Archive for abril, 2009

DA NECESSIDADE DA POESIA

Neste espaço, já falei de como a poesia aterrissou em minha vida nas asas de um Pavão Misterioso, numa noite de puro encantamento, no remoto sertão do Caracol. A partir de então, tornei-me um voraz devorador de poesia. No ginásio, a única disciplina que me interessava era a literatura, mais especificamente, a leitura de poemas, atividade que não constava no currículo. No livrinho da Aída Costa, descobri um cidadão de nome impronunciável (Menotti del Picchia), autor de um punhado de versos que me emocionam ainda hoje e que guardo na memória: “Juca olhou para a terra muda e fria/pela voz do silêncio ela também dizia:/ ‘Juca, és meu! Não fujas que eu te sigo…/ Onde estejam os teus pés, eu estarei contigo”. Decorei praticamente todos os poemas da seleta. É certo que, algumas vezes, não atinava com o sentido das palavras de alguns versos, o que só aumentava o fascínio dos poemas. Levei uma vida para entender esse verso de estranha beleza: “Hão de chorar por ela os cinamomos”, de Alphonsus de Guimaraens.

Ao me descobrir incapaz de compor um verso aceitável, decidi tornar-me um semeador de poesia, uma espécie de camelô dos bons versos alheios. E assim tem sido. Confesso que um dos maiores desapontamentos de minha vida deu-se quando mostrei um poema do Bandeira a um colega de faculdade. Sem nenhum constrangimento, o moço me confessou: “Não fui educado para ler poesia. Isso não me diz
absolutamente nada”. Ex-seminarista e, mais tarde, professor de Filosofia, o cidadão não estava fazendo tipo: a poesia simplesmente não lhe fazia falta. Anos mais tarde, hospedei em minha casa o brazilianist
Malcolm Silverman, professor de literatura brasileira na universidade San Diego, na Califórnia. O cidadão era PhD em literatura e festejado crítico literário. Com a mesma sinceridade do meu colega de faculdade,
Malcolm me disse: “Não sei ler poesia, por isso só trabalho com ficção”. Atordoado, me perguntei: pode alguém ensinar literatura e não “saber” ler poesia? Diante do meu espanto, o ilustre professor declarou: “Os
americanos somos práticos e objetivos: não perdemos tempo com o que está fora do nosso foco de trabalho”. Estranha gente…

Por essas e outras, engendrou-se a teoria de que “poesia não vende”, logo não há por que editá-la. Certa feita, no Recife, entrei numa bela livraria e perguntei ao moço que me atendeu se havia algum livro do poeta Manoel de Barros. Sem me dar atenção, o rapaz limitou-se a balbuciar um displicente “não”. Para justificar o salário que recebia, mostrou-me alguns tijolos americanos, todos eles constantes na lista “dos mais vendidos” da Veja. Desacorçoado, dirigi-me à estante dos livros de português. Para minha surpresa e alegria, lá estava, entre a Gramática Metódica, de Napoleão Mendes de Almeida, e a Novíssima Gramática, do mestre Cegalla, a Gramática Expositiva do Chão, belíssima antologia do poeta pantaneiro, editada pela Civilização Brasileira. O vendedor nem sequer se deu ao trabalho de conferir o nome do autor.

Com professores que não “sabem” ler poesia e livreiros que não distinguem um poeta de um gramático, é quase um milagre o fato de ainda existir poesia. A despeito disso, ela ainda pulsa, como diria o poeta
Paulo Machado. Eu acrescentaria: pulsa no mesmo ritmo dos nossos corações.

Cineas Santos

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DAS HOMENAGENS QUE NÃO PESAM

Nunca me passou pela cabeça a ideia de ensinar “receita de felicidade” a ninguém. Acredito, contudo, que é possível tornar menos ruins as manhãs de segunda-feira, temperando-as com uma pitada de beleza: basta dedicar alguns minutos à leitura de um bom poema. Levo isso tão a sério que, mal aprendi a enviar um e-mail (tarefa complicada para alguém com o meu histórico), passei a remeter poemas, sempre nas manhãs de segunda-feira, para um punhado de amigos. No início, o número não chegava a uma dezena. Hoje, já ultrapassa à casa dos cem. E, se porventura, me esqueço de um deles, a cobrança é imediata. O que de mais fascinante existe nesse hábito inofensivo é que, como os galos do poema “Tecendo a Manhã”, de João Cabral de Melo Neto, quem recebe o poema o repassa a outros amigos, que o repassam a outros, formando uma teia poética nas manhãs esplendentes. Josevita Tapety, por exemplo, resolveu criar um blog para compartilhar os poemas enviados com o maior número possível de leitores. Até onde sei, não há notícias de que alguém tenha ficado menos feliz por causa de um dos poemas lidos.

