Archive for junho, 2008

UMA HISTÓRIA DE AMOR SEM PONTO FINAL

2 de maio de 65. Fazia uma manhã de cristal, dessas que só acontecem em Teresina, quando me despejaram na Praça Saraiva. Como ninguém me convidara, ninguém esperava por mim. Com 17 anos de idade, eu jamais me afastara um quilômetro do olhar severo e protetor de d. Purcina. Agora, só e desamparado, pude aferir a espessura do medo. A cidade acesa lançou-me um desafio: conquista-me ou te devoro.

Aos olhos do garoto assustado, desfilavam as surpresas. A primeira delas: o tráfego dos automóveis nas ruas. Carecia de tomar tento para não voltar para minha aldeia convertido em notícia ruim. A segunda: o verde dos quintais. Para quem vinha de uma terrinha cinza-abandono, Teresina era um oásis sem deserto, na feliz expressão do Millôr. A terceira: o Parnaíba. Em minha aldeia não havia rio nem notícia de rios. Aquele mundão d’água fluindo rumo ao desconhecido me pareceu um desperdício. Eu não sabia que é da natureza dos rios fluir e renovar-se. A quarta: as mulheres. Eu nunca tinha visto tantas em minha vida, nem em dia de procissão de São Raimundo Nonato. Por elas, decidi que aqui sentaria praça, fincaria fundas raízes no chão da chapada.

É escusado dizer que a cidade não se entrega aos náufragos sem cobrar-lhes a alma. Aqui, aprendi que solidão é a mais dolorosa rima para coração; que fome é algo mais que o lapso de tempo entre uma refeição e outra. Durante cinco anos de privações e provações, perambulei por becos, ruas e praças como um sonâmbulos invisível. Paradoxalmente, a cidade que me hostilizava não me via. Ásperos tempos…

No início da década de 70, premido pelas dificuldades, entrei numa sala de aula para ensinar o que não sabia. Era a senha para chegar ao coração da “cidade amada”. O magistério abriu-me portas, braços, corações… A partir de então, o que era indiferença se fez atenção; o que era recusa, acolhimento e até as mais ásperas tardes de outubro converteram-se em manhãs de maio. A cidade, com a cumplicidade dos meus sentidos, adonou-se de mim a ponto de me fazer esquecer de que um dia vivi em outro lugar. Ao longo desses 43 anos de convivência, nunca me ausentei de Teresina por mais de uma semana. Como tenho afirmado tantas vezes, em Timon já me sinto um tantinho no estrangeiro. Sou um animal perfeitamente integrado à realidade física, humana e, principalmente, cultural da cidade. Aqui estou inteiro, sem que me “arda o desespero de ser dono de nada”, como diria nosso Poeta maior. Viver em Teresina me basta.

E como se fossem poucos os afagos, paparicos e carinhos, a Câmara Municipal de Teresina, por iniciativa do vereador Fernando Said, decidiu conceder-me o título de Cidadão Teresinense, honraria que (me perdoem a imodéstia) fiz por merecer. Nesta cidade, investi o que de mais caro possuo: meu tempo, meu trabalho, meu amor. É certo que sou cidadão teresinense desde que aqui cheguei: o meu domicílio eleitoral é aqui. Mas esse título me dá a certeza de que combati o bom combate.

Meus irmãos e minhas irmãs teresinenses, que este título não me obrigue a fazer a única coisa de eu não seria capaz: a amar esta cidade mais do que sempre amei. Meu coração, cansado de tantos embates, não suportaria. Tenho certeza.

Cineas Santos

posted by admin in Dois dedos de prosa and have No Comments

III PRÊMIO JOVENS ESCRITORES

A paixão pela leitura pode transformar pequenos escritores em futuros gênios. Foi assim que aconteceu com os maiores nomes da pintura, da música e da literatura, que hoje, 7, consagra no Piauí 12 novos escritores, jovens que se destacam nas diversas séries de escolas públicas ou particulares no Estado e que inscreveram seus trabalhos no III Concurso Jovens Escritores, realizado pelo Sistema O DIA de Comunicação em parceria com a Fundação Quixote, e com patrocínio de empresas e apoios do Governo do Estado e Prefeitura Municipal de Teresina.

Para cada uma das categorias, a coordenação do concurso lançou subtemas. As crianças de 1° e 2° anos puderam inscrever desenhos sobre “Eu e a Natureza”; os alunos de 3° e 4° ano, textos sobre “Como posso melhorar a preservação do meu mundo”; os do 5° ao 9° ano abordaram o tema “Criando uma consciência ambiental no teresinense”, e os do Ensino Médio dissertaram sobre os poemas “A Enchente”, “A Queimada” ou “A Derrubada”, do livro Zodíaco, de Da Costa e Silva, poeta piauiense e um dos homenageado desta sexta edição do Salipi.

