Com trabalho, competência e, naturalmente, dinheiro, a Prefeitura de São Luís (MA) realizou o que me parecia impossível: a 2ª edição da Feira do Livro, bem melhor que a primeira. E olhe que a primeira foi excelente, para dizer o mínimo. A FELIS é um evento ímpar: não tem a impessoalidade mercantilista das bienais nem ranço elitista das festas literárias, feitas “para inglês ver”. É ousada em sua concepção e popular em sua proposta. O povo de São Luís viu, gostou e abraçou a feira com aquele entusiasmo que só as coisas verdadeiras despertam. Durante dez dias, de 9 a 19 do corrente, a cidade inteira literalmente gravitou em torno da Feira. A bela Praça Maria Aragão tornou-se o umbigo do mundo, o que justifica plenamente o slogan da FELIS: “Venha mirar o mundo”.
Os números falam por si: “43 parceiros diretamente envolvidos em sua construção, 35 espaços instalados para o desenvolvimento de sua programação e 88 estandes com mais de setenta mil títulos de aproximadamente 500 editoras”. Pelos menos 1200 pessoas trabalharam diretamente na realização do evento. Mas isso ainda diz pouco: a FELIS abriu espaço para a literatura, a música, a dança, as artes cênicas,a ecologia, as questões ligadas à preservação do patrimônio público e outros temas de interesse da coletividade. Uma feira cultural, na acepção plena do termo.
No ano passado, saí da Feira do Livro com uma inquietação justificada, diga-se de passagem. Como se trata de um evento bancado pela Prefeitura de São Luís, temi pelo destino da FELIS. Em nosso país, um administrador não costuma dar continuidade a projetos idealizados ou iniciados pelo antecessor, mesmo que seja um “correligionário”. O mundo se inicia no dia de sua posse e termina no final do mandado. A noção de coisa pública ainda não foi apresentada aos nossos dignos administradores. Este ano, saí mais aliviado: fiquei sabendo que a Feira do Livro de São Luís foi criada pela Lei 4.449, de janeiro de 2005. Não realizá-lo seria, portanto, uma clara afronta à lei, e o público, estou certo, não aceitaria sem se manifestar.
Sob a firme batuta de Lúcia Nascimento, coordenadora geral do evento, a engrenagem que move a Feira parece um relógio suíço: tudo funciona a tempo e a hora. A receita é simples: “Sou a primeira a chegar e a última a sair e tenho a felicidade de coordenar uma equipe dedicada e eficiente”, garante a coordenadora. Poderia acrescentar se quisesse: e amo a cultura como a mim mesma.Lúcia se desdobra em mil, sem desmanchar o sorriso que lhe enfeita o rosto.
Particularmente, só anotei um senão na FELIS: as ausências de dois dos maiores poetas brasileiros da atualidade: Ferreira Gullar e Salgado Maranhão, ambos maranhenses. No que diz respeito a Gullar, tudo bem: o poeta, depois de tantas andanças e contratempos, borra-se de medo de avião. No caso específico do Salgado, um “esquecimento” imperdoável. José Salgado dos Santos, o nosso Salgado Maranhão, é, indiscutivelmente, a voz mais lúcida e instigante dos poetas de sua geração.Amado pelo público e aplaudido pela crítica, Salgado é ganhador do Prêmio Jabuti de Poesia (1999) na companhia de dois monstros sagrados: Geraldo Mello Mourão e Haroldo de Campos. Nada disso, porém, tira o brilho da majestosa Feira do Livro de São Luís, um evento que honra e dignifica a cultura brasileira.
Cineas Santos
Como já afirmei em outra oportunidade, não fosse o extraordinário ser humano que é, Turíbio Santos seria, com certeza, violão. Não um violão qualquer, mas um Fleta ou um Ramirez, esculpido em madeira lei, com sonoridade reconhecível a distância. Em qualquer lugar onde se aprecie música instrumental de qualidade, Turíbio é referência obrigatória. Cidadão do mundo, foi ,durante muitos anos, o nosso embaixador musical na Europa. Depois de percorrer “Europa, França e Bahia”, Turíbio sentou praça no Rio de Janeiro onde, há mais de 20 anos, dirige o Museu Villa-Lobos, instituição que, além de preservar a memória do gênio da música brasileira, oferece cursos de música para
A primeira lembrança que me ocorre da escola não é das mais agradáveis. O “Grupo Escolar Padre Domingos da Conceição” não passava de um pardieiro, uma espécie de depósitos de meninos pobres, fedorentos, quase todos da mesma cor, marrom-lá-em-casa-não-tem-água. Para que se tenha idéia da precariedade da instituição, faltava apenas água e o resto. Não havia nem mesmo uma dessas latrinas de buraco. Quando a necessidade era mais forte que o pudor, adubávamos gratuitamente um terreno baldio de propriedade do Dr. Abílio. As carteiras, antigas, de madeira, acomodavam dois alunos. Coube a mim, a infelicidade de sentar-me ao lado de um garoto chamado Raimundo: magro, barrigudo, cabeçudo, sem pescoço e prognata. Seu passatempo predileto era raspar a carteira com uma gilete e atirar o pó fino nos olhos dos colegas. Era o cão pintado de alvaiade. Certa feita, uma professora mais esquentada atirou-lhe uma palmatória de aroeira com tal força que, errando o alvo, deixou um rombo no reboco da parede. Como se pode ver, em matéria de luxo, eu já experimentei quase tudo.


