Archive for dezembro, 2007

GUIMARÃES ROSA (QUEM DIRIA!) ACABOU NO BIG BROTHER

Dia desses, na estréia de mais uma novela da Globo, o autor da obra-prima declarou-se “ estarrecido com o baixo nível intelectual do telespectador brasileiro ” . Até aí, nada de extraordinário. Até a Cristiane Oliveira já afirmou que a televisão “emburrece as pessoas ” . Dizem as estatísticas que o brasileiro médio passa até 7 horas diariamente diante da TV. Não há neurônio que resista. Mas isso já é outra história.

O problema é outro. Há uns dez anos, esse mesmo noveleiro“ estarrecido ” , afirmou, nas páginas amarelas da revista mais endireitada do Brasil, que “ o papel da televisão é propiciar entretenimento, lazer e alegria ao povo; educação e cultura são obrigações do Estado ” . A declaração do fazedor de novela demonstra que o ilustre cidadão não leu o artigo 221 da Constituição Federal, que afirma, entre outras coisas, ser função da TV valorizar a educação e a cultura e respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família. Por que não o faz? Pelo fato de os políticos brasileiros, sem exceção, se borrarem de medo da televisão. Em vez de exigirem que a TV cumpra o papel que lhe destina a Constituição, preferem criar televisões públicas onde empregam os apaniguados e se autopromovem sem o menor pudor. A TV brasileira está completando 58 aninhos de existência e, como bem afirma Fernando Barbosa Lima, nesse tempo, “ poderia ter alfabetizado o nosso povo, contado a nossa história, criado um sentimento de nacionalidade (…) Poderia ter criado uma consciência política para o nosso povo, poderia ter mantido vivo o nosso espírito regional e a nossa cultura local ” .

Poderia, o verbo no futuro do pretérito diz tudo. Em vez de“ consciência política”, o cardápio servido diariamente pela TV ao povo brasileiro varia do escatológico ao anestesiante, desaguando, naturalmente, no mercadológico. Na TV se vende tudo, principalmente alienação. Veja-se, por exemplo, o final“ eletrizante ” do BBB 8 ,que paralisou o país. Por sorte, a “sister do Piauí” não abocanhou um milhão de reais pelo “exaustivo trabalho” de se expor à curiosidade malsã de milhões de brasileiros. Antes que me amaldiçoem, explico: se Gyselle tivesse vencido a parada, todas as menininhas piauienses, notadamente as mais pobres, iriam vender a alma ao diabo para participar do próximo BBB. Com essa ducha fria, talvez algumas voltem a acreditar na educação, no trabalho e na decência como valores mais elevados.

Até hoje, ninguém definiu tão bem o Big Brother como a professora Bárbara Musumeci Soares. Diz a educadora: “O pior do programa não está no olhar de quem assiste ou na fragilidade de quem se expõe. Está no próprio espírito que o concebe. Está nos dispositivos que estimulam o que há de menor em nossa humanidade: o individualismo sem limites, a competitividade, o sadismo, a covardia, a paranóia, a deslealdade, a futilidade. Está nas regras do jogo que valoriza a desqualificação e a exclusão, conferindo um lugar quase clandestino à solidariedade, à identificação e à cooperação entre as pessoas . Perfeito.

Onde o mestre Guimarães entra nessa história? Perguntem ao galante Pedro Bial. Em entrevista concedida à revista Quem, o apresentador afirma que“ O Big Brother é tão cultura quanto Guimarães Rosa ” . Convenhamos que, no ano do seu centenário de nascimento, o mestre Rosa merecia um presente um pouquinho melhor. Fazer o quê? É tudo tão Brasil, que dói.

Cineas Santos

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CANSEI DA PHILIPS

Entre amigos que sofrem da mesma origem, falar mal é um assunto corriqueiro. A gente reclama de tudo: do governo à oposição. O Piauí, em particular, tem algo mais a nos matar de raiva, o calor inexorável. Alguns desistem e dizem que venderam a sua parte. Os mais radicais deram e não querem nem saber com quem ficou. Não aceitam devolução.
Quem insiste com o Piauí, desabafa que só gosta porque é o jeito. É, estamos unidos lá nas entranhas. Qualquer que seja o compromisso e a saudade. Por isso, cansei também da Philips. Ou Filips, aqueles rádios de ouvido piratas que vi e ouvi muito nas tardes de futebol no Lindolfo Monteiro e no Albertão. Cansei do presidente da multinacional, Paulo Zottolo, que cansou do Piauí só porque somos pobres, dependentes do Bolsa-Família para fazer a feira e comprar a pilha.