Para Talita de Freitas, da U. E. João Emílio Falcão, primeiro lugar na categoria 1o e 2o anos, o tema Meio Ambiente chamou atenção por ser algo que interfere na vida de todos. “Não acho certo destruírem a natureza”, disse a aluna do 2o ano (1a série), que aos 9 anos adora desenhar, ler e escrever.

André Felipe Alves Brito, também de 9 anos, foi o ganhador na categoria 3o, 4o e 5o anos. Incentivado pelos pais, o estudante da U. E. Leonardo Da Vinci, em Campo Maior, aproveitou seus conhecimentos em outras matérias para se destacar no concurso. “Falei sobre a fotossíntese porque gosto de ciências”, comentou André.

Informado sobre a vitória de um estudante que reside em Campo Maior, o professor Cineas Santos, um dos organizadores do Salipi, afirmou que o Piauí precisa conhecer o Piauí. “Isso me deixa muito feliz. O ideal é que nós estabelecêssemos uma linha de comunicação com todo Estado; infelizmente, Teresina não dialoga com os outros municípios do Piauí. O que sabe São Raimundo Nonato do Salão do Livro? O que sabe Caracol do Salão? Acho que Teresina precisa ser mais generosa estendendo sua capacidade de comunicação até o resto do interior do Piauí”, apontou Cineas. “Espero que um dia o ganhador seja de Guaribas”.

Vencedora da categoria 6o ao 9o anos, Ana Zuleica Bezerra Barros, de 11 anos, acha importante criar uma consciência ambiental em todos os teresinenses. “Qualquer lugar que você olha tem muito lixo e muita poluição. Precisamos fazer alguma coisa para mudar isso”, afirmou a estudante do Colégio CPI. Extasiado com mais uma colocação de seus estudantes no Prêmio Jovens Escritores, o coordenador do colégio, Gilson Figueiredo, acredita que o “ótimo resultado é fruto de um trabalho compromissado com a educação de nosso Estado e, principalmente, com os nossos alunos, que seguem padrões éticos e de convivência harmoniosa”.

Na categoria Ensino Médio, Igor Estevan Torres de Almeida, vencedor do Prêmio Jovens Escritores pelo segundo ano consecutivo, aproveitou o concurso para conhecer a obra de Da Costa e Silva por completo. “Já havia lido alguns poemas deles, mas nunca um livro completo”, disse o estudante da Escola Nossa Senhora da Paz, que faz o 1o ano.

A premiação de bicicletas, coleção de livros e computadores, que acontece no auditório do Centro de Convenções durante o encerramento do VI Salão do Livro do Piauí, serve de estímulo ao interesse cada vez maior pela escrita e pela leitura, ferramentas essenciais para uma boa formação e um melhor desenvolvimento humano.

Um dos coordenadores do VI Salipi, Wellington Soares, destaca a iniciativa democrática que é o Jovens Escritores. Para ele, é importante um certame literário aberto para todos os alunos de todas as escolas: estaduais, municipais ou particulares. Tão aberto que mesmo ex-participantes ou mesmo vencedores dos certames anteriores têm a chance de concorrer novamente.

1

1a Categoria:
1o Lugar: Talita Aparecida Martins de Freitas -
“Gosto de ler, escrever e desenhar, por isso gostei do Concurso”

2o Lugar: Antonio Rennan Soares de Macêdo
“Vou ganhar uma bicicleta. Os livro vou ler depois”

3o Lugar: Tainá Ruben de Sá Albuquerque Braga -
“Foi a professora que incentivou a gente a participar do concurso, e estou muito contente de ter ganhado”

2a Categoria:
1o Lugar: André Felipe Alves Brito-
“Gostei de ter participado, e próximo ano vou me inscrever mais uma vez”

2o Lugar: Giovanna Letícia Sales A. Sousa -
“Minha mãe me incentiva a ler, eu leio muito para minha irmãzinha; a gente ficou feliz porque ganhei o concurso”

3o Lugar: Gabriela Maria Pires Nunes
“Leio qualquer tipo de livro, gosto de tudo. Gosto também de revista em quadrinho”

3a Categoria:
1o Lugar: Ana Zuleica Bezerra Barros-
“Gosto de todos os autores, gosto de ler obras literárias e revistinhas da Mônica”

2o Lugar: Zaira Diana Monteiro da Silva-
“Nunca tinha participado de concursos, e acho importante a iniciativa de incentivar as crianças e jovens a lerem e escreverem”

3o Lugar: Lucas Ariel Neves Dias-
“Fico muito feliz de ter ganhado o concurso, e como não tenho computador, poderei colocar o que vou ganhar no quarto”

4a Categoria:
1o Lugar: Igor Estevan Torres Almeida -
“Fiquei surpreso e feliz por ter ganhado o Prêmio Jovens Escritores mais uma vez”

