Archive for novembro, 2008

NO TOPO DO MUNDO

O fato de ter nascido no milênio passado e de ostentar a carapinha recoberta de algodão não me credenciam a meter o bedelho em questões relevantes. A bem da verdade, não me credenciam a coisa alguma. Em lugar nenhum do mundo, senescência é sinônimo de sabedoria. Ainda assim, como resistir à tentação surfar um tiquinho que seja na onda monumental provocada pelo tsunami Obama?

Aos fatos: na manhã seguinte à vitória do 44º presidente dos Estados Unidos, foi acordado pelo telefonema de uma irmão de cor. Com a voz embargada de emoção, meu amigo bradou: – Acorda, irmão, nós chegamos lá. Com um dos dois neurônios ainda adormecido, perguntei:- O Flamengo voltou à liderança do brasileirão? Um tantinho agastado, o irmãozinho obtemperou: – Que Flamengo, rapaz? Tô falando do nosso presidente, o Barack Obama! Ainda meio zonzo, pensei comigo: “ Meus Deus, antes mesmo de assumir o comando do mundo, o homem já anexou o Brasil ao império da águia insaciável? Ferramo-nos”. Espichado na cama, ouvi uma bela aula de história sobre a trajetória, as mazelas e as conquistas dos afro-descendentes em terras da América. My brother terminou sua peroração com chave de ouro: “Para todos nós, cujas cicatrizes ainda estão acesas na pele a vitória de Obama representa o alvorecer de um novo tempo. Viva a mãe África!”. Balbuciei um viva e tentei resgatar o sono que, para minha tristeza, já se escafedera.

Talvez meu irmão esteja certo: como um furacão, Barack Hussein Obama varreu os EUA e monopolizou as atenções do mundo todo, do Quênia ao Piauí. Na semana que se seguiu à sua vitória, cada milímetro ou segundo da mídia ocidental foi ocupado por uma foto dele ou por um texto sobre sua meteórica trajetória política. O simples desejo das filhas de Obama de levarem um cãozinho ou a cadelinha para a Casa Branca fez subir a cotação dos vira-latas a patamares nunca vistos. É que o novo presidente faz questão de que o animalzinho seja um autêntico vira-lata.

De Barack Obama o mundo espera “pouco”. Espera apenas que ele recupere a economia mundial em frangalhos, que desate o nó das duas guerras em que o país está metido, que realize o famoso sonho de Martin Luther King, que melhore a educação, a saúde e principalmente a imagem dos EUA no contexto das nações. Não bastasse isso, o “companheiro” Lula quer que ele suspenda o embargo econômico a Cuba. Por oportuno, vale lembrar: deve fazer tudo isso sem aumentar impostos, terror dos americanos. Convenhamos que é tarefa para Hércules nenhum botar defeito. Não por acaso, a revista mais endireitada do Brasil já sentenciou: “É tal o desafio de Obama que já se diz que ele precisará de algo como a coragem de Lincoln, que assumiu na vertigem da Guerra Civil, e a astúcia de Roosevelt, que venceu a depressão”. Para não ficar por baixo, a ISTOÉ estampou na primeira capa: “Pode esse homem salvar a América e o mundo?” De uma penada, transferiu para o jovem presidente a responsabilidade que, até a semana passada, pertencia a Deus.

Para o Brasil, tanto melhor: se Deus é realmente brasileiro, como querem alguns, livre da obrigação de cuidar do restante do mundo, talvez Lhe sobre um tempinho para se dedicar mais à própria casa. Assim seja.

Cineas Santos

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Obama e a crise

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DA “FAMA” QUE SÓ ATRAPALHA

Gosto de comprar laranjas. É uma atividade simples, banal, mas que exige alguma ciência, naquela acepção popular do termo. A fruta deve ser olhada, tocada, apalpada com delicadeza e, finalmente, escolhida. Trata-se de operação que demanda tempo e paciência. Pois estava eu, num supermercado de Teresina, escolhendo algumas laranjas quando me apareceu um cidadão de meia idade, um tanto amarrotado pelo uso, com um ar Mona Lisa. Parou a dois passos de mim, alargou o sorriso e disparou: – Nem é preciso dizer que não está me reconhecendo! Esbocei um arremedo de riso, acenei com a cabeça e voltei às laranjas. O moço, com a voz temperada pela ironia, afirmou: – A primeira coisa que a fama corrói é a memória; depois, a dignidade… Contrafeito, tentei explicar-lhe que, professor há mais de trinta anos, eu não poderia, mesmo que desejasse, lembrar-me de todas as caras que vi e que, por força do ofício, tive de aturar. O camarada insistiu: – Quando você ainda não era famoso, dividimos o mesmo grude na Casa do Estudante. Tive de segurar o freio de mão e contar até cem para não mandar aquele filho de Eva à pata que o pôs. Respirei fundo, oxigenei os dois neurônios que me restam e dissertei didaticamente.