Como ele pôde, assim, sem mais nem menos, desprezar a gente, insinuando que não fazemos falta, se compramos, como qualquer brasileiro, os seus aparelhos eletrônicos? Tudo bem, reconheço: menos do que os paulistas deitados em berço esplêndido. Mas é um mercado, até motivado para crescer.
Paulo Zottolo integra o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, o Cansei (do Lula) da Ivete Sangalo, Ana Maria Braga, Hebe Camargo e da apavorada Regina Duarte. O Sr. Philips do Brasil teve a audácia – sem estar numa mesa de bar com nenhum piauiense descontente com o nosso destino – de falar pelo movimento criado pela OAB-SP e afirmar que ele serve para sacudir o “marasmo cívico” nacional.
O Piauí, na sua cabeça Avenida Paulista, é lugar descartável, “tanto faz quanto tanto fez” e que se “deixar de existir, ninguém vai ficar chateado.” Não é invenção, não. A declaração foi dada ao jornal Valor Econômico. Mereceu nota de repúdio do governador Wellington Dias (PT), que pediu que alguém em Brasília defendesse o Estado. Pois o faço. Eu iria ficar chateado se o Piauí desaparecesse. Além do que, se esse movimento deseja ser dos brasileiros, os piauienses deveriam ter alguma importância.

A não ser, desconfio, que eles também estejam cansados dos pobres que elegeram Lula (mas também elegeram Fernando Henrique Cardoso). Paulo Zottolo revelou a intimidade elitista do Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros. Os exemplos da nata estão acima. Cansada de quê? Do Piauí, puxa vida. Que mal nós fazemos senão a nós mesmos? Também fazemos bem. E um dia faremos melhor. Mas dos meus planos de piauiense, a Philips está fora. Tanto faz quanto tanto fez ela existir. Ninguém vai ficar chateado mesmo. Um Estado não se substitui, mas uma marca, sim.

Mauro Sampaio

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RELEITURAS

Sempre fui fascinado por mapas. A minha matéria predileta era Geografia, não por causa das “decorebas” de que afluentes estavam à margem direita do Amazonas, mas por poder voar por cima da floresta e localizar Letícia na fronteira das Américas. O mapa mundi de minha sala de aulas me permitia ir ao Nepal, ao Butão. Sair do frio do Himalaia para cair no calor da Nigéria, do Congo. Permitia a transformação do Dalai Lama em guerreiro Zulu. Me levava das terras do Príncipe Valente para as pradarias do velho oeste, desbravado por Buffalo Bill. E, por certo, contava que o sebastianismo de Antônio Conselheiro combatia os mouros que, travestidos de macacos do governo, mataram Lampião.

Eu viajava no meu Atlas Mundi da Melhoramentos tentando colar as folhas soltas para me aproximar da contigüidades dos continentes. E nas suas páginas misturava histórias em quadrinhos, filmes de cinemas, lendas e personagens dos livros de História. Apesar de já saber que a terra era redonda, quando visualizei o primeiro globo terrestre na escola, que girava em torno de um eixo, tive a mesma emoção de quando vi imagens no cinema, masquei chicletes de goma americana, provei o borbulhar incômodo dos refrigerantes, descobri que sabia nadar ou olhei, paralisado, o nu feminino como representação da sexualidade, ao vivo e em cores. Depois destas emoções, só muito depois, quando tremeram, diante dos meus olhos, as asas de um aeroplano da Real Aerovias Nacional. Depois disso, as mudanças tecnológicas foram em tamanha rapidez que não deu tempo de vivenciar as emoções das descobertas de outrora.

O Globo Terrestre exerceu em mim um fascínio tão intenso, que fiz meu pai comprar um pequenino, maior que uma laranja. Mas fiquei conformado, pois sabia que a terra se parecia com uma laranja. E nesta esfera descobria a cada dia que a terra não era tão grande assim. Acompanhei a viagem de Vasco da Gama para as Índias ou a travessia do Estreito de Magalhães por uma grande esquadra lusa que gira o mundo e retorna a Portugal com apenas duas caravelas.E sem o Magalhães, que morreu numa guerra equivocada com nativos de ilhas do Oriente. E ali também assisti a travessia do estreito de Bering pelos asiáticos que colonizaram as Américas e fizeram os nossos guaranis terem cara de indiano. Ou, visualizei a base americana posta em Natal para permitir que os aviões americanos chegassem à Europa.

