Archive for agosto, 2008

REFLEXÕES EXTEMPORÂNEAS DE UM QUASE-CANDANGO

Atendendo a convite do mestre M. Paulo Nunes, na semana passada, passei uns três dias em Brasília, exercitando a minha reconhecida e proclamada capacidade de falar sandices. Nisso, modéstia à parte, sou imbatível. Nessa época do ano, Brasília é dos lugares mais áridos do Planeta. É tudo secura e desolação. O pó vermelho transforma a “Capital da Esperança” numa monótona aquarela ferrugem. É certo que dois ou três ipês amarelos, raquíticos e desidratados, brindaram-me com uma frugal ração de beleza. Mas a beleza, já afirmava Stendhal, “é apenas a promessa da felicidade”. Nada além.

Sozinho num quarto de hotel, comecei a lembrar-me dos versos que abrem Os Signos & as Siglas, o mais triste dos livros de Dobal: “Esta cidade sem poeira de vida/ se fecha. Se prende. Se tranca/ em mil unidades de desespero/ Esta cidade/ desolada isolada/ ilha de poeira morta/ subverte o silêncio/ submerge os soluços”. Não resisti à tentação de agradecer a seu Liberato o fato de ter impedido que eu me tornasse um candango. Explico.

Em 1958, não caiu uma gota de chuva no sertão do Caracol. No rastro de outros sertanejos, meu pai encarapitou-se num pau-de-arara e rumou para Brasília. Estava muito velho para sair pelo mundo à procura de trabalho. Mas naquele imenso canteiro de obras, nem os inválidos – e não era o caso – ficavam desempregados. Duas semanas depois, meu velho deu notícias: “estou fichado na Pacheco Fernandes”, de triste memória. Na verdade, estava cavando valas para enterrar ilusões. Imediatamente, d. Purcina começou a arrumar os teréns para mudar-se, de mala e cuia, para Brasília. Vislumbrava, na aridez do cerrado, a possibilidade de “educar os filhos”, sua mais constante obsessão e, de quebra, “ganhar um dinheirinho” vendendo de-comer aos cassacos. A velha tinha sonhos, ambições. O que ela não poderia imaginar é que, oito meses depois, seu Liberato, “ouvindo o ronco do trovão”, como a asa branca da canção, voltou para o seu roçado e, de lá, só sairia para o cemitério. Quanto a mim, em vez do cerrado, migrei para a chapada de onde não sairei nem para Pasárgada.

Se não estou enganado, todos os sonhos de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer naufragaram: a cidade que não deveria ter favelas, engarrafamentos, mendigos, violência e outras mazelas que infernizam as grandes cidades brasileiras, tem tudo isso e muito mais. Em frente ao Ministério da Cultura, para citar apenas um exemplo, um sem-nada “mora” numa brasília velha, rota e enferrujada.

Confesso que, no segundo dia de minha estada na capital da República, eu estava a um passo do desespero. Náufrago naquela imensa ausência de mar, eu não via a hora de voltar para a aldeia. De repente, como que trazidos por um vento bom, me aparecem: Edmilson Caminha, Ana Maria, Climério Ferreira, Paulo José Cunha, Andrea, Lourdes Lima, Afonso Ligório, Guido Heleno e mais um punhado de amigos queridos. E o que era aridez se fez brandura, acolhimento. Se nada mais tivesse acontecido, reencontrá-los já teria justificado a viagem. Ao despedir-me de Brasília na manhã de sábado, senti (por que não confessar?) uma pontinha de saudade. Impossível não concordar com o prof. Wall Ferraz: “A cidade é o povo”, o mais é paisagem, mesmo que seja a árida paisagem do Planalto Central, onde cintilam as esculturas monumentais de Niemeyer.

Cineas Santos

posted by admin in Dois dedos de prosa and have No Comments

USINA ONÍRICA

Consta que, no Piauí, houve um governador – o nome não me ocorre agora – que não podia dormir sem que isso acarretasse despesas extras para os contribuintes.O homem, atestam alguns, sofria de megalomania galopante. Mal madornava, já sonhava com projetos faraônicos, que seriam risíveis não sangrassem as burras do Estado.Eram iniciativas mirabolantes: navios para navegar rios secos, máquinas de arrancar toco, hortas em telhados, caiação de asfalto ou elevados ligando a prepotência ao populismo desenfreado. Mas deixemos isso ao julgamento da história, que o objeto dessa arenga é outro.

Peço permissão aos meus três leitores para relatar um sonho, nada grandioso, mas, ainda assim, capaz de gerar conseqüências. Noite dessas, sonhei que atirava uma pedra com um prosaico bodoque (alguém aí ainda se lembra disso?) e derrubava um gavião que planava livre nas alturas. Sonho tolo, politicamente incorreto e improvável: as poucas vezes em que atirei pedras com bodoque, que nós chamávamos “badogue”, o máximo que consegui foi acertar o dedão da mão direita, experiência bastante dolorosa. Ao acordar, me dei conta de que faz uns cinqüenta anos que não vejo um bodoque. Naquela madrugada não consegui mais dormir pensando nos badulaques, brinquedos, brincadeiras e práticas que, em menos de meio século, saíram de circulação. Foi aí que me ocorreu a idéia de arrebanhar o maior número possível de parceiros e criar o MUSEU DA CRIANÇA PIAUIENSE. Na manhã seguinte, disparei telefonemas em todas as direções e a idéia começou a ganhar corpo.

