Archive for outubro, 2008

PELA SEGUNDA VEZ, FELIS

Com trabalho, competência e, naturalmente, dinheiro, a Prefeitura de São Luís (MA) realizou o que me parecia impossível: a 2ª edição da Feira do Livro, bem melhor que a primeira. E olhe que a primeira foi excelente, para dizer o mínimo. A FELIS é um evento ímpar: não tem a impessoalidade mercantilista das bienais nem ranço elitista das festas literárias, feitas “para inglês ver”. É ousada em sua concepção e popular em sua proposta. O povo de São Luís viu, gostou e abraçou a feira com aquele entusiasmo que só as coisas verdadeiras despertam. Durante dez dias, de 9 a 19 do corrente, a cidade inteira literalmente gravitou em torno da Feira. A bela Praça Maria Aragão tornou-se o umbigo do mundo, o que justifica plenamente o slogan da FELIS: “Venha mirar o mundo”.

Os números falam por si: “43 parceiros diretamente envolvidos em sua construção, 35 espaços instalados para o desenvolvimento de sua programação e 88 estandes com mais de setenta mil títulos de aproximadamente 500 editoras”. Pelos menos 1200 pessoas trabalharam diretamente na realização do evento. Mas isso ainda diz pouco: a FELIS abriu espaço para a literatura, a música, a dança, as artes cênicas,a ecologia, as questões ligadas à preservação do patrimônio público e outros temas de interesse da coletividade. Uma feira cultural, na acepção plena do termo.

No ano passado, saí da Feira do Livro com uma inquietação justificada, diga-se de passagem. Como se trata de um evento bancado pela Prefeitura de São Luís, temi pelo destino da FELIS. Em nosso país, um administrador não costuma dar continuidade a projetos idealizados ou iniciados pelo antecessor, mesmo que seja um “correligionário”. O mundo se inicia no dia de sua posse e termina no final do mandado. A noção de coisa pública ainda não foi apresentada aos nossos dignos administradores. Este ano, saí mais aliviado: fiquei sabendo que a Feira do Livro de São Luís foi criada pela Lei 4.449, de janeiro de 2005. Não realizá-lo seria, portanto, uma clara afronta à lei, e o público, estou certo, não aceitaria sem se manifestar.

Sob a firme batuta de Lúcia Nascimento, coordenadora geral do evento, a engrenagem que move a Feira parece um relógio suíço: tudo funciona a tempo e a hora. A receita é simples: “Sou a primeira a chegar e a última a sair e tenho a felicidade de coordenar uma equipe dedicada e eficiente”, garante a coordenadora. Poderia acrescentar se quisesse: e amo a cultura como a mim mesma.Lúcia se desdobra em mil, sem desmanchar o sorriso que lhe enfeita o rosto.

Particularmente, só anotei um senão na FELIS: as ausências de dois dos maiores poetas brasileiros da atualidade: Ferreira Gullar e Salgado Maranhão, ambos maranhenses. No que diz respeito a Gullar, tudo bem: o poeta, depois de tantas andanças e contratempos, borra-se de medo de avião. No caso específico do Salgado, um “esquecimento” imperdoável. José Salgado dos Santos, o nosso Salgado Maranhão, é, indiscutivelmente, a voz mais lúcida e instigante dos poetas de sua geração.Amado pelo público e aplaudido pela crítica, Salgado é ganhador do Prêmio Jabuti de Poesia (1999) na companhia de dois monstros sagrados: Geraldo Mello Mourão e Haroldo de Campos. Nada disso, porém, tira o brilho da majestosa Feira do Livro de São Luís, um evento que honra e dignifica a cultura brasileira.

Cineas Santos

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TURÍBIO E A ESTRELINHA

Como já afirmei em outra oportunidade, não fosse o extraordinário ser humano que é, Turíbio Santos seria, com certeza, violão. Não um violão qualquer, mas um Fleta ou um Ramirez, esculpido em madeira lei, com sonoridade reconhecível a distância. Em qualquer lugar onde se aprecie música instrumental de qualidade, Turíbio é referência obrigatória. Cidadão do mundo, foi ,durante muitos anos, o nosso embaixador musical na Europa. Depois de percorrer “Europa, França e Bahia”, Turíbio sentou praça no Rio de Janeiro onde, há mais de 20 anos, dirige o Museu Villa-Lobos, instituição que, além de preservar a memória do gênio da música brasileira, oferece cursos de música para jovens de baixa renda. Todos os anos, o Museu entrega à cidade uma batelada de músicos prontos para o batente.

