”. São 927 cadastros e a freqüência é de cerca de 700 estudantes por mês. Ela fica localizada na Rua Rotary Club, 3840, bairro satélite, zona Leste de Teresina e funciona de segunda a sexta-feira das 7h30 às 17h30h.

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