Archive for março, 2008

6º SALIPI

No próximo dia 17, a partir das 20, no espaço Citronelli, será lançada, oficialmente, a 6ª edição da Salão do Livro do Piauí, evento que se realizará entre os dias 1º e 7 de junho do ano em curso, no Centro de Convenções de Teresina. Este ano, o SALIPI terá como homenageado principal o poeta Amarantino Antônio Francisco Da Costa e Silva, o mais festejado dos poetas piauienses. Entre os convidados que já confirmaram presença, figuram: Zuenir Ventura, Evanildo Bechara, Thiago de Mello, Geraldo Carneiro, Sérgio Natureza, Alberto da Costa e Silva, Salgado Maranhão, Frei Beto, Paulo José Cunha, Assis Brasil,entre outros.

Na relação de convidados, figuram alguns autores estrangeiros cujas presenças ainda não se confirmaram. O angolano José Eduardo Agualuasa é um deles. Com uma programação ampla e variada, o SALIPI pretende valorizar cada vez a presença do público jovem, notadamente os alunos da rede pública de ensino. Outra preocupação do SALIPI são os professores, para os quais os organizadores do evento oferecerão uma programação especial. Este ano, além do Língua Viva, que chega à sua 11ª edição, teremos cursos e oficinas em espaço específico.

O SALIPI homenageará também Machado de Assis, cujo centenário de morte será lembrado com palestras e expoções. João Guimarães Rosa, no seu centenário de nascimento, também será homenageado.

Na festa de lançamento do SALIPI, serão homenageadas várias personalidades da cultura piauiense, entre eles: M. Paulo Nunes, R.N.Monteiro de Santana, Carlos Evandro Martins Eulálio, Graça Targino, entre outros.

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V FENAVIPI

A repercussão do sucesso do Festival Nacional de Violão do Piauí já chegou ao oriente. Na próxima edição do festival, a grande atração será a violonista chinesa Xuefei Yang, considerada uma das maiores violonistas do mundo. Radicada em Londres, faz concertos em todo o mundo com enorme sucesso. Será a primeira vez que a violonista se apresenta no Brasil, a exemplo do que ocorreu com a croata Ana Vidovic.

Veja o link: http://www.xuefeiyang.com/calendar.html

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ECOS DO FENAVIPI

Acompanhe matéria veiculada no periódico MARÉ CHEIA publicado nos Estados Unidos voltado para a comunidade açoriana naquele país:

Guitarrista clássico terceirence Victor Castro ganha Prémio

O guitarrista clássico açoriano Victor Castro conquistou no último domingo (24/02) o prêmio “Raphael Rabelo”, segundo lugar do Concurso Nacional de Interpretação Violonística, realizado pelo IV Festival Nacional de Violão do Piauí (FENAVIPI), em Teresina, capital daquele Estado brasileiro, de 21 a 24 de fevereiro. Victor Castro, que tem dois CDs editados com o apoio da Direcção Regional da Cultura, está radicado há um ano no Brasil, onde é professor na Escola de Música do Maranhão.

O guitarrista, natural da ilha Terceira, foi aplaudido por grandes nomes do violão clássico presentes, como a croata Ana Vidovic, destaque mundial da guitarra, e o brasileiro Fábio Zanon, ambos jurados do concurso que esteve aberto a concorrentes de todas as nacionalidades.

Disputando com dezenas de candidatos na seleção inicial, Victor Castro foi selecionado para a semifinal do concurso.

Nesta prova, concorreu com outros 11 guitarristas:

Breno Inglis Favacho (Belém), Edgar Gomes Marques Junior (Salvador), Heder Dias J. de Vasconcelos (João Pessoa), Lucas Pimental Telles (Belo Horizonte), Luiz Francisco Foschi Pereira (Ilha Solteira), Marcos Flávio (Pouso Alegre), Misael de Araújo Carvalho Júnior (Belém), Odília Raquel Santana (Fortaleza), Renan Colombo Simões (Vila Velha) e Thiago Fernando Bandeira de Lima (João Pessoa).

