
Dia desses, na estréia de mais uma novela da Globo, o autor da obra-prima declarou-se “ estarrecido com o baixo nível intelectual do telespectador brasileiro ” . Até aí, nada de extraordinário. Até a Cristiane Oliveira já afirmou que a televisão “emburrece as pessoas ” . Dizem as estatísticas que o brasileiro médio passa até 7 horas diariamente diante da TV. Não há neurônio que resista. Mas isso já é outra história.
O problema é outro. Há uns dez anos, esse mesmo noveleiro“ estarrecido ” , afirmou, nas páginas amarelas da revista mais endireitada do Brasil, que “ o papel da televisão é propiciar entretenimento, lazer e alegria ao povo; educação e cultura são obrigações do Estado ” . A declaração do fazedor de novela demonstra que o ilustre cidadão não leu o artigo 221 da Constituição Federal, que afirma, entre outras coisas, ser função da TV valorizar a educação e a cultura e respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família. Por que não o faz? Pelo fato de os políticos brasileiros, sem exceção, se borrarem de medo da televisão. Em vez de exigirem que a TV cumpra o papel que lhe destina a Constituição, preferem criar televisões públicas onde empregam os apaniguados e se autopromovem sem o menor pudor. A TV brasileira está completando 58 aninhos de existência e, como bem afirma Fernando Barbosa Lima, nesse tempo, “ poderia ter alfabetizado o nosso povo, contado a nossa história, criado um sentimento de nacionalidade (…) Poderia ter criado uma consciência política para o nosso povo, poderia ter mantido vivo o nosso espírito regional e a nossa cultura local ” .
Poderia, o verbo no futuro do pretérito diz tudo. Em vez de“ consciência política”, o cardápio servido diariamente pela TV ao povo brasileiro varia do escatológico ao anestesiante, desaguando, naturalmente, no mercadológico. Na TV se vende tudo, principalmente alienação. Veja-se, por exemplo, o final“ eletrizante ” do BBB 8 ,que paralisou o país. Por sorte, a “sister do Piauí” não abocanhou um milhão de reais pelo “exaustivo trabalho” de se expor à curiosidade malsã de milhões de brasileiros. Antes que me amaldiçoem, explico: se Gyselle tivesse vencido a parada, todas as menininhas piauienses, notadamente as mais pobres, iriam vender a alma ao diabo para participar do próximo BBB. Com essa ducha fria, talvez algumas voltem a acreditar na educação, no trabalho e na decência como valores mais elevados.
Até hoje, ninguém definiu tão bem o Big Brother como a professora Bárbara Musumeci Soares. Diz a educadora: “O pior do programa não está no olhar de quem assiste ou na fragilidade de quem se expõe. Está no próprio espírito que o concebe. Está nos dispositivos que estimulam o que há de menor em nossa humanidade: o individualismo sem limites, a competitividade, o sadismo, a covardia, a paranóia, a deslealdade, a futilidade. Está nas regras do jogo que valoriza a desqualificação e a exclusão, conferindo um lugar quase clandestino à solidariedade, à identificação e à cooperação entre as pessoas . Perfeito.
Onde o mestre Guimarães entra nessa história? Perguntem ao galante Pedro Bial. Em entrevista concedida à revista Quem, o apresentador afirma que“ O Big Brother é tão cultura quanto Guimarães Rosa ” . Convenhamos que, no ano do seu centenário de nascimento, o mestre Rosa merecia um presente um pouquinho melhor. Fazer o quê? É tudo tão Brasil, que dói.
Cineas Santos