2o Lugar: Fernanda de Sousa Abreu-
“Sempre gostei muito de ler. Infelizmente, ano passado não deu certo me inscrever, por isso que este ano fiquei feliz não só por ter participado, mas ter ganhado”

3o Lugar: Lorenna Maria de França Ferreira-
“No colégio onde estudo outras pessoas já haviam ganhado concursos, então resolvi me inscrever no Jovens Escritores e estou surpresa por ter ganhado”

Fotos: Neto Seabra Fonte: Portal O DIA

posted by admin in Notícias and have No Comments

GRANDE ENCICLOPÉDIA PIAUIÊS

Segundo Cineas Santos, editor da Enciclopédia, “Para os piauienses, notadamente os que ainda não se deixaram contaminar pelo alastrante dialeto global, o livro propiciará um reencontro com o que temos de mais nosso: esse falar que nos distingue do rebanho urbano”. E adianta: “Particularmente, sou um tantinho culpado pela existência deste livro: ajudei a fazer a primeira edição e tive o displante de editar a segunda e a terceira. Para mim, a Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês é uma espécie de manual, que consulto diariamente para não me apartar de mim. Longa vida a este livro que é, escarrado e cuspido, a nosa cara”.

posted by admin in Notícias and have No Comments

A ERRÁTICA TRAJETÓRIA DE UM INÓCUO ADVÉRBIO

Muitas luas se passaram para que, no entardecer da existência, eu pudesse descobrir minha verdadeira identidade. Eu, que sempre persegui a objetividade, que procurei me valer de uma linguagem substantiva, direta e precisa para me expressar com exatidão, constato, desencantado, que não passo de um advérbio, um reles advérbio de inexatidão, o inconclusivo advérbio quase. Vejam como cheguei a essa desalentadora conclusão.

Na remota década de 80, escrevi um arremedo de poema denominado “Coisa de Negro”. Texto curto, incisivo, debochado, que termina assim: Não sujei na entrada / Não sujei pela vida / Mas só pra aborrecer / Só pra ver feder / Vou sujar na saída. O Fifi (hoje, doutor Feliciano Bezerra) musicou o texto e o inscreveu num festival de música estudantil. O trem ficou bonito e o compositor abiscoitou o primeiro prêmio. Na noite da premiação, na saída do Theatro 4 de Setembro, ouvi o seguinte comentário: “Cara, justamente o Cineas, que nem é negro direito!”. Naquela noite festiva, enquanto o músico saboreava os louros da vitória, coube a mim apenas a constatação de que não passo de um quase-negro.

No início do milênio, quando o algodão já me recobria a carapinha, um grupo de garotos, capitaneado por uma professorinha, veio me convidar para participar de uma “Feirinha de Cultura” que se realizaria numa escola periférica de Teresina. Eu, segundo me informaram, seria um dos “autores homenageados”. Não podendo comparecer ao evento, propiciei aos esforçados garotos o necessário (dados biográficos, textos, fotos) para que levassem a bom termo a tarefa escolar. A professora mandou ampliar uma das fotos, piorando-a sensivelmente. O resultado ficou pavoroso, para dizer o mínimo. Três garotos foram escalados para discorrer sobre o “homenageado”. Com o texto na ponta da língua, os moleques recitavam: Cineas Santos nasceu em Campo Formoso, sertão do Caracol, em setembro de 48, estudou não sei onde, etc. As coisas iam mais ou menos bem até o momento em que apareceu uma menininha sapeca e fez a pergunta crucial: – Ele morreu quando? A resposta para tal pergunta não fora ensaiada. Os três entreolharam-se, visivelmente embaraçados. Um deles arriscou: – Acho que ele não morreu, não. O segundo animou-se: – Ele ainda está vivo. Com fina ironia, o terceiro adiantou: – Meio vivo! Naquela escaldante tarde de outubro, descobri-me um quase-vivo, o que equivale a um quase-morto.

Na semana passada, num dos debates que se realizaram no SALIPI, o quase, mais uma vez, intrometeu-se em minha vida. Num dos papeizinhos que a platéia manda para o mediador do debate, figurava essa pérola destinada a mim: “Professor Cineas, eu gostaria de parabenizá-lo pelo SALIPI e por sua elegância. Quando ministra aulas, o senhor chega a ser quase-humano”.

Foi o maior elogio que me fizeram até hoje. Ao contrário do que muitos imaginam, ninguém se torna humano pelo simples fato de nascer com “jeito de gente”. O processo de humanização é sempre um longo e doloroso aprendizado, que requer paciência, desprendimento, humildade. Como se pode ver, este quase-negro, quase-morto, quase-humano, está quase pronto para receber a “indesejada das gentes”. Com a graça do Criador, quando ela chegar, “não sei se dura ou caroável”, estarei pronto, inteiro, pleno. Assim seja.

Cineas Santos

posted by admin in Dois dedos de prosa and have No Comments