O primeiro lugar foi para o mineiro Marcos Flávio, que recebeu o prêmio “Turíbio Santos”. E o terceiro, para o paulista Luiz Francisco Foschi, que ficou com o prêmio “Baden Powell”.

O recital de abertura do 4º FENAVIPI foi da guitarrista croata Ana Vidovic, que encantou o público presente no Teatro 4 de Setembro, em Teresina. O evento contou também com a participação de alguns dos maiores nomes da guitarra clássica da actualidade no Brasil, como Fabio Zanon,

Erisvaldo Borges, Gilson Antunes, Henrique Pinto, João Carlos Victor, Ney Conceição, Nonato Luiz e Sebastião Tapajós.

Clique aqui para abrir o arquivo em PDF.

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DAS VEZES EM QUE SALVEI A CRISTO

No final do milênio passado, convidaram-me para ministrar um curso numa cidadezinha perdida no sertão do Piauí. Terra pobre, gente simples, mas extremamente hospitaleira. Não sei se por carência de um hotel decente ou por excesso de generosidade, hospedaram-me na Casa Paroquial, deferência só concedida aos “do andar de cima”. O padre era um típico pároco do sertão: rotundo, comilão, bonachão, ostentando na carantonha bovina o resignado ar dos mansos. Tinha alguma sensibilidade cultural e gostava dos temas ligados ao folclore. À noite, depois do jantar, digo, depois da ceia digna de um bispo em desobriga, fomos para a biblioteca prosear um pouco. Falamos de Leonardo Motta, Câmara Cascudo, Fontes Ibiapina. Conversa de compadres velhos.

Talvez pelos excessos da ceia, dormi mal e acordei cedo. Levantei-me e fui vistoriar o quintal da Casa Paroquial. Entre as fruteiras, havia um autêntico umbuzeiro do sertão: atarracado, tortuoso, com galharia impenetrável. Lembrei-me daquela descrição antológica de Euclides da Cunha. Naquele umbuzeiro empoleiravam-se as galinhas para dormir. De repente, me dei conta de algo insólito no chão: era a imagem de um Cristo crucificado, ou melhor, o que restara dela. Na verdade, faltavam-lhe as duas pernas, um dos braços e a mão direita. Não bastassem tantas mutilações, a imagem estava recoberta de titica de galinha. Experimentei uma sensação estranha, misto de piedade e indignação. Eu sabia que era apenas uma imagem de gesso, dessas que se compram a preço de banana em fim de feira. Mas aquela imagem, com certeza, fora benta. Diante dela, centenas de fiéis persignaram-se, desnudaram-se, confessaram-se arrependidos de suas culpas e, naturalmente, imploraram pela salvação de suas almas. Era, portanto, uma imagem impregnada do que há de mais humano em nós. Transumana, se me permitem o termo. Agachei-me e, com alguma dificuldade, consegui resgatá-la. Enrolei-a num jornal velho e levei-a para os meus aposentos. Na hora do café, pedi ao velho pároco que me desse aquele Jesus mutilado. Ele me olhou com uma pontinha de desconfiança e perguntou: – Pra que você quer isso? Expliquei-lhe que sou vidrado em coisas antigas e que pretendia restaurá-la. O padre, que não era nada bobo, propôs o seguinte: – Deixa isso aí e te dou uma novinha, trazida de Roma, benta por Sua Santidade. Declinei da oferta e, para comover o vigário, recitei o belo poema “Gesso”, de Manuel Bandeira, que termina assim: “Hoje esse gessozinho comercial/É tocante e vive, e me faz refletir/ Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu”. O padre acabou aquiescendo, e o Cristo mutilado e obrado veio comigo. Guardei-o em casa. Com o tempo, esqueci-me da sua existência. Como qualquer cristão relapso, só me lembro de Cristo nos momentos de agrura.