Cidadão Teresinense e patrono do Festival Nacional de Violão do Piauí, Turíbio Santos, este ano, já esteve duas vezes em Teresina. A primeira, na festa de comemoração dos 200 anos do Banco do Brasil, numa inesquecível homenagem a São Luiz Gonzaga, em companhia de Nonato Luís, Osvaldinho e Carol McDavit. A segunda, na semana passada, à frente da bela exposição sobre a história do violão ao longo dos séculos, louvável iniciativa do SESC. Numa sala repleta de meninos e meninas, quase todos alunos da rede municipal de ensino onde estudam música sob a batuta de Erisvaldo Borges, Turíbio proferiu uma palestra para a meninada que, de tão atenta, nem pestanejava. No final da aula, tocou algumas músicas de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e João do Vale. A molecada foi ao delírio.

Na platéia apenas Maria Eduarda, seis anos de idade, não parecia feliz. Maria Eduarda, para quem não se lembra, é aquela menininha que, em fevereiro deste ano, durante a 4ª edição do Festival de Violão do Piauí ganhou do Instituto Civitas um violãozinho compatível com a sua idade. O que, para uma criança qualquer, seria apenas um brinquedo, para Eduarda, passou a ser um companheiro inseparável. A pequena está convencida de que será uma grande violonista. Dia desses, Eduarda ligou para me informar que já sabia tocar duas músicas. Com um incrível senso de responsabilidade e gratidão, queria prestar contas do seu aprendizado. Trouxe-a à Oficina da Palavra onde exibiu-se, compenetrada, para uma platéia seleta. Foi literalmente ovacionada. Estreou em grande estilo e gostou. Na semana passada, voltou a me ligar: tinha aprendido uma nova música e, naturalmente, queria platéia para ouvi-la.

A insatisfação de Maria Eduarda na aula do Turíbio deveu-se ao fato de ela não ter sido convidada a tocar. Quando lhe perguntei se tinha gostado da palestra, limitou-se a dizer: “Eu não toquei”. Com muito jeito, tentei explicar-lhe que a luz de uma estrela, mesmo a de uma super-nova, pode levar milhões de anos-luz para chegar à Terra. Que não lhe arda a impaciência dos fósforos, que brilham por segundos e se apagam para sempre. Sua hora chegará, principalmente, tendo o Erisvaldo como mestre e nhô Turíbio como padrinho. Quem viver verá.

Cineas Santos

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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

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POR QUE NÃO ME ENTENDO COM OS “GÊNIOS”

A primeira lembrança que me ocorre da escola não é das mais agradáveis. O “Grupo Escolar Padre Domingos da Conceição” não passava de um pardieiro, uma espécie de depósitos de meninos pobres, fedorentos, quase todos da mesma cor, marrom-lá-em-casa-não-tem-água. Para que se tenha idéia da precariedade da instituição, faltava apenas água e o resto. Não havia nem mesmo uma dessas latrinas de buraco. Quando a necessidade era mais forte que o pudor, adubávamos gratuitamente um terreno baldio de propriedade do Dr. Abílio. As carteiras, antigas, de madeira, acomodavam dois alunos. Coube a mim, a infelicidade de sentar-me ao lado de um garoto chamado Raimundo: magro, barrigudo, cabeçudo, sem pescoço e prognata. Seu passatempo predileto era raspar a carteira com uma gilete e atirar o pó fino nos olhos dos colegas. Era o cão pintado de alvaiade. Certa feita, uma professora mais esquentada atirou-lhe uma palmatória de aroeira com tal força que, errando o alvo, deixou um rombo no reboco da parede. Como se pode ver, em matéria de luxo, eu já experimentei quase tudo.

Logo no primeiro dia de aula, durante o recreio, deparei-me com uma cena insólita: sentado numa mesa, um garoto pequeno, magro, com orelhas de abano, pálido como uma osga, recitava os nomes das capitais dos países da Europa. Em torno dele, as professoras, curiosas e embevecidas, aplaudiam-no no final de cada “recital”. Filho de uma delas, o pirralho era tido como o “gênio” da aldeia. O primeiro sentimento que experimente em relação a ele foi o da inveja: eu jamais seria capaz de tal proeza. O segundo, de pena: enquanto nós corríamos e quebrávamos o que ainda restava das vidraças do velho grupo, o “geniozinho”, como um papagaio de circo, declinava nomes de rios, cidades, países… Aquele moleque cresceu e tornou-se um nada. Fracassou em todas as frentes. Hoje, bebe, bebe, bebe, na vã tentativa de esquecer- se de si mesmo.

