Archive for março, 2009

LOUVAÇÃO DO MALUQUINHO

Março de 1939. No ar, já se percebiam prenúncios de um conflito que se arrastaria por seis anos, ceifaria milhões de vida e deixaria cicatrizes indeléveis na memória da humanidade. Indiferente aos ruídos do mundo, na manhã do dia 19 daquele mês, nascia um menino miúdo com a indeclinável vocação para passarinho. Por ter nascido no dia do “Casto Esposo de Maria”, deram-lhe o nome de José. Contudo, aos olhos da mãe, não bastava a proteção do santo, que é sinônimo de resignação e humildade, seria necessário alguém suficientemente lúcido para pavimentar-lhe o caminho. A escolha recaiu sobre Elias, o mais austero e determinado dos profetas. Sob dupla proteção, José Elias atirou-se à vida de peito aberto como quem mergulha em águas conhecidas.

Muito cedo, revelou sua vocação (como direi?) franciscana. Aos três anos de idade, os pais o levaram à fazenda da família. Entretidos com os parentes, descuidaram-se, por alguns minutos, do pequeno Zé que, impávido, rumou para o curral das vacas onde literalmente mergulhou num mar de merda. Não fosse a presteza do vaqueiro da fazenda, certamente teria abreviado sua passagem por esse val de lágrimas. Agora, sim, ungido com bosta de boi, estava pronta para estrear como menino maluquinho no teatro do mundo.

Esse bem que poderia ser o parágrafo inicial de uma biografia de José Elias Arêa Leão, o mais simples, solidário e generoso dos viventes nascidos na Chapada do Corisco. Mas isso ainda diz pouco desse moço bem-nascido que, alheio às pompas do mundo, fugiu dos holofotes e ignorou as convenções para misturar-se aos humildes. Com seu sorriso inconfundível, Elias chega aos 70 anos com o espírito travesso de um moleque prestes a perpetrar mais uma reinação.

Não existisse de verdade, mais cedo ou mais tarde, teria sido inventado pelo Ziraldo. Para tanto, bastariam a cabeça do Menino Maluquinho e o coração do Jeremias, o bom. O corpo poderia ser emprestado de qualquer moleque entanguido, desses que perambulam descalços por ruas e becos de Teresina. Alegre, irrequieto, solidário e feliz, o septuagenário Zé Elias, a quem o mestre Paulo Nunes prefere chamar de Zezé Leão (alusão a um parente com fama de bravo), ainda não sabe o que vai ser quando crescer. Se depender dele, será apenas um menino velho que não dá guarida à tristeza, não agasalha ódio no embornal do peito e teima em acreditar que a felicidade mora logo ali na próxima esquina.

Com o mesmo sorriso com que acolhia a todos em seu gabinete de Secretário de Cultura do Piauí, Zé Elias dividia com os servidores mais humildes daquela casa os louros de cada conquista. Ia um pouco além: dividia o próprio salário com os mais necessitados como se fosse um riquinho pródigo. Se toda unanimidade é burra, como afirmava Nelson Rodrigues, Elias é o troféu de “burrice” que fazemos questão de exibir. Estimado de todos, esse cidadão do mundo dignifica a palavra amizade.

Cineas Santos

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FÁBULA


O mar
céu subterâneo
cheio de mistérios
e estrelas apagadas

No fundo claroescuro das águas
algumas estrelas caídas viram peixes
outras
os peixes comem.

Um dia
um pescador comeu um peixe
que havia comido uma dessas estrelas
e toda a sua fome se fez luz

(Nelson Nunes – Baião de Todos)
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AS DESPESAS DO ENVELHECER (II)

Que me perdoem os que fazem apologia da “melhor idade”. Prefiro o humor rascante do velho Rubem Braga: “Envelhecer é uma merda”. E não me venham com o argumento consolativo de que “a velhice nos traz sabedoria”. De que adiante ser “sábio” se ninguém o leva a sério? Ademais, pelo menos no meu caso, a senescência não me acrescentou um côvado de sabedoria. Estou (por que não confessar?) cada vez mais parvo, mais bronco, mais tosco. Deve ser defeito de fabricação…