No meu pequeno Globo Terrestre acompanhei o desenrolar da história da humanidade. Assim, sem sair de casa, imaginava o que aconteceu ou acontecia na terra.

Já agora, mexendo na Internet, o satélite me mostra a terra numa releitura do meu Globo Terrestre. Na tela do computador o satélite fotografa o globo, até deixar nítida a piscina da casa do meu irmão em Teresina. Entendi até porque o Buch metralha mulçumanos, nomeados terroristas, dentro de casa. E nesta releitura do meu Globo a terra fica muito miúda para os acontecimentos cada vez mais rápidos. E nem tem aonde a gente se esconder. A intimidade é devassada neste novo Globo de verdade. Mas, confesso que minha curiosidade de outrora me faz procurar com o satélite o que antes fazia com os dedos.

As lembranças do passado vieram enquanto fazia esta viagem ao Google Earth, ao mesmo tempo em que rememorava um recente retorno a Macondo, já fazendo quarenta anos da criação dos “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Márquez. Faziam vinte e tantos anos da minha primeira leitura e fui me surpreendendo com outros tantos fatos não percebidos antes, como acontece nas releituras. Mas algo me foi muito revelador. Não sei se vocês se lembram que o cigano Melquíades apresentava as maravilhas da ciência para o delírio de José Arcádio Buendía. Apresentando uma luneta, que aproximava uma cigana sentada na entrada da aldeia ao alcance do observador, maravilhava os curiosos de Macondo, que pagavam para ver a magia. Melquíades menospreza o feito na previsão cigana: *”Dentro em pouco o homem poderá ver tudo que acontece na terra, sem sair de sua casa”*. Pode ser que o Gabriel Garcia Márquez tivesse a televisão como referência quando publicou este texto em 1967. Mas acho que o cigano Melquíades revelou, ao último dos Aurelianos, através de seus pergaminhos: vai acontecer que um satélite na Internet, que nem o Gabriel Garcia Márquez sabia o que era, trará o mundo para dentro de nossa casa. É que a gente não tem controle sobre um personagem da literatura e acho, sinceramente, que Melquíades falava era de uma releitura do meu pequeno Globo Terrestre…

Edmar Oliveira

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A HISTÓRIA É UMA ESTÓRIA

Millôr, que ultimamente anda implicando com a obra de Machado de Assis, atribui ao “velho bruxo” uma frase genial: “A história é uma coisa que não aconteceu, contada por um sujeito que não estava lá”. Deve ser verdade. Por obrigação (o Santana não me deixa em paz), nos últimos meses, tenho lido quilos de história do Piauí – de Alencastre a Mons. Chaves, nada me escapa. Um tantinho desacorçoado, começo a desconfiar que talvez o Piauí não passe de invenção dos nossos historiadores. Mas isso será objeto de outra arenga.

Abro a Folha Ilustrada (30/06/07), e deparo com uma informação curiosa: “a historiadora Francisca Nogueira de Azevedo procura reabilitar a imagem princesa do Brasil ”. Não se trata, como pode parecer, da princesa Isabel, mas de Carlota Joaquina, mulher de D. João VI. Depois de exaustivas pesquisas em arquivos de meio mundo, a historiadora escreveu o livro “Carlota Joaquina – cartas inéditas”, com revelações que podem “retocar” a imagem conspurcada da rainha feiosa que, segundo afirmam, detestava o Brasil. Até aí, nada de extraordinário: não fosse esse vai-e-vem promovido por revisionistas e conservadores, a história ficaria ainda mais insossa.