Paulo José Cunha, mestre Santana, João Cláudio, Zózimo Tavares, Cláudia Brandão, Isabel Cardoso, Biá, Amaral, Gabriel, Graça Vilhena, Edivaldo Nunes e todos os companheiros do projeto “ A Cara Alegre do Piauí” foram acionados em tempo recorde. Para nós, o Museu passou a ser prioridade. O alcaide Sílvio Mendes comprometeu-se a apoiar o projeto, independentemente do resultado da eleição.

O MUSEU DA CRIANÇA não será, como pode parecer à primeira vista, um simples depósito de brinquedos antigos ou bugigangas imprestáveis. Será algo vivo, dinâmico, vibrante e interativo. A molecada terá acesso não apenas aos brinquedos, mas às práticas, aos costumes e tradições das crianças do Piauí, da alimentação às mezinhas, passando pelas cantigas de roda, histórias de trancoso e tudo mais. O espaço será equipado com uma biblioteca temática: livros sobre o lúdico. Colocaremos à disposição de professores e alunos de Teresina toda a bibliografia disponível sobre o assunto. No espaço haverá também lugar para oficinas, cursos, práticas recreativas e, principalmente, brincadeiras, muitas brincadeiras.

Irmãos e irmãzinhas, está lançada a idéia. Quem tiver, em casa, algum brinquedo antigo, quem souber a letra de uma cantiga de roda, quem tiver disposição para ajudar que se credencie. O Museu terá o tamanho da nossa disposição para realizá-lo. Será a nossa contribuição para que essa geração, que dorme e acorda mergulhada nas salas de bate-papo , nos vídeo games, nos jogos eletrônicos, tome conhecimento de uma época em que brincar não era necessariamente sinônimo de consumir. Mãos à obra, irmãos.

Cineas Santos

posted by admin in Dois dedos de prosa and have No Comments

O TROPEL DOS BÚFALOS

Por absoluta necessidade (precisava digitar um arremedo de crônica) entrei numa lan house em S. Raimundo Nonato. A tarde mal se iniciava, e a sala estava praticamente vazia. De repente, quatro rapazes entraram trotando. De imediato, preparei-me para o pior: só podia ser um assalto. Sem tomar conhecimento de minha opaca presença, os quatro entrincheiraram-se e começaram uma intensa guerra virtual. Cada vez que abatiam um dos “inimigos”, berravam como se comemorassem um gol. Se bem entendi as regras daquele jogo sinistro, venceria o combatente que eliminasse o maior número de adversários no menor espaço de tempo. Tentei ignorá-los e concentrar-me no meu trabalho. Impossível: as balas ricocheteavam por toda parte e o barulho tornou-se insuportável. Acovardado, fugi do campo de batalha. Na saída, ocorreu-me a pergunta: Alguém que brinca de matar não corre o risco de tornar-se um matador? A pergunta pode parecer um despropósito, mas me lembro de ter lido, em algum lugar, a história dos três jovens americanos (sempre eles!) que, em meio a uma batalha virtual, resolveram encomendar uma pizza. Quando o entregador bateu à porta do apartamento, um dos moleques sacou de uma pistola e o fuzilou ali mesmo. Em seguida, pegaram a pizza e foram comê-la como se nada tivesse acontecido. Quando a polícia chegou, o matador justificou-se candidamente: A gente só queria saber como é que alguém morre de verdade. Sobre os efeitos dos jogos violentos na vida dos adolescentes, os “entendidos” ainda não chegaram a um consenso. Há os que afirmam que esses jogos podem, sim, incitar a práticas violentas; não falta, contudo, os que garantem que os jogos violentos funcionam como uma espécie de catarse e até inibem a violência. Como não sou entendido em nada, prefiro manter-me a distância.

Longe da manada barulhenta, na casa da irmã querida, abro a revista Discutindo Literatura (Escala Educacional – nº 18) e me deparo com uma notícia curiosa: no Rio Grande do Norte, três jovens acusados da prática de crime pela internet receberam uma sentença exemplar: por determinado período, ficam proibidos de ingerir bebidas alcoólicas; freqüentar lan houses e participar de redes de relacionamento. Até aí nada de extraordinário. Extraordinário é o fato de serem obrigados a ler obras literárias escolhidas pelo juiz que os condenou. Para evitar “espertezas”, trimestralmente terão de apresentar relatório “realizado de próprio punho, revelando suas impressões sobre os temas principais dos livros”. Se não o fizerem, podem ser presos. As duas primeiras obras indicadas pelo sábio magistrado são A Hora e a vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Não me lembro de ter visto sentença mais sensata. Tivesse mandado os três infelizes para um presídio qualquer, o juiz estaria apenas propiciando-lhes uma pós-graduação em crime. Ao “condená-los” a ler, talvez os resgate para o convívio social. Li a matéria pensando naqueles quatro rapazes que, “inocentemente”, brincam de matar numa lan house.

A sábia sentença do juiz potiguar bem que poderia nos inspirar a exigir dos nossos filhos uma prática bem simples: para cada duas horas na internet, teriam de dedicar pelo menos uma à leitura de textos escolhidos por nós. É quase certo que, num primeiro momento, a molecada iria nos devotar ódio mortal. Com o correr do tempo, porém, aprenderia que não se brinca com a vida, o mais precioso de todos os bens, mesmo que seja apenas uma vida virtual.

Cineas Santos

posted by admin in Dois dedos de prosa and have No Comments