O que me segura é o humor. Aprendi a rir de mim mesmo e o faço com alguma frequência. Motivos não me faltam. Há dois anos,por exemplo, aconteceu-me algo muito engraçado. Numa noite que não prometia nada, resolvi assistir a um filme que se exibia num dos cinemas de Teresina. Desacompanhado, entrei na fila que, de cara, me pareceu festiva e colorida demais para o meu gosto. Não sem razão: o filme era nada menos que Femme Fatale, com a sinuoso e insinuante Rebecca Ranijn que, logo no início do filme, protagoniza uma caliente cena de lesbianismo explícito de tirar o fôlego. Ao chegar ao guichê, a mocinha me olhou com olhar perscrutador, conferiu-me a carapinha recoberta de algodão, olhou para os ingressos, voltou a encarar-me e, levemente constrangida, arriscou: – Senhor, posso lhe fazer uma pergunta indiscreta? Tremi nos tamancos. Meu Deus, e se a cidadã me perguntar se sou gay ou apenas simpatizante? Como responder a esse tipo de pergunta? Se alguém tem algum problema mental, por exemplo, e insiste em afirmar que não é “louco”, estará apenas apressando a internação nalguma instituição psiquiátrica. Preparei-me para o pior. A mocinha, vendo meu embaraço, explicou: – Se o senhor tiver mais de 60 anos, paga apenas meia… Paguei inteira e pude assistir ao filme sem maiores traumas.

Ao cruzar o nefasto cabo do condor, pensei com meus botões: pelos menos terei “privilégio” nos aeroportos e nas filas dos bancos. Nada mais enganador: nos aeroportos, tão logo os agentes abrem a “porteira”, os apressadinhos atropelam os que tropegamente tentam chegar à aeronave. Nos bancos, a situação é um pouco pior, por três razões. A primeira delas: a população dos idosos está crescendo em ritmo acelerado; a segunda: os velhos são mais lentos, o que retarda o avanço da fila; a terceira: filhos e netos inescrupulosos exploram os idosos, encarregando-os de pagar toneladas de carnês de todo gênero. A fila simplesmente cria raízes e não anda.

Na semana passada, entrei na fila dos “privilegiados” e me preparei para o pior. À minha frente, umas dez pessoas arrastavam-se como lesmas estropiadas. Penei por mais de uma hora sem ter a quem recorrer. Mais uma vez, salvou-me o humor. Na fila, aprendi com um cidadão de 76 anos que não há remédio mais eficiente para “esquecimento” (Alzheimer ) do que chá de pó de couro de Jacaré. Como se pode ver, fila também é cultura… Naquela fila, que não avançava, apenas um cidadão permanecia feliz e indiferente aos rugidos do mundo: um bebê que, gulosamente, sugava a teta da mãe. Por um segundo, senti a agulhada da inveja. Meu Deus, por que me incluir no rol dos senescentes quando eu estaria bem mais confortável entre os lactentes? Ainda bem que Deus, que é muito velho, também não nos leva a sério.

Cineas Santos

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A DESCOBERTA DA POESIA

O lugar onde nasci não poderia ser mais menos poético: um chapadão infestado de cupinzeiros e socas de alho-bravo, situado num ponto equidistante entre o nunca e o nada. Não bastasse isso, ostentava o mimoso nome de Lagoa dos Tubis. Dona Purcina, que acreditava no poder transmudador das palavras, decidiu rebatizar a gleba com o nome de Campo Formoso. Com sua vocação de matriarca, atraiu parentes, aderentes, agregados e afins. Em pouco tempo, o lugar tornou-se habitável. Ainda assim, ali faltava quase tudo, principalmente água potável e livros. O nosso universo vocabular era indigente, para dizer o mínimo.

Um exemplo: o xingamento mais tenebroso que conhecíamos era infeliz. Quando se pretendia reduzir alguém a nada, bastava xingá-lo de “infeliz sem sorte”. A razão parecerá risível: simplesmente desconhecíamos o vocábulo feliz. A despeito disso, como no poema “Vício na Fala”, de Oswald de Andrade, em que os personagens diziam “teiados” e construíam telhados, sem conhecermos a palavra feliz, às vezes, a felicidade nos visitava…

À noite, nos meses de estio, sentávamos na calçada da casa grande para debulhar milho, feijão, ou simplesmente prosear um pouco, “ gozando a fresca da noite”. Para animar a conversa, os mais velhos contavam histórias escabrosas, tendo como personagens lobisomens, caiporas, mulas-sem-cabeça, etc. Não era propósito deles aterrorizar as crianças; era a pobreza do repertório. Aterrorizados, os meninos encharcávamos as redes puídas. E a noite era um percutir de cascos, uivos lancinantes, um nunca amanhecer…

