Neste espaço, já falei de como a poesia aterrissou em minha vida nas asas de um Pavão Misterioso, numa noite de puro encantamento, no remoto sertão do Caracol. A partir de então, tornei-me um voraz devorador de poesia. No ginásio, a única disciplina que me interessava era a literatura, mais especificamente, a leitura de poemas, atividade que não constava no currículo. No livrinho da Aída Costa, descobri um cidadão de nome impronunciável (Menotti del Picchia), autor de um punhado de versos que me emocionam ainda hoje e que guardo na memória: “Juca olhou para a terra muda e fria/pela voz do silêncio ela também dizia:/ ‘Juca, és meu! Não fujas que eu te sigo…/ Onde estejam os teus pés, eu estarei contigo”. Decorei praticamente todos os poemas da seleta. É certo que, algumas vezes, não atinava com o sentido das palavras de alguns versos, o que só aumentava o fascínio dos poemas. Levei uma vida para entender esse verso de estranha beleza: “Hão de chorar por ela os cinamomos”, de Alphonsus de Guimaraens.
Ao me descobrir incapaz de compor um verso aceitável, decidi tornar-me um semeador de poesia, uma espécie de camelô dos bons versos alheios. E assim tem sido. Confesso que um dos maiores desapontamentos de minha vida deu-se quando mostrei um poema do Bandeira a um colega de faculdade. Sem nenhum constrangimento, o moço me confessou: “Não fui educado para ler poesia. Isso não me diz
absolutamente nada”. Ex-seminarista e, mais tarde, professor de Filosofia, o cidadão não estava fazendo tipo: a poesia simplesmente não lhe fazia falta. Anos mais tarde, hospedei em minha casa o brazilianist
Malcolm Silverman, professor de literatura brasileira na universidade San Diego, na Califórnia. O cidadão era PhD em literatura e festejado crítico literário. Com a mesma sinceridade do meu colega de faculdade,
Malcolm me disse: “Não sei ler poesia, por isso só trabalho com ficção”. Atordoado, me perguntei: pode alguém ensinar literatura e não “saber” ler poesia? Diante do meu espanto, o ilustre professor declarou: “Os
americanos somos práticos e objetivos: não perdemos tempo com o que está fora do nosso foco de trabalho”. Estranha gente…
Por essas e outras, engendrou-se a teoria de que “poesia não vende”, logo não há por que editá-la. Certa feita, no Recife, entrei numa bela livraria e perguntei ao moço que me atendeu se havia algum livro do poeta Manoel de Barros. Sem me dar atenção, o rapaz limitou-se a balbuciar um displicente “não”. Para justificar o salário que recebia, mostrou-me alguns tijolos americanos, todos eles constantes na lista “dos mais vendidos” da Veja. Desacorçoado, dirigi-me à estante dos livros de português. Para minha surpresa e alegria, lá estava, entre a Gramática Metódica, de Napoleão Mendes de Almeida, e a Novíssima Gramática, do mestre Cegalla, a Gramática Expositiva do Chão, belíssima antologia do poeta pantaneiro, editada pela Civilização Brasileira. O vendedor nem sequer se deu ao trabalho de conferir o nome do autor.
Com professores que não “sabem” ler poesia e livreiros que não distinguem um poeta de um gramático, é quase um milagre o fato de ainda existir poesia. A despeito disso, ela ainda pulsa, como diria o poeta
Paulo Machado. Eu acrescentaria: pulsa no mesmo ritmo dos nossos corações.
Cineas Santos