Quando assisti ao festejado “Carlota Joaquina – a princesa do Brazil” , de Carla Camurati, achei o filme uma bela porcaria. A fita, que arrastava multidões às salas de cinema do país, me pareceu uma caricatura grotesca da corte portuguesa. D. João VI, interpretado por Marco Nanini, não passaria de um rei comilão, bobalhão, incapaz de entender o que se passava ao seu redor. Quanto à Carlota Joaquina, vivida por Marieta Severo, seria uma réplica de Messalina, devoradora de homens, cruel e ambiciosa. Questionada, Camurati afirmava não existir no filme “uma linha que não encontrasse respaldo nos livros de história do período joanino no Brasil”. É possível: Mel Gibson usou o mesmo argumento para justificar o seu sangrenta “A Paixão de Cristo”: “Está tudo nos Evangelhos”, garantia. É possível: há sempre um livro “abonando” qualquer coisa, das mais sublimes às mais abjetas. Para o jornalista Sylvio Colombo, “É fato que todos os membros da família real ganharam contornos folclóricos, por conta das historiografias tanto liberal como marxista, que viam no passado português as razões do atraso do Brasil. Exagerou-se na forma caricata de representá-los, para que, no imaginário coletivo, ficassem gravadas como o oposto daquilo que se achava que o país deveria ser após eliminar os traços que ainda o ancoravam no Antigo Regime, tornando-se uma República moderna e civilizada”.

Como não tenho veleidades de ser historiador, interessei-me por outro aspecto do livro de Francisca Nogueira: a linguagem usada pela princesa em suas cartas. A Folha publicou fragmentos de duas delas. Vejamos como a princesa se expressa neste bilhete ao marido: “Meu amorsinho do meu C. Dezejo.q.e estejao bom do ovido; eu graças a D. s tenho paçado hoje melhor graças a D.s porem com m.s saudades tuas tomara q.e fosse já noite, p.ª te ver, pareceme, q.e há cen annos q.e não te vejo. AD.s meu amorsinho do meu C.” Peraí! Essa não é linguagem que a moçada está empregando nas salas de bate-papo da internet? Pois que, no processo de reabilitação de Carlota Joaquina, seja ela contemplada com o título de patronesse dos jovens internautas brasileiros. Eu falei primeiro!

Cineas Santos

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COMPLEXO DO ALEMÃO

Pelas cinco horas do sábado, vindos da balada da sexta, onde não “pegaram” ninguém, como se diz no dialeto da galera, quatro jovens “bem nascidos” na Barra da Tijuca, saltam do carro em que vinham, em alta velocidade, trafegando no vazio da existência, e, num ponto de ônibus, enchem de porradas a quem julgaram uma prostituta. Aliás, arrisco dizer que eles tinham certeza que era uma prostituta. A empregada doméstica deles deveria estar, nesta hora, num ponto de ônibus da baixada fluminense, não perto da casa deles. E pra quem trafegava àquela hora, suponhamos na real, não terminou a noitada “numa legal”. Logo, a prostitua imaginada no ponto de ônibus, Freud explicaria na sua teoria sobre o estranhamento, podia ser a mãe, irmã, tia, ou qualquer parente na representação de cada um. O estranho como familiar na nossa vida. Não a doméstica que prepararia o café da manhã daquelas bestas.

Um palavrão bem grande, teria que grifar, seguido de uma exclamação, para afirmar que o filme “O Baixio das Bestas”, do Cláudio Assis, foi localizado na Barra da Tijuca. E quatro bestas infligiram um suplício, que se propunha cinematográfico, numa cidadã carioca, cansada de ser alvitrada no Complexo do Alemão. E atenção para o mais novo diagnóstico psicológico corrente na cidade: “Complexo do Alemão – cidadão carioca, residente em comunidade carente, traumatizado por balas perdidas, que se acha completamente desamparado e é violentado, ora pelos, supostamente, traficantes, ora pelos, supostamente, policiais”.

Diagnóstico que denuncia, em alguns territórios, a inexistência do Estado. Segundo Hobbes e Locke, o Estado se constitui para resolver a violência. Saúde, educação, direitos sociais, só muito mais tarde. Para o primeiro o “homem é lobo do homem” e o Estado aparece para organizar as matilhas. Para o segundo, a harmonia entre os homens pode ser perturbada pelos desviantes, daí o Estado mínimo. Hobbes prenuncia o absolutismo e o socialismo. Locke é o neoliberal recuperado.

Mas, voltemos a conceituação do diagnóstico proposto. Não é a vítima que pode ser diagnosticada, mas o algoz. A definição do nosso “Complexo do Alemão” estava equivocada. Tem mais a ver com a ética do que na vítima do conflito declarado. A sociedade pós-moderna sofre de uma epidemia do “Complexo do Alemão”. E ele pode descambar em porradas que mataram Guadino e Aracelli em Brasília. Desta feita temos que nos haver com uma empregada doméstica que, esperando um ônibus, é assaltada por uns complexados alemães que deviam ser julgados pelo tribunal de Nuremberg. E se estes alemães forem filhos da falta da ética que mora na Barra, no Lago Sul, nos Jardins?

