Archive for janeiro, 2009

RESPEITO É BOM E EU GOSTO

Lançamento de livro, pelo menos para mim, é sempre a possibilidade de um encontro com o insólito. E não falo das figurinhas exóticas, da discurseira rebarbativa, da hipocrisia reinante. É que sempre me acontece algo diferente. No último a que compareci, fui abordado por um cidadão que, até então, eu nunca vira mais magro. Espaçoso como um Airbus, o moço ocupava todos os espaços disponíveis. Quando me dirigi à mesa onde se vendiam os livros, o cidadão me segurou pelo braço e, como um inspetor de ensino, inquiriu-me: – É verdade que você não gosta de meninos? Incontinenti, lembrei-me de uma coluna assinada pelo Millôr, cujo título era “Ministério das perguntas cretinas”. Como não sou de deixar para depois, respondi de bate-pronto: – É verdade, sim. Quem gosta de meninos é pedófilo. Assustado, o espaçoso soverteu-se entre os convidados. É escusado dizer que, nessa altura do campeonato, a versão que corre por aí deve ser outra: o moço dirá que me fez uma pergunta inocente e que foi “escoiceado” por mim publicamente. Fazer o quê?
Se a pergunta tivesse sido: – É verdade que o senhor não gosta de crianças? Eu teria respondido: – Gosto tanto que costumo tratá-las com o maior respeito. No meu entender, a forma mais respeitosa de tratar uma criança é não invadir o seu mundo; é não considerá-la uma espécie de “brinquedo de adulto”. Sair por aí beijando criancinhas ( de preferência, sujas e desnutridas)é expediente de político populista em período de campanha eleitoral. Particularmente, condeno até o velho hábito, arraigado entre nós, de entregarmos nossos filhos pequenos aos amigos. Para a criança, trata-se de uma violência. Ao passar das mãos carinhosas dos pais para os braços de um “estranho”, a criança deve-se sentir-se abandonada, entregue à própria sorte. Falta-lhe, naturalmente, a capacidade de entender esse gesto “civilizado”. Isso eu nunca fiz com o meu filho nem faço com os filhos de ninguém. Se isso é não gostar de crianças, então eu não gosto.
Minha maneira de demonstrar carinho e respeito pelas crianças revela-se nos textos que escrevo para elas. O livrinho O Menino que descobriu as palavras (Editora Ática) já esteve nas mãos de milhares de crianças de todo o país. Hoje, é considerado uma referência entre os livros infantis editados no Brasil. Na 22ª reimpressão, o livro me rendeu milhares de amigos mirins. O sucesso do livrinho se deve, em grande parte, às belíssimas ilustrações de Gabriel Archanjo, meu irmão mais querido. Agora, tendo como parceiro Antônio Amaral, estou entregando aos jovens leitores Ciranda Desafinada (Editora Escala), um punhado de poemas líricos, na verdade, pequenas fábulas poéticas. Segundo os editores, “Ricamente ilustrado, Ciranda Desafinada compõe-se de poemas simples, alegres, pequenas fábulas poéticas, tendo os animais como personagens. Mais que um belo livro infantil, uma clara demonstração de respeito à inteligência do público a que se destina”.
O livro será lançado, em Teresina, no próximo dia 6 de fevereiro. Espero, de uma vez por todas, que, depois de lê-lo, ninguém mais me faça a impertinente pergunta que tanto me aborrece. Respeito é bom e (quase) todo mundo gosta.

Cineas Santos

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OS DESLIMITES DA VIOLÊNCIA

25 de dezembro de 2008. Por volta das 20 horas, os fiéis deixaram a Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, no bairro Vermelha, com os corações em festa: o Salvador do Mundo era nascido. Acreditar ou não nessa história é uma questão de fé. E a fé, como se sabe, foge ao âmbito da racionalidade. Mas esta, infelizmente, não é uma história de racionalidade. Não passa de uma demonstração de brutalidade e desrespeito levada às últimas conseqüências. Meia hora após a saída dos fiéis, quando o sacristão tomava as últimas providências para fechar a igreja, um infiel, na acepção mais infame do termo, adentrou a igreja e, num átimo, danificou duas imagens que adornavam o altar-mor. Dois anjos, magistralmente esculpidos em madeira de lei por Mestre Dezinho. Por quê? Até o momento, a polícia ainda não encontrou a resposta.

Posteriormente, ficamos sabendo que o ato de vandalismo não se destinava especificamente à arte de Dezinho. Na mesma data, mais duas igrejas de Teresina foram atacadas: a de São José, na Vila Operária e a de São Pedro, no bairro homônimo. Nos três casos, não houve furto de qualquer objeto, mas a simples e deliberada intenção de danificar imagens sagradas. Um surto de intolerância religiosa? Outra pergunta sem a necessária resposta. Até onde se sabe, Teresina é uma cidade aberta ao ecumenismo. A intolerância não é pecha que assente bem nos teresinenses. Há alguma coisa errada nessa história.

Deixando de lado a questão da intolerância religiosa, é assustador constatar que a violência que nos acossa e inferniza a vida está extrapolando os limites do tolerável: já não poupa nem a arte. Quando isso acontece, é sintoma claro de que algo muito grave está ocorrendo. Destruir imagens, mesmo as réplicas de gesso, é bem mais que simples vandalismo; é nítida demonstração de desapreço pelo que de mais sublime a inteligência humana é capaz de conceber. Quem constrói uma imagem, independentemente do seu valor artístico, está tentando fazer algo capaz de provocar em nós uma emoção estética. Tal sensação, até onde se sabe, é privativa dos seres humanos.

O que há de pior na violência é o fato de, dependendo de sua freqüência e intensidade, acabarmos nos acostumando com ela. A mídia, por seu turno, sob o pretexto de combatê-la, simplesmente a massifica, conferindo-lhe lugar de destaque nos noticiários. De tanto ver e ouvir histórias de brutalidade e violência, passamos a encará-las como algo “normal” ou “inevitável”. Quando isso ocorre, estamos perdendo a “poesia de ser gente”, como diria o poeta. O caso das imagens destruídas nas igrejas de Teresina é só uma ponta do iceberg. A cidade está literalmente mergulhada num caldeirão de violência prestes a explodir. Há milhares de jovens sem quaisquer perspectivas vagando como zumbis na periferia de Teresina. Precisamos agir e reagir antes que seja tarde demais. E não bastam, como pregam alguns, mais polícia nas ruas, mais repressão, mais truculências. É preciso, antes de tudo, acenar aos sem-perspectivas com a possibilidade de voltarem a sonhar. A educação e a cultura podem ser o caminho mais curto. Alguém duvida?

Cineas Santos

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