Essa lembrança inútil me ocorreu ao tomar conhecimento de atos praticados pelo “gênio” de Teresina. Esse moço tem atestado de genialidade conferido por instituições sérias. Pragmático, depois de uma brilhante e meteórica carreira acadêmica, o moço resolveu tornar-se um empresário de sucesso na área educacional. Competente, prosperou rapidamente. Até aí, nada de extraordinário: num país capitalista, usar a competência para ganhar dinheiro é algo normal e até desejável. No mundo contemporâneo, já não há lugar para “gênios” aluados ou excêntricos. Mas vamos ao que interessas: no estabelecimento onde o “gênio” tem seu negócio, uma humilde professora resolveu abrir uma “bodeguita” para vender coisinhas: lápis, canetas, balas e tirar fotocópias. Por oportuno, vale ressaltar: a moça instalou-se no local antes do “gênio”. O nosso Einstein sentiu-se incomodado com a presença daquele miúdo negócio em seu feudo. Sem o menor escrúpulo, vem tentando por todos os meios escorraçar a cidadã do local. Primeiro, tentou cooptá-la, oferecendo-lhe um emprego; depois, passou a ameaçá-la e, finalmente, decidiu eliminá-la pela concorrência desleal. Instalou uma máquina xérox em sua empresa onde cobra apenas cinco centavos por cópia. A moça, com os encargos que paga, não pode fazê-lo por menos de quinze. Isso é o que se pode chamar de “maldade genial”.

Por essas e outras, mantenho prudente distância dos “gênios”. Prefiro a companhia dos bruxos: Machado, Clarice, Borges, Manuel de barros e outros menos famosos.

Cineas Santos

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ENQUANTO O SEU LOBO NÃO VEM

O poema “Enquanto Seu Lobo não vem” de Paulo José Cunha, virou um samba bem legal na voz e violão de Roraima.

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TRÊS DA MADRUGADA

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Composição: Torquato Neto / Carlos Pinto
Interpretação: Gal Costa

Três da madrugada
Quase nada
A cidade abandonada
E essa rua que não tem mais fim
Três da madrugada
Tudo e nada
A cidade abandonada
E essa rua não tem mais nada de mim
Nada
Noite, alta madrugada
Essa cidade que me guarda
Que me mata de saudade
É sempre assim
Triste madrugada
Tudo e nada
A mão fria, a mão gelada
Toca bem de leve em mim
Saiba
Meu pobre coração não vale nada
Pelas três da madrugada
Toda a palavra calada
Dessa rua da cidade
Que não tem mais fim
Que não tem mais fim
Que não tem mais fim.

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GO BACK

Letra: Torquato Neto
Interpretação: Edvaldo Nascimento

Você me chama
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama
Mas de repente
A madrugada mudou
E certamente
Aquele trem já passou
E se passou, passou
Daqui pra melhor, foi
Só quero saber do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder.

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PLANETA MOVIDO A INTERNET

Interpretação: Raimundo Nonato e Nonato Costa, os Nonatos.

Planeta Movido a Internet

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ERISVALDO BORGES

Erisvaldo Borges nasceu em 1970 em Santana do Piauí. Reside em Teresina desde 1985, onde começou a estudar violão em 1987, orientado-se apenas por livros. É formado em Educação Artística pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e Pós-Graduado em Docência Superior pela Faculdade de Ensino Superior do Piauí (FAESPI).

Entre 1994 e 1997, participou dos mais importantes festivais e workshops de violão do país, entre eles os de Campos do Jordão (1995), Festival Internacional de Violão do SESC (1997), Festival Internacional de Violão da Academia Palestrina (1995) e o Festival Internacional de Verão da Escola de Música de Brasília (1994 e 1995).

Como concertista já se apresentou em várias cidades do Estado do Piauí e nas grandes cidades brasileiras como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Fortaleza, etc. Em novembro de 1999, a convite do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, realizou sua primeira turnê internacional, percorrendo cinco países da América Latina: Venezuela, Costa Rica, Nicarágua, El Salvador e Honduras.

Acompanhe o seu trabalho em seu site oficial: http://erisvaldoborges.com

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ARTE

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