Fico imaginando se tudo tem que recomeçar novamente. E que devamos deixar Keynes e Marx dormirem nas páginas de suas obras, para gritar pelo debate de Hobbes e Locke nesta atualidade da falta de um Estado. De direito. De esquerdo. O masculino. O feminino, aqui, é perigoso, como são todas as mulheres…

Edmar Oliveira

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ISCA PARA PESCA LEITORES

Na semana passada, fui procurado por um jovem universitário que, educadamente, me pediu uma entrevista. Se bem entendi, cursava jornalismo e, com os companheiros de curso, pretendia produzir e publicar um jornalzinho experimental. Armado de gravador e caderninho, o jovem iniciou a entrevista querendo saber se o piauiense lia e, mais especificamente, o que lia. Expliquei-lhe que, até onde sei, os piauienses não lêem mais nem menos do que os habitantes dos outros estados brasileiros, com exceção dos gaúchos que, segundo as estatísticas, estão um pouco acima da média nacional. Quanto ao que lêem, também não destoam muito do conjunto: livros de auto-ajuda, algum best-sller e até mesmo literatura de boa qualidade. Nada além.

Lá pelas tantas, o moço me fez uma pergunta desconcertante: – Se o piauiense lê tão pouco, como atestam as pesquisas, qual o sentido de se realizar um salão do livro no Piauí? A única resposta que me ocorreu foi justamente esta: é para mudar esse quadro. O principal objetivo do Salão do Livro do Piauí é tentar contribuir, de alguma forma, no processo de formação de leitores. Não por acaso, o SALIPI vem tentando atrair, cada vez mais, o público jovem, principalmente o jovem da periferia a quem se nega tudo que o “cheire” a cidadania. No Salão do ano passado, graças a uma parceria celebrada com o SETUT, levamos milhares de alunos da escola pública ao Salão do Livro, dando um colorido novo à festa. Este ano, pretendemos oferecer muito mais: além de espetáculos circenses, propiciaremos aos jovens visitantes oficinas de escultura em argila, pintura, desenho, mamulengo, literatura de cordel e o que mais pintar. Entre os conferencistas do 4º SALIPI, figura a professora Marisa Lajolo, da USP, para discorrer sobre o tema: Monteiro Lobato e a formação de leitores. É sabido que formar leitores é tarefa das mais difíceis, mas se não tentarmos, nunca os teremos.

Estamos envidando esforços para contratar o mamulengueiro Afonso Miguel, que tem pronto para ser encenado o espetáculo infantil: “Lili explica o mundo”. Para quem não se lembra, Lili é uma personagem curiosa, como qualquer criança saudável, criada por Mário Quintana. Como estaremos celebrando o centenário de nascimento do poeta gaúcho, nada mais oportuno do que propiciar às crianças uma viagem ao mundo mágico, lírico e poético de Quintana, o inventor da simplicidade. Se conseguirmos formar um único leitor entre os milhares de jovens que visitarão o Salão, já teremos cumprido o nosso papel. O mais é com Deus.

Cineas Santos

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NATAL: TRÊS NOTAS TRISTES

I

Devo ser um cavalo (naquela acepção umbandista do termo) tão ordinário que nem o espírito do Natal baixa em mim. Ainda assim, como qualquer “cristão civilizado”, recebo e retribuo mensagens natalinas. Uma irmãzinha querida me mandou um e-mail com fotografias translumbrantes da gigantesca árvore de Natal que resplandece nas águas poluídas da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. No final, uma pergunta-queixa: – Por que não fazemos algo grandioso e belo aqui também? Por falta de melhor resposta, arrisquei: a cidade tem muitas necessidades e os recursos devem ser escassos. Na verdade, eu deveria ter dito que árvores de Natal, por maiores e mais resplandecentes que sejam, não me fascinam. Bicho miúdo, eu já ficaria feliz se pudesse ver cada teresinense cuidando da árvore do seu quintal, pobres árvores que ainda resistem apesar das parasitas (erva-de-passarinho) que as ameaçam. Nenhuma árvore de Natal, nem mesmo a de Nova Iorque, possui a nobreza de uma mangueira copada ou a beleza de um caneleiro florido. Quanto às “arvorezinhas” de garrafas pet que “embelezam” as praças e avenidas de Teresina, apenas uma queixa: fincaram uma delas em cima de um ipê branco que, a duras penas, plantei no balão das avenidas Petrônio Portela com Raul Lopes. Literalmente, asfixiaram a arvorezinha com garrafas de plástico e lâmpadas coloridas, que lhe queimam as folhas. Fazer o quê? Queixar-me a quem? Infelizmente, sensibilidade ainda não é “mercadoria” que se encontre à venda nem mesmo no imenso bazar em que se transformou o Natal.

