Lançamento de livro, pelo menos para mim, é sempre a possibilidade de um encontro com o insólito. E não falo das figurinhas exóticas, da discurseira rebarbativa, da hipocrisia reinante. É que sempre me acontece algo diferente. No último a que compareci, fui abordado por um cidadão que, até então, eu nunca vira mais magro. Espaçoso como um Airbus, o moço ocupava todos os espaços disponíveis. Quando me dirigi à mesa onde se vendiam os livros, o cidadão me segurou pelo braço e, como um inspetor de ensino, inquiriu-me: – É verdade que você não gosta de meninos? Incontinenti, lembrei-me de uma coluna assinada pelo Millôr, cujo título era “Ministério das perguntas cretinas”. Como não sou de deixar para depois, respondi de bate-pronto: – É verdade, sim. Quem gosta de meninos é pedófilo. Assustado, o espaçoso soverteu-se entre os convidados. É escusado dizer que, nessa altura do campeonato, a versão que corre por aí deve ser outra: o moço dirá que me fez uma pergunta inocente e que foi “escoiceado” por mim publicamente. Fazer o quê?
Se a pergunta tivesse sido: – É verdade que o senhor não gosta de crianças? Eu teria respondido: – Gosto tanto que costumo tratá-las com o maior respeito. No meu entender, a forma mais respeitosa de tratar uma criança é não invadir o seu mundo; é não considerá-la uma espécie de “brinquedo de adulto”. Sair por aí beijando criancinhas ( de preferência, sujas e desnutridas)é expediente de político populista em período de campanha eleitoral. Particularmente, condeno até o velho hábito, arraigado entre nós, de entregarmos nossos filhos pequenos aos amigos. Para a criança, trata-se de uma violência. Ao passar das mãos carinhosas dos pais para os braços de um “estranho”, a criança deve-se sentir-se abandonada, entregue à própria sorte. Falta-lhe, naturalmente, a capacidade de entender esse gesto “civilizado”. Isso eu nunca fiz com o meu filho nem faço com os filhos de ninguém. Se isso é não gostar de crianças, então eu não gosto.
Minha maneira de demonstrar carinho e respeito pelas crianças revela-se nos textos que escrevo para elas. O livrinho O Menino que descobriu as palavras (Editora Ática) já esteve nas mãos de milhares de crianças de todo o país. Hoje, é considerado uma referência entre os livros infantis editados no Brasil. Na 22ª reimpressão, o livro me rendeu milhares de amigos mirins. O sucesso do livrinho se deve, em grande parte, às belíssimas ilustrações de Gabriel Archanjo, meu irmão mais querido. Agora, tendo como parceiro Antônio Amaral, estou entregando aos jovens leitores Ciranda Desafinada (Editora Escala), um punhado de poemas líricos, na verdade, pequenas fábulas poéticas. Segundo os editores, “Ricamente ilustrado, Ciranda Desafinada compõe-se de poemas simples, alegres, pequenas fábulas poéticas, tendo os animais como personagens. Mais que um belo livro infantil, uma clara demonstração de respeito à inteligência do público a que se destina”.
O livro será lançado, em Teresina, no próximo dia 6 de fevereiro. Espero, de uma vez por todas, que, depois de lê-lo, ninguém mais me faça a impertinente pergunta que tanto me aborrece. Respeito é bom e (quase) todo mundo gosta.
Cineas Santos