Archive for maio, 2008

A VIDA COMO ESPETÁCULO

Sou de um tempo em que a expressão vida privada tinha um caráter quase sagrado. Quando usada, significava: “além daqui, nada”. Em mais de uma oportunidade, vi pessoas públicas encerrarem entrevistas com a chave de aço: “Minha vida privada só interessa a mim”. Em sua radicalidade lírica, o poeta Quintana ia um pouco além: “A minha vida privada não interessa nem a mim mesmo”. Bons tempos aqueles em que as fronteiras entre o público e o privado eram nítidas e, até certo ponto, respeitadas.

Os tempos mudaram e o mundo contemporâneo tornou-se apenas palco de um imenso reality show onde cada um representa o papel que julga mais adequado ao seu perfil. O olho do Grande Irmão (o Big Brother) nos acompanha onde quer que estejamos. Ao contrário do que imaginava George Orwel, no romance 1984, não foi o Estado que se armou das tecnologias mais sofisticadas para nos vigiar 24 horas por dia. Nós é que, não mais cabendo em nós mesmos, extrapolamos todos os limites, inclusive os da decência. Não queremos apenas ser vistos; queremos ser tocados, auscultados, revirados pelo avesso e, por fim, deglutidos. A mídia sensacionalista se encarrega de nos oferecer em bandeja de prata, em gamela de madeira ou em alguidar de barro para o festim dos abutres. O espetáculo não pode parar. Assim, o assassinato de uma garotinha atirada do 6º andar de um edifício recebe o mesmo tratamento das travecagens do Ronaldo “fenômeno”. E, como naquela música do Gonzaguinha, “A platéia aplaude e ainda pede bis/ A platéia só deseja ser feliz”.

Quem não se lembra daquela atriz que compareceu a uma solenidade no Congresso Nacional sem calcinha? Ao ser flagrada por um fotógrafo, fez beicinho de zangada. A outra, aquela da boca de Coringa, foi transar com o parceiro do dia numa praia qualquer, em plena tarde de sol, e clicada por uma paparazzi, ameaçou processá-lo, alegando justamente “invasão de privacidade”. Phode?

Outrora, ia-se a um estádio de futebol, a um teatro, a um cinema, para assistir a espetáculos apresentados por quem tinha o dever de fazê-lo; hoje, vamos para nos exibir, para que a telinha mágica nos mostre, mesmo que estejamos fazendo papel de idiotas. É comum, por exemplo, durante as transmissões dos jogos de futebol, torcedores anunciarem, em cartazes feitos a mão, “a próxima atração” da Globo. Nem Freud explica.

No final do século passado, o artista pop Andy Wharol lançou uma maldição sobre a humanidade ao afirmar que, no futuro, todo mundo teria direito a pelo menos 15 minutos de fama. Não explicou, contudo, o preço a ser pago por glória tão efêmera. Ele e o diabo sabiam.

Decididamente, envelheci. No meu tempo, quando se levava “um fora” de alguém, enchia-se o talo de Mangueira ou Bacardi, buscava um ombro amigo pra chorar e, depois de um sono reparador, já se estava pronto para outra. Hoje, o cidadão (ou cidadã) aluga caríssimas placas de outdoor e estampa: EU NÃO TE AMO. Estranha forma de mentir: quem não ama não desperdiça dinheiro com esse tipo de coisa. Simplesmente esquece. O tempora! O mores!

Cineas Santos

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“A POESIA RESISTIRÁ”

O escritor piauiense H. Dobal faleceu na noite desta quinta-feira (22) no Hospital de Terapia Intensiva – HTI -, em Teresina, onde estava internado há um mês. As informações foram confirmadas por parentes do escritor, que completaria 81 anos no dia 17 de outubro. Ele sofreu uma parada múltipla dos órgãos por volta das 18h.

Parentes confirmaram o velório para a Pax União, na Avenida Miguel Rosa, apesar de colegas, amiga da família, Francimar Lima informou que H. Dobal estava internado desde o dia 22 de abril, quando foi levado ao HTI com febre e corpo roxo. Os médicos diagnosticaram infecção renal e urinária, além de uma pneumonia. Enquanto esteve internado, H. Dobal teve duas pneumonias seguidas, e teve de fazer uma traqueostomia, pois tinha dificuldades para respirar.

Depois de apresentar uma melhora na última segunda-feira, H. Dobal deixou a UTI e foi levado para um apartamento. Mas a família recebeu um telefonema no início da noite com a notícia do falecimento. No atestado de óbito, assinado pelo médico Paulo Márcio Nunes, consta como causa da morte “disfunção múltipla dos órgãos e sistema”, uma parada múltipla dos órgãos.

Natural de Teresina, H. Dobal era formado em Direito e recebeu vários prêmios e ocupava a cadeira número 10 na Academia Piauiense de Letras. Poeta se lançou na literatura com O Tempo Conseqüente, em 1966, e recebeu o prêmio Jorge Lima, do Instituto Nacional do Livro, com “O Dia Sem Presságios”, lançado em 1970.

Fonte: Cidadeverde.com – Matéria Editada

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