II

No ano passado, eu e a cantora Luíza Miranda assumimos o compromisso de lançar uma campanha, em 2007, pela iluminação da velha ponte metálica, mais conhecida como “a ponte dos pobres”. Foram tantas as labutas e atribulações que não cumprimos a promessa, e a ponte João Luís Ferreira, mais uma vez, em pleno Natal, permanece mergulhada no breu. Curiosamente, trata-se do “cartão-postal” oficial de Teresina e símbolo da administração do Dr. Sílvio Mendes. Por oportuno, vale lembrar que sua irmã gêmea, a ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, feericamente iluminada, é tratada como a “jóia preciosa” de Floripa. Por que a nossa permanece entregue à ferrugem? É simples: aquele sítio, o mais belo da cidade, tornou-se reduto de pobres, passagem de pobres, paisagem de pobres. Como hoje, no mundo, só existem consumidores e não consumidores, quem não consome não conta. Mais claro, impossível.

III

Enquanto os brasileiros entulham as residências com árvores de plástico recobertas com “neve” de algodão, a desembargadora federal Maria Selene de Almeida que, seguramente, não sabe onde fica o Piauí, concedeu liminar à JB Cabron para continuar o projeto “energia verde”(?) que reduzirá a carvão a cobertura vegetal da Serra Vermelha. Paradoxo à parte, esse crime ecológico traz as impressões digitais muitos políticos piauienses. Anote o nome deles em sua agenda e, no ano que se inicia, conceda-lhes merecidas férias. Assim seja.

Cineas Santos

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ASSIS BRASIL REENCONTRA O PIAUÍ

O ficcionista e ensaísta piauiense Assis Brasil, graças à obstinação da professora Franscigelda, fez as pazes com o Piauí. Autor de uma obra caudalosa, mais de cem livros, Assis distanciou-se do Piauí por causa da cegueira de alguns parnaibanos que se viram retratados na Tetralogia Piauiense. Alheio a tal visão obtusa, Assis continuou escrevendo, ganhando prêmio, fazendo o que sabe fazer: livros. O IV SALIPI (SALÃO DO LIVRO DO PIAUÍ – 2006) prestou-lhe justa e merecida homenagem. O autor de Beira Rio Beira Vida veio e foi aplaudido de pé. O carinho do público piauiense o contagiou. Voltou em 2007 e voltará em 2008 para lançar a 2º edição da Tetralogia, que será editada pela FUNDAPI.

No último final de semana (dia 15), Assis Brasil lançou, na Oficina da Palavra, o livro A CHAVE DO AMOR E OUTRAS HISTÓRIAS PIAUIENSES, 11 narrativas curtas, tendo como cenário a terra piauiense. Com maestria, Assis retoma os temas que deram origem à famosa Tetralogia. Com a presença de autoridades, intelectuais, professores e estudantes, o lançamento do último livro de Assis Brasil teve um sabor de confraternização. Confraternização é o que não tem faltado ao ficcionista piauiense: entre os dias 10 e 15 do corrente, Assis Brasil foi homenageado em Vila Nova do Piauí, uma homenagem que efetivamente o emocionou. Os alunos da rede pública de ensino do município leram sua obra, adaptaram-na para o teatro, fizeram leituras instigantes. Em boa hora, Assis Brasil reencontrou o barro que alimenta sua ficção.

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O PESO DAS HOMENAGENS

Quando a jovem repórter me perguntou como eu me sentia ao receber a medalha comemorativa dos 110 anos da Academia Brasileira de Letras, a única resposta que me ocorreu foi: – Como o burrico da fábula de Fontaine. A mocinha, pertencente a uma geração sem fábulas, não conhecia o texto. Para ser honesto, nem eu mesmo sei se a fábula a que fiz alusão pertence ao mestre francês. Na verdade, não creio que isso seja relevante: La Fontaine passou a ser “culpado” por todas as fábulas anônimas. Trata-se de uma historinha simples como convém a uma fábula que se preze.

