Archive for dezembro, 2008

Desejo de Natal

Cartum: Maurício Pestana

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UM TEMA INCÔMODO

Mais do que louvável a iniciativa da Sociedade Brasileira de Bioética – regional do Piauí, em promover um fórum para discutir o suicídio, tema tratado sempre de forma medrosa e envergonhada. É que o suicídio tem o estranho poder de provocar em nós sensação de assombro, impotência, raiva e culpa. O problema é que, a despeito da precariedade das estatísticas, consta que Teresina é a capital brasileira com o mais elevado índice de suicídio do país, notadamente entre os jovens. O mínimo que se pode fazer é tentar entender o que está acontecendo com a moçada. Assim, nos dias 5 e 6 do corrente, realizou-se , no auditório da FACINE, o fórum Bioética e Suicídio, tendo como conferencistas os doutores Fábio Gomes Matos e Francisco de Assis Santos Rocha, autoridades no assunto. Como simples palpiteiro, também fui convidado.

O Dr. Fábio Gomes, cearense, PhD em psiquiatria, proferiu instigante palestra sobre “O suicídio na adolescência”. Além de exibir dados estarrecedores, falou de iniciativas bem-sucedidas como o Pravida, um programa de apoio a pessoas com tendências suicidas, existente em Fortaleza. O Dr. Assis, por seu turno, tratou do “Suicídio e Família”, tema que lhe rendeu tese de mestrado e um excelente livro, recém lançado em Teresina. A platéia, constituída em sua maioria de médicos, participou ativamente, tornando o encontro instigante e produtivo.

Quanto a mim, especialista em coisa nenhuma, incumbiram-me de abordar o tema “Suicídio e literatura”. Confesso que relutei em aceitar o convite, uma vez que, até então, nunca me preocupara em desenvolver nenhum tipo de pesquisa sobre o assunto. Não foi preciso maior esforço para constatar que o suicídio é tema recorrente na literatura ocidental. De Dante Alighieri a H. Dobal, praticamente todos os grandes escritores trataram do assunto, ainda que indiretamente. Shakespeare, Goethe, Tolstoi, Dostoievski, Victor Hugo, Flaubert, Eça de Queiroz, para citar apenas os clássicos. Por oportuno, vale lembrar que o pequeno-grande romance “Os Sofrimentos do Jovem Wherter” (1774), de J. W. Von Goethe, foi acusado de desencadear uma onda de suicídios entre os jovens da Alemanha oitocentista, fato que levou a Igreja a incluí-lo no “índex librorum proibitorum”. Entre nós, o tema figura nas obras de muitos autores: Basílio da Gama, Santa Rita Durão, Castro Alves, Aluísio de Azevedo, Mário de Andrade, Érico Veríssimo e Graciliano Ramos. A exceção mais notável é justamente Machado de Assis, considerado “o mais pessimista dos escritores brasileiros”. Entre os piauienses, encontramos referência ao suicídio em F. Gil Castelo Branco, Álvaro Pacheco, H. Dobal, Assis Brasil, O. G. Rego de Carvalho e Fontes Ibiapina . É possível que apareça em outros autores não mencionados aqui.

Ao final da conversa, absolutamente informal, tentei responder à pergunta que não queria calar: – Um texto literário pode induzir alguém ao suicídio? Sim e não. Depende, naturalmente, do “estado psicológico” do leitor. A função da literatura não é levar ninguém à morte; é tão-somente provocar emoção estética. O mais corre por conta de cada um. Nada além.

Cineas Santos

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DA IGNORÂNCIA AUDACIOSA

Em outro momento, neste espaço, escrevi: moro na Lemos Cunha, uma rua atípica, pelos menos para os padrões teresinenses. Nela, não existe um mercadinho, um bar, uma bodega, uma farmácia, onde se possa comprar uma caixa de fósforos, um maço de velas, uma água mineral, um Cibazol. É uma rua comprida, reta, com muros altos, protegidos por cercas elétricas. Por não ser asfaltada, o tráfico de veículos é pequeno. Os moradores são pacatos e ordeiros; as crianças, poucas e os cães ladram, mas não mordem. A única nota alegre da rua fica por conta dos pássaros que, livres da perseguição dos moleques, fazem festa nas poucas árvores que ainda restam. Trata-se de uma boa rua para agasalhar velhos e pessoas a caminho do esquecimento. Estou no endereço certo.

Sobre o cidadão que lhe dá nome, levianamente, afirmei: Joaquim Lemos Cunha foi um tenentão que, como interventor interino (sic), governou o Piauí de 29 de janeiro a 21 de maio de 1931. Segundo consta, as marcas mais visíveis de sua brevíssima administração foram as deixadas por suas esporas no assoalho do palácio do governo. Como se pode perceber, fiz humor barato, recurso típico dos desinformados. Na semana passada, Kenard Kruel, o internauta da caverna, mostrou-me os originais de uma alentada biografia de Eurípides de Aguiar, prestes a ser editada pela Zodíaco. Ao folhear o calhamaço, deparei-me com uma crônica publicada pelo velho Eurípides, no Jornal Piauí, sobre Lemos Cunha, em agosto de 46. Baita surpresa.

Mais afeito a vergastar com palavras duras os desafetos do que a elogiar administradores, Eurípides de Aguiar, um polemista terrível, abre uma exceção e faz uma verdadeira louvação do interventor Joaquim Lemos Cunha. Entre outras coisas, afirma: “De inteligência esclarecida, com forte dose de bom senso e intenções honestas, revelando, sobretudo, um grande coração transbordante de bondade, Lemos Cunha conseguiu se equilibrar no meio do turbilhão reinante”.

Deve ter sido extremamente difícil para o interventor interino administrar o caos que se instalou no Piauí com a revolução de 30. De um lado, deveria cumprir a expressa determinação de Juarez Távora para “não proceder muitas alterações no quadro administrativo montado pelo antecessor (Humberto de Areia Leão)”; do outro, atender aos interesses do Des. Vaz das Costa, que lhe dava sustentação política no Estado. A despeito disso, segundo Eurípides, “errou como todos erram, mas acertou mais do que muitos”. Em menos de quatro meses de governo, criou a Faculdade de Direito do Piauí; reorganizou o Tribunal de Justiça do Estado; pôs ordem na Polícia Militar, usada por governantes inescrupulosos para perseguir adversários políticos e ainda encontrou meios para estender o abastecimento de água à população mais pobre de Teresina.

Eurípides termina sua crônica afirmando: “Pobre entrou para a interventoria e pobre saiu, de mãos limpas e bolsos vazios. Ao deixar o governo, foi forçado a vender uma bicicleta para pagar o aluguel da casa em que residia”.

Por tudo isso, Lemos Cunha merece respeito e não a chacota de cronistas de meia-tigela. Tem razão nosso esculápio gracejador quando afirma: “Toda ignorância é audaciosa”. Assino embaixo.

Cineas Santos

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