Numa daquelas noitadas, a tia mais nova, que se chama Odete, resolveu cantar (isso mesmo) uma história fabulosa: a de um moço corajoso que, nas asas de um pavão misterioso, raptou a filha de um conde rico e soberbo nos longes da Turquia. Repetindo Bandeira, tive, naquele momento, o meu primeiro alumbramento. Experimentei uma sensação indescritível que, só muito mais tarde, fiquei sabendo tratar-se de emoção estética. Naquela noite a poesia entrou em minha vida, alojou-se em meu coração para sempre. Mal aprendi a gaguejar as palavras, atirei-me à leitura dos folhetos com a fome dos aflitos. Mais tarde, no velho Ginásio Dom Inocêncio, descobri, num livrinho da Aída Costa, um punhado de poetas: Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Olavo Bilac e um cidadão de nome estranho – Alphonsus de Guimaraens – com a louca Ismália, que me fazia chorar. Os poemas eram poucos. A solução era ler e reler até decorá-los.
Muito tempo depois, já em Teresina, numa antologia escolar, li o “Poema de sete faces”, do Drummond. Uma revelação: descobri que a poesia podia libertar-se da jaula da metrificação sem cair no prosaísmo. Com o tempo, vieram os outros, entre eles, Bandeira e Quintana, os mais amados.

Há pouco tempo, li um poema de J. Cabral de Melo Neto, “Descoberta da Literatura”, no qual ele confessa que descobriu a poesia lendo a “letra analfabeta” dos folhetos para os trabalhadores do engenho da família. Partindo do cordel, Cabral tornou-se um dos maiores poetas brasileiros. Quando a mim, imprestável para escrever poesia, tornei-me apenas leitor, editor e, principalmente, camelô dos bons versos dos outros, o que me basta. Quintana tem razão: “A poesia é a invenção da verdade”.

Cineas Santos

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MARIA MARIA

Impossível ouvir a famosa canção de Milton Nascimento e Fernando Brandt e não pensar imediatamente em dona Maria Luíza dos Santos Silva, uma sertaneja que já viveu muitas vidas,
todas elas tão severinas que, para driblar a morte, teve de reinventar-se como Maria da Inglaterra, que “é o som, é a cor, é o suor/ é a dose mais forte e lenta/ de uma gente que ri quando deve chorar/ e não vive, apenas aguenta”.

Maria da Inglaterra acaba de perder metade do pouco que a vida lhe deu: o poeta Otacílio, amigo, amante, parceiro e sua “memória”. Era ele quem decorava e escrevia as canções da rainha. Teria, portanto, todos os motivos para desistir de vez e cair no esquecimento. Mas Maria, que se fez artista depois uma visão, tem um anjo que a protege, um anjo peralta, vadio e piadista, que atende pelo nome de Zé Dantas. Foi dele a iniciativa de gravar o CD “O Peru Rodou”, sonho que dona Maria perseguiu por quase 30 anos. E agora, quando o manto da noite ameaçava encobri-la de vez, Dantas fê-la ressurgir das cinzas e brindar-nos com o luminoso “Alegria de Viver”, um hino à vida.

Cercada por um time de craques do naipe de Geraldo Brito, Adelson Viana, Vaguinho, Anderson, Jeová, Gonzaga Lu, Jerlane Costa e Paulo Dantas e com as participações de Lázaro do Piauí e João Cláudio Moreno, Maria da Inglaterra sacode a poeira e dá a volta por cima. Está viva, inteira e vibrante como nunca. Falta-me autoridade para julgar as qualidades deste CD, mas não a sensibilidade para captar a beleza de “Dei uma volta no mundo” e “Pancada desta ponte”, para citar apenas dois exemplos. Longa vida e muito sucesso à “rainha das canções do Piauí”. Ela fez por merecer.

Escrevi essa notinha a pedido do Zé Dantas para capa do CD de Dona Maria, muito antes de ocupar o cargo de presidente da Fundação Mons. Chaves. O CD ficou pronto e, quando nos preparávamos para lançá-lo, recebemos a informação de que uma equipe da produção do Programa do Faustão estava a caminho de Teresina para fazer uma matéria especial com a “rainha das canções do Piauí”. Agora, mais do que nunca, acredito na história que a Maria me contou quando a entrevistei em 2002. “Depois da visita do disco voador, dormi e sonhei. No sonho, aparecia um rapaz e uma moça. A moça chegava bem perto de mim e falava: – Maria, eu vim lhe chamar para nós cantar. Eu falei: – Eu não sei cantar. Ela me disse: – Eu lhe ensino. Eu
canto e você me acompanha. E lhe digo mais: a partir de hoje, você vai aprender a fazer música em qualquer lugar onde você estiver. Você vai sofrer muito, mas em todo lugar onde você estiver, nós vamos estar com você. Nós vamos lhe ajudar.Quando você subir na vida, quando estiver por cima, eu quero que você more um ano na Praia da Boa Viagem”. Maria da Inglaterra ainda não está “por cima”, mas uma aparição no Programa do Faustão certamente dará maior visibilidade a seu trabalho. Só espero que os etês não resolvam abduzi-la de vez. Sem a nossa rainha, o Piauí nunca mais será o mesmo.

Cineas Santos

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