Tentarei lembrar-me do enredo. Diz que, certa vez, incumbiram um burrico de transportar uma “imagem milagrosa” de uma comunidade a outra. Para o burrinho, era apenas uma carga a mais. No percurso, entretanto, o animal percebeu algo estranho: as pessoas faziam-lhe reverência e algumas até se persignavam diante dele. Mesmo não entendendo nada, o burrinho gostou. Tanto gostou que, depois de entregar a “ carga”, ego ( não seria égua?) inflado, voltou pelo mesmo caminho, certo de que faria melhor e colheita. Para sua surpresa, cobriram-no de bordoadas e impropérios. O pobre animal não entendeu nada. Mas quem é que pode entender os homens? Não me lembro a moral da fábula, o que também não tem importância: a pior parte das fábulas é sempre a moral.

A repórter insistiu em saber o que eu e o burrico da fábula tínhamos em comum. Com ardente paciência, expliquei-lhe: – Quase tudo, filha, exceto o fato de eu saber o que transporto. Ao longo da vida, como professor, editor e promotor de eventos culturais, eu sempre soube que o meu papel é o de transportar a mais nobre de todas as mercadorias: cultura, ou melhor, pequenas porções de cultura. Não passo efetivamente de um veículo a serviço da beleza produzida pelos outros. O que criei como autor não acrescenta um côvado ao patrimônio artístico da minha aldeia, mas ninguém pode negar que tenho me esforçado o bastante para difundir o que de melhor se produz entre nós. Assim sendo, a medalha que a ABL me concedeu , por iniciativa do meu irmão de cor e credo, Domício Proença Filho, deve ser entendida como um gesto de reconhecimento ao meu trabalho como divulgador da cultura piauiense.

Em Teresina, até as pedras sabem que não existe ninguém mais provinciano do que eu. O meu universo é o Piauí e sua gente. O meu limite são as barrancas do rio Parnaíba. Em Timon, já me sinto um tantinho no estrangeiro. Quando o que faço aqui alcança alguma repercussão lá fora, sinto-me profundamente gratificado, mas o meu foco continua sendo a minha aldeia. Faço questão, portanto, de compartilhar com os meus irmãos piauienses a singela homenagem que a ABL me presta. Não se trata de um prêmio a alguém que tenha construído algo significativo; trata-se, talvez, de um estímulo a quem não mede esforços para dar maior visibilidade à face luminosa dessa gente simples, honesta e trabalhadora. Nada além.

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ABL HOMENAGEIA CINEAS SANTOS

Por proposição do acadêmico Domício Proença Filho, a Academia Brasileira de Letras concedeu a medalha comemorativa dos 110 da Casa de Machado de Assis ao professor e editor Cineas Santos, pelos relevantes serviços prestados à cultura brasileira. Ao receber a honraria, Cineas Santos afirmou: “É gratificante saber que o meu trabalho, voltado para a minha aldeia, encontra alguma ressonância numa instituição do porte da ABL. Atribuo essa honraria à generosidade de amigos do quilate de Domício Proença Filho, Alberto da Costa e Silva, Ivan Junqueira, Evanildo Bechara, Antônio Carlos Secchin e outros tantos, que conhecem o meu trabalho no Piauí”.

Nascido no sertão do Caracol (PI), Cineas Santos reside em Teresina desde maio de 65. Professor, há mais de 35 anos, Cineas é um dos principais divulgadores da cultura piauiense. Como editor, publicou todos os autores piauienses de expressão, de Da Costa e Silva a Mário Faustino. Autor de meia dúzia de livros, Cineas Santos não se considera escritor. Costuma afirmar que não passa de “um camelô da boa literatura produzida pelos outros”. Além de dirigir a Fundação Quixote, responsável pela realização do SALIPI, também preside a Fundação de Apoio Cultural do Piauí (FUNDAPI), responsável pela edição de obras de caráter histórico. Ao lado do prof. Raimundo Nonato Monteiro de Santana, lançou, recentemente, a coleção Pesquisas Históricas para a História do Piauí, de Odilon Nunes e a Coleção Independência, composta de 5 volumes, tendo como tema as lutas pela independência do Brasil em solo piauiense.

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