No domingo passado, mandei limpar o quarto das inutilidades e eis que a imagem de Cristo, recoberta de poeira e pátina, veio à tona. A cidadã que limpava os trastes me perguntou: – Posso jogar isso no lixo? Antes de dizer não, perguntei-lhe: – Por quê? Sem rodeios, respondeu-me: – Isso me incomoda. Foi aí que me dei conta de que Cristo, mesmo reduzido a escombros, continua incomodando, ou seja, continua vivo. Resolvi guardá-lo num sarcófago improvisado. Como sou um pecador inconverso, mas honesto, confesso que não agi desinteressadamente. O raciocínio é simples: por duas vezes, em menos de dez anos, salvei aquele Cristo do lixo. Se Ele é, como rezam as Escrituras, todo compaixão e amor, há de me salvar pelo menos uma veizinha. Espero e confio.

Cineas Santos

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DAS COISAS QUE JAMAIS FAREI

Fumar. Decididamente, nessa altura do campeonato, já não me resta tempo para adquirir vícios novos. Ademais, os vícios sempre têm custo elevado. Na velhice, o poeta João Cabral de Melo Neto resolveu aprender a fumar. Pretexto: queixava-se de “sentir frio por dentro”. O cigarro propiciava-lhe a sensação de aquecimento. Quando lhe disseram que fumar faz mal à saúde, o poeta retrucou: “Nessa altura da vida, já não tenho medo de câncer nem de nada”. Morreu pouco tempo depois. Um poeta da estatura do João Cabral podia fazer qualquer coisa, inclusive tolices. Não é meu caso.

Na meninice, em companhia de outros moleques do meu tope, andei fumando canudinho de bambural, palha de milho seca (ardia de queimar a língua), folha de marmeleiro e coisas menos nobres. Um dia, aproveitei um descuido do irmão mais velho e garfei-lhe dois cigarros Continental. Fumei os dois de uma tacada. Fiquei completamente grogue, com a sensação de que iria desmaiar. Muito mais tarde, já no ginásio, firmei um pacto com a patota: só poderia permanecer na cobroeira quem portasse um carteira de Hollywood sem filtro. D. Purcina, que a tudo assistira sem dizer nada, fez apenas uma advertência: “Fumar pode; se pedir cigarro, apanha”. Mais claro, impossível.

Bons tempos aqueles em que fumar não fazia mal à saúde. Entenda-se: morria-se muito antes de os efeitos nocivos do cigarro se manifestarem no organismo. Quem poderia imaginar que o cigarro fosse capaz de provocar impotência? À época, fumar era sinônimo de virilidade. Havia todo um ritual em torno do ato de fumar: o jeito de segurar o cigarro, a intensidade da tragada, os canudinhos de fumaça que saíam pelas narinas… Conheci um cara que enchia a boca de fumaça e, com incrível habilidade, produzia espiral no ar. Graças àquela “mágica”, traçava as menininhas mais cobiçadas. Nos filmes, podia-se distinguir o herói do vilão pelo jeito de acender o cigarro. Mais tarde, a TV, em comerciais bem bolados, encarregar-se-ia de associar o cigarro à prática de esportes radicais. Cenários maravilhosos, músicas envolventes, garotões sarados e garotas apetitosas… Sem querer ofender as mulheres (por quem “vivo, padeço e morro”), nunca se inventou embalagem mais adequada para qualquer produto – de pneu de caminhão a cerveja ordinária – do que mulher bonita. Isso é que é versatilidade; o mais é arenga.

Mas todo esse chove-não-molha é apenas pretexto para contar um sucedido desimportante. Na semana passada, no olho do furacão, à beira de um ataque de nervos, eu implorava ao Criador uma boa morte. Estava tudo tão embaçado que eu não enxergava a saída. De repente, ao passar pela Praça do Marquês, vi uma cena de contagiante beleza. Uma jovem negra, serena como o anoitecer na primavera, fumava sossegadamente, sentada num banco rústico. Indiferente ao rugir da vida, a moça fumava como se no universo nada mais importasse. Olhava para um ponto qualquer no azul intenso e fumava. Tive (por que não confessar?) a compulsão de parar o carro, sentar-me ao lado dela e pedir-lhe uma tragada, uma tragadinha apenas, um “descanso na loucura”. Infelizmente, não tive tempo de fazê-lo. Uma buzina histérica, aguda, impiedosa despertou-me do êxtase, como se quisesse dizer-me que, em nosso país, existe algo mais letal que o cigarro: o trânsito.

Cineas Santos

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