Archive for setembro, 2008

O DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO

Dia desses, fui a um bar onde se realizava o lançamento de um livro desimportante. Enquanto o autor, espaçoso, distribuía autógrafos caprichados, um dos convidados deitava falação sobre quase tudo. O cidadão, tido e havido como “uma das cabeças pensantes do Piauí”, já bebera um pouco mais do que seria recomendável. E quanto mais bebia, mais loquaz ficava.

Lá pelas tantas, passou a dissertar sobre a iminente derrocada do império americano. Segundo ele, “Depois da fragorosa derrota para os vietnamitas, os americanos perderam o norte e marcham, céleres, para a decadência completa”. Os convivas, mais interessados nos comes e bebes do que na arenga do moço, passaram a ignorá-lo. Sentindo-se desprestigiado, o cidadão passou a berrar com mais força. Finalmente, uma alma caridosa ( ainda por cima bonita) se dispôs a ouvi-lo. A distância, eu acompanhava tudo sem a menor disposição para participar.

Eis um resumo do que pude pescar: “O maior dos erros cometidos pelos americanos foi a arrogância. Com o desmoronamento da União Soviética, os ianques passaram a comportar-se como se fossem os donos do mundo. Tomaram no olho da pata. Um punhado de fanáticos islâmicos demonstrou que a águia é vulnerável. O 11 de Setembro comprovou que toda aquela empáfia e arrogância é puro jogo de cena. Hoje, mais do que nunca, estão encalacrados. Mandaram tropas para o Afeganistão para combater o Taliban e, até agora, o máximo que conseguiram foi piorar o que já era ruim. Derrubaram o Saddam e instauraram o caos no Iraque. Mas tudo isso não passa de sintomas. O que efetivamente está destruindo os EUA são as drogas. O desencanto dos jovens sem perspectiva é um convite à autodestruição. O câncer sem cura que corrói as entranhas do império da maldade…”

A jovem que o escutava fez um comentário qualquer, e o cidadão perdeu de vez a compostura: “Isso é pura alienação!”, gritou a pleno pulmão. A moça tentou vãmente acalmá-lo, o que o irritou ainda mais. Descontrolado, afirmou: “- A decadência está aí, só não vêem os cegos ou os alienados. Quer uma prova cabal? Quer? Vão eleger agora um negro para presidente do país. Precisa dizer mais?”

Nessa altura do campeonato, o falastrão conseguiu, enfim, o que perseguia desde o início de sua arenga: a atenção do público. Confesso que, por instante, temi pela integridade física do moço. No bar, havia alguns afro-descendentes com pedigree. Curiosamente, ninguém se manifestou. Foi aí que pensei em me meter na encrenca. Mas, em boa hora, lembrei-me de que já fui acusado de não ser “ negro direito”. Sou, segundo atestam os entendidos, apenas um sarará, uma espécie de “negro branco”, se é que esse trem existe.

Antes de retirar-me, lembrei-me de que, certa feita, fui apresentado ao músico Hermeto Pachoal por João Cláudio. O bruxo albino me apertou a mão e afirmou: – Fogoió, nós vamos governar o mundo! Limitei-me a sorrir. Hoje, eu teria dito: Vamos não, seu Hermeto. Os negros estão com tudo, já que “black is beautiful”. Quanto aos sararás, continuam sendo apenas sararás. Nada além.

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AS “CRIAS” DO SALIPI

Realizar um salão ou uma feira de livros em qualquer lugar do Brasil é tarefa extremamente difícil e de altíssimo risco. Infelizmente, em nosso país, o livro é tratado como um “produto nobre”, na pior acepção do termo. É pouco menos que artigo de luxo, caro, raro e, conseqüentemente, inacessível à maioria da população. Não por acaso, o brasileiro lê menos que o colombiano. A média não chega a dois livros por ano. Para um país que ocupa a 15ª posição no ranking da economia mundial, trata-se de uma vergonha, para dizer o mínimo. As editoras brasileiras, com raríssimas exceções, ainda não se deram conta de que os “leitores cativos” estão envelhecendo sem deixar “herdeiros”. O Brasil edita um elevado número de títulos para uma clientela seleta, de elevado poder aquisitivo. O grosso da população não tem acesso nem aos folhetos de cordel. Como também não dispomos de bibliotecas públicas na quantidade desejável, o livro simplesmente não figura no cardápio do brasileiro comum.

Num cenário como esse, organizar uma feira de livros é pouco menos que uma temeridade. Falo com autoridade de quem, há 6 anos, ajuda a realizar o Salão do Livro do Piauí. A cada nova edição, redobram as dificuldades e nunca sabemos se será possível realizar a próxima. A despeito disso, o SALIPI cresce, resiste e, para nossa alegria, até procria. Algumas das “crias” não vingaram como o Salão de Campo Maior, que morreu de inanição logo na primeira edição. Mas há experiências bem- sucedidas em Caxias (MA), Elesbão Veloso e Valença, no Piauí, onde já se realizaram, com sucesso, 4 edições em cada município. O primeiro passo para um salão, ou melhor, para um evento cultural qualquer alcançar êxito é a participação popular. Se o povo adonar-se do evento, não há como impedir que ele cresça e frutifique. O Salão de Valença, por exemplo, tem enfrentado turbulências de toda ordem. Ora é a insensibilidade de um prefeito, ora um “racha” dentro da própria equipe organizadora, mas a presença do público tem garantido a continuidade do evento.

Estive na abertura da 4ª edição do Salão do Livro de Valença( de 15 a 18 do corrente) e não pude deixar de me entusiasmar com o que vi: uma equipe mínima, constituída de voluntários, sob a batuta do prof. Cássio Gomes, conseguiu levar 400 pessoas ao auditório do Colégio Santo Antônio, que comporta, no máximo, 300. Os organizadores tiveram de providenciar um telão para que professores e alunos pudessem acompanhar as conferências que se realizavam no auditório. Levar 400 pessoas a um evento desse tipo em Valença é algo extraordinário sob todos os aspectos.

Pena que outros municípios como Parnaíba, Picos, Floriano, Oeiras, Piripiri, São Raimundo Nonato, para citar apenas os mais populosos, ainda não percebido que investimento em cultura tem retorno garantido. A desculpa esfarrapada de que “faltam verbas” não se sustenta: em todos eles se realizam carnavais fora de época ou “forrofolias”. Viva, então, Vila Nova do Piauí que, com apenas três mil habitantes, vem realizando, anualmente, um belíssimo encontro cultural capaz de mobilizar praticamente toda a população do município. Justificadamente, o maior orgulho dos vila-novenses é a “Biblioteca Patativa do Assaré”, com um acervo de 12 mil livros. Isso prova que ainda não se inventou melhor adubo para a inteligência do que livro.Que venham novas crias.

Cineas Santos

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