Decididamente preciso aprender a conter-me, a calar-me, a travar a matraca. Figura, no folclore da família, a versão de que até os dois anos de idade não demonstrei o menor interesse pela língua pátria. Chegaram a julgar-me mudo. Consta, no entanto, que eu me entendia bastante bem com um gato pardacento, com um vira-lata bandoleiro e, principalmente, com uma cabrita enjeitada. Sem comércio com os adultos, deambulávamos pelos desvãos da casa como sombras errantes. Vai que um dia, uma tia industriosa resolveu recorrer a uma simpatia, muito comum no sertão, para destravar línguas e curar mudez incausada: dar ao vivente água num chocalho. Até aí, nada de extraordinário: tal simpatia era prática recorrente naquele mundinho sem porteiras. O problema é que a tia me deixou de posse do chocalho. Na metade do dia, bebi um quarto da água da chuva armazenada num alguidar. Por pouco, não me afoguei por dentro.
Uma semana mais tarde, desandei a falar sandices com tal desenvoltura que meu pai, um sertanejo de hábitos morigerados, não conteve o entusiasmo: “Esse menino vai acabar político”. Precisa e exata como a palavra não, dona Purcina atalhou: “Quando muito, chegará a camelô”. Acertou em cheio: não passo de um camelô falastrão e destemperado que, com muita frequência, mais afugenta que atrai fregueses. Fazer o quê?
Na semana passada, por exemplo, envolvi-me em dois incidentes bastante desagradáveis. Convidado a participar de um debate com estudantes de uma faculdade da rede privada, dividi a empreitada com o glorioso João Cláudio Moreno. A bem da verdade, uma temeridade: os dois sofremos de incontinência verbal. A diferença é que o João é muito mais competente do que eu e infinitamente mais engraçado. Caberia a ele falar de ética, cabendo-me a incumbência de tratar da importância da leitura na formação do cidadão. Durante umas duas horas, proseamos com a moçada sem maiores problemas. No final da arenga, a coordenadora do evento me pediu que lesse um texto de Pablo Neruda, “muito apropriado para o momento”. Peguei o texto e, pelo cheiro, percebi tratar-se de um “autêntico” Neruda paraguaio. O texto era uma xaropada indigesta, misto de autoajuda com corrente da felicidade, desses que se encontram aos milheiros na internet, sempre de “autoria” de um figurão: Borges, Drummond, Veríssimo, Millôr, etc. Neguei-me a ler o texto e conclamei os alunos a não copiarem nem reproduzirem textos pescados na internet sem conferir a legitimidade da autoria. Constrangimento total.
No dia seguinte, passei no auditório do SEBRAE para cumprimentar uma professora amiga, que ministrava palestra sobre o malsinado Acordo Ortográfico. A cidadã acabara de fazer sua explanação e propôs aos alunos a correção de um exercício. Pedi permissão para discordar de uma palavra cujo emprego do hífen me pareceu inadequado. A professora se sentiu “ofendida, agredida e desrespeitada”. Nos dois casos, eu tinha razão, mas devo ter errado no tom. Foi necessário um dilúvio para apagar a fogueira que, involuntariamente, acendi. Por essas e outras, decidi impor-me uma espécie de “silêncio obsequioso” como faz a Santa Madre Igreja com os padres rebeldes. A partir de agora, diariamente, passarei duas horas sem falar nem com os meus botões. Calado, posso passar por sábio. Assim seja.
Cineas Santos