Meu irmão, um de nós dois desconhece o significado da palavra fama. Para mim, num país capitalista como o nosso, fama é o que se converte em dinheiro. Pelé, por exemplo, há mais de 30 anos não chuta uma bola; a despeito disso, continua faturando como nunca. No mesmo tom, dá palpite sobre o que não sabe ou anuncia analgésico que, efetivamente, não toma. Quanto a mim, a “fama” que você me atribui, até o momento, não me trouxe qualquer benefício. O escritor João Antônio usava um neologismo muito adequado para designar o que ocorre comigo: “brilhareco”. O cidadão tentou tomar-me a palavra; não o permiti. Quem mexe com o diabo, na melhor das hipóteses, tem de aturar pelo menos o cheiro do enxofre. Olhe aqui, meu chapa, sou apenas um velho professor; um professor falastrão, meio espaçoso, mas um professor. Nada além. Curiosamente, os incautos me atribuem importância e poderes que nunca tive. Não tenho emprego público, não tenho aposentadoria polpuda, não tenho padrinho político e, principalmente, não tenho dinheiro. Tudo que tenho é a liberdade de dizer o que quero; em contrapartida, sou obrigado a ouvir o que não quero. Diariamente, sou procurado por pessoas de todos os naipes que me pedem todo tipo de coisa: emprego, opinião sobre poemas ruins, prefácio de livro ordinário, carta de recomendação… Sabe o que resulta disso tudo? Inimizades gratuitas. Como não posso atendê-los, taxam-me de arrogante, grosso, vaidoso, insensível…

Visivelmente constrangido, aquele moço velho bateu-me levemente no ombro e declarou: – Pois eu pensei que você fosse o cara. Rebati de bate-pronto: – Sou não, meu mano; o cara é o Romário. Proseamos um pouco, falamos das agruras do passado e da insipidez do presente. Depois, cada um tomou o seu rumo. Ao vê-lo partir, lembrei-me de que efetivamente dividimos o mesmo grude, não na Casa do Estudante, mas na velha UPES, um pardieiro que, em meados da década de 60, acoitava náufragos, desesperados e infelizes como nós dois.

Se alguém, porventura, estiver duvidando do que acabei de afirmar, estou disposto a trocar, com contrato lavrado em cartório, minha “fama” por uma dúzia de laranjas mel-rosa. Alguém aí se habilita?

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FUJAM DO RÓTULO “ECONÔMICO”

No ano passado, o prof. Miguel Srouge, um dos mais renomados urologistas do país, compareceu ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, para uma daquelas sabatinas que se realizam às segundas-feiras. As perguntas, como era de se esperar, foram centradas na próstata, o pequeno novelo de encrencas com o qual a Natureza brindou os homens para, ora alguém lhes cobrar uma pensão alimentar, ora aninhar um câncer que os levará ao cemitério. Próstata é sinônimo de problema. Lá pelas tantas, Dráuzio Varela, um dos entrevistadores, certeiro como um tiro de lazarina, fez um comentário cáustico e preciso: “A próstata é a melhor prova de que a Natureza não programou o homem para viver mais de meio século. A partir dos 50 anos de idade, ela começa a crescer, comprime a uretra e pode evoluir para um câncer fatal”. Não era a voz de um palpiteiro; era uma sentença irrecorrível. No final do programa, um consenso entre os sábios: todos concordaram que, a despeito dos progressos da medicina, o único exame “confiável” continua sendo o do “toque”, eufemismo que não suaviza nem o desconforto nem o constrangimento do “tocado”.

Ao adentrar o portal dos sessenta anos, tornei-me, compulsoriamente, membro do clube do toque, título que não me envaidece. São as despesas do envelhecer. Deixemos, porém, de literatice e vamos aos fatos. Na semana passada, liguei para o consultório de um urologista a fim de marcar um exame de rotina. A secretária, com aquela impessoalidade de quem trata seres humanos como simples cifras, fez a pergunta padrão: – Qual é o seu convênio? Ao ouvir a resposta, adiantou: – Só no final do mês. Recorri ao expediente que não nunca falha: – E particular? Com voz menos metálica, respondeu: – Podemos marcar para depois de amanhã. Gato escaldado, perguntei: – Quanto custa a consulta? Em vez de uma resposta, outra pergunta: – A normal ou a econômica? Tremi nos tamancos: aquilo seria um consultório médico ou um bazar turco? Apavorado, esqueci a pergunta e lembrei-me das duas vezes na vida em que optei pela classe econômica e, literalmente, me ferrei. A primeira, no Recife. Certa feita, hospedei-me num “hotel econômico” na Praia da Boa Viagem. Além de ter de carregar a bagagem, serviram-me um café da manhã indigesto. Tive uma reira de afinar as tripas. Como no hotel não havia água no banheiro, deixei uma obra (naquela acepção sertaneja do termo) monumental de lembrança. A segunda: um vôo num daqueles paus-de-arara da BRA, de triste memória. Saí de Porto Alegre no início de tarde e, depois de “passear” por Curitiba, São Paulo, Brasília, Goiânia, Belém e São Luís, cheguei a Teresina na madrugada do dia seguinte, estropiado e faminto. Nesse périplo, serviram-me apenas duas barrinhas de cereal e dois copos de guaraná choco. Pensei comigo: exame de próstata na “classe econômica” deve ser dose pra levantar defunto…

Esse incidente serviu para reforçar-me a convicção de que, num mundo de economia globalizada, já não existem as figuras do indivíduo, da pessoa, do cidadão. Existem apenas os consumidores e os não-consumidores. Para não me afastar do universo proctológico, aos primeiros, vaselina importada; aos segundos, areia grossa. São as leis do mercado. As inexoráveis leis do mercado…

Cineas Santos

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