
Na semana passada, a Globo levou ao ar uma série de reportagens sobre experiências pedagógicas bem-sucedidas em regiões periféricas e pobres do país. Numa cidadezinha do Maranhão, por exemplo, uma professora utiliza um jegue, com dois jacás, para transportar uma minibiblioteca itinerante. Onde pára o jegue, a molecada faz a festa. No interior do Pará, uma escola utiliza o carimbó, dança típica da região, para elevar a auto-estima dos alunos e evitar a evasão escolar. Num lugarejo qualquer do Rio Grande do Sul, as crianças estudam e fazem poesia em sala de aula. Se bem entendi, o principal objetivo da série é demonstrar que o maior problema da escola não é a carência de recursos materiais e sim a falta de motivação de professores e alunos. Até aí, nada de extraordinário. Até o presidente Lula sabe disso.
Numa reportagem desse naipe, não poderia faltar o Piauí. E, efetivamente, lá estivemos nós, fazendo o papel que sempre nos reservam no filme: o de bandidos. Em lugar de algo criativo, edificante, positivo, a Globo mostrou a carta de uma criança impedida de ir à escola pelos próprios pais. Era um pedido de socorro de uma criança desesperada. É certo que não se pode acusar a Globo de ter inventado a matéria: o problema efetivamente existiu, o crime cometido pelos pais deve ser denunciado e as autoridades competentes têm de tomar as providências cabíveis. Tudo conforme. A questão é outra: a série de reportagens tinha como objetivo mostrar experiências pedagógicas bem-sucedidas, e não os crimes que se praticam contra a infância. É cabível, portanto, a pergunta: não existem, no Piauí, experiências pedagógicas dignas de serem mostradas no horário nobre? Com a autoridade de quem, no ano passado, percorreu 90% das escolas públicas de Teresina, posso assegurar-vos que sim. Citarei apenas três exemplos: na Casa Meio Note, num dos bairros mais pobres de Teresina, as crianças estudam em tempo integral, dançam, cantam, brincam, lêem, escrevem poemas e vão um pouco além: publicam os livros que escrevem. No Parque Dalmar Macha, na escola Leandro Tito, encontrei crianças estudando ginástica rítmica na hora do recreio, sob a orientação de uma coreógrafa voluntária No colégio Florestan Fernandes, no conjunto Deus Quer, existe um projeto denominado “Vaga-lumes do saber”, extraordinário sob todos os aspectos: as crianças que estudam pela manhã voltam ao colégio à noite levando os pais para serem alfabetizados. Enquanto os pais estudam, a molecada se ocupa com alguma atividade pedagógica, sob a supervisão de professores. Acrescente-se a isso o ousado projeto “Musicalização na Escola”, coordenado pelo professor e violonista Erisvaldo Borges. Em apenas 5 meses, Erisvaldo criou a Orquestra de Violões de Teresina, com 100 participantes. A molecada já executa peças de Villa-Lobos e Bach. Hoje, o projeto atende a 340 alunos da rede municipal de ensino de Teresina. E o projeto “Cordel na Escola” do Pedro Costa? Nada disso poderia ilustrar a reportagem da Globo? É estranho, para dizer o mínimo.
Antes que me tomem por ressentido, adianto: não sofro daquele “complexo de vira-lata”, de que falava Nélson Rodrigues, mas começo a acreditar seriamente na existência de uma bruta má vontade em relação ao Piauí. Na mídia nacional, só se mostram nossas carências, defeitos e vícios. Como não temos o poder de mudar a cabeça dos outros, mudemos a nossa. Vamos melhorar a imagem do Piauí aqui mesmo, com mais educação, mais saúde, mais trabalho e, principalmente mais respeito para conosco. O mais virá com o tempo, ou não, como diria o Caetano Veloso.
Cineas Santos