Acredito também na máxima do Profeta Gentileza, de saudosa memória, que afirmava: “Gentileza gera gentileza”, entenda-se: tudo gera consequências. Assim, na última segunda-feira (dia 13), recebi uma homenagem que me deixou comovido: pelo menos 100 crianças se juntaram para ler e interpretar alguns poemas do livro Ciranda Desafinada (Escala Educacional) que escrevi em parceria com Antônio Amaral. O livrinho foi adotado no Colégio Pró-Campos e as crianças leram-no com o mais vivo entusiasmo. Foram um pouco além: orientadas pelas professoras, ilustraram alguns poemas e interpretaram uns dois ou três com incrível desenvoltura. A menininha que interpretou a Cigarra, na fábula revisitada, revelou-se uma bela promessa de atriz. Além de saber o texto de cor, deu-lhe vida com uma interpretação graciosa. Para retribuir o carinho da meninada, na quarta-feira (dia 15), levei ao colégio a trupe mambembe “Tá na jura” e o grupo “Valor de PI” para uma apresentação no pátio da escola. A molecada foi ao delírio. Uma manhã para ser lembrada com carinho.

No final do dia, outra homenagem, também ligada ao mundo dos livros. Desta feita, no bairro Angelim onde sob a batuta de Manoel Bezerra da Silva Neto, a comunidade criou e mantém uma bela biblioteca comunitária com mais de 6 mil volumes. Há sete anos, numa casinha de taipa, nascia a Biblioteca Bruno Soares que, com o esforço e a dedicação dos dirigentes da Associação de moradores do Angelim, tornou-se um centro cultural no bairro, uma espécie de usina onírica a serviço da vida. Ali, além de um acervo rico e diversificado, a Associação oferece cursos de computação básica; conserto e manutenção de computadores e acesso à internet gratuitamente. Na festa de aniversário da biblioteca, os diretores resolveram homenagear algumas personalidades Piauienses. Por generosidade, incluíram-me entre elas. Avesso a homenagens, não me recuso a aceitá-las, desde que tenham algo a ver com o que faço. Decididamente, a partir de agora, incluirei o número 13 no rol das minhas lembranças mais gratas. Um dia para não ser esquecido.

Cineas Santos

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Exposição de Zé Rodrigues

Confira a belíssima obra do artista plástico Zé Rodrigues, em exposição na galeria Fenando Costa, Oficina da Palavra, até o dia 30 de abril.

Exposição

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AS FLORES DE LIZ

Sábado, dia 4, “ressuscitamos” o Projeto Picoler, concebido e posto em prática, por curto espaço de tempo (no final de 2002), pela artista plástica Liz Medeiros. O projeto é tão simples, de tão fácil execução e tão generoso em sua proposta que só poderia ter sido gestado pelo cérebro, ou melhor, pelo coração de alguém da estatura de Liz. Eram dez carrinhos de picolé recheados de livros infantis que percorriam as ruas da cidade, paravam em praças e logradouros públicos para propiciar às crianças, notadamente as mais pobres, acesso a um acervo de mais de mil livros. É inconcebível que uma iniciativa de tamanho alcance social tenha sido interrompida “por motivos políticos”. Mas é assim que funcionam as coisas no país.

Mal assumi a presidência da FMC, convoquei a cabroeira para recuperarmos o Picoler. Localizamos os carrinhos, bastante avariados, mas recuperáveis. Todos estavam sem os pneus, mas o acervo (ninguém rouba livros no país) estava preservado. Acrescentamos ao projeto música, teatro, contação de histórias e, na manhã de sábado, acampamos na Vila Irmã Dulce, um dos bairros mais pobres de Teresina. Para fazer jus ao nome do projeto, adicionamos um picolé caseiro para cada criança que participasse da festa. Sucesso absoluto: mas de 600 crianças cantaram, dançaram, ouviram histórias e leram poemas e historinhas. O trem voltou aos trilhos: no dia 18 do mês em curso, estaremos na Santa Maria da Codipi e no bairro Monte Verde, com duas versões do Picoler: uma para crianças e outra para adolescentes. Para estes, além de sessões de leitura, serão oferecidas oficinas de música, dança, teatro e redação criativa. Acreditamos que, num período não muito longo, o projeto chegará aos jovens da terceira idade. Era esse o sonho da Liz. Em parceria com a Fundação Nacional de Humor e com as secretarias da Saúde, do Meio Ambiente e da Juventude, percorreremos os bairros de Teresina distribuindo livros, escovas de dente, mudas de árvores e, principalmente, alegria, esperança.

No dia do relançamento do Picoler, fui procurado por uma jornalista que me pediu “um perfil da Liz Medeiros”. Confesso que tive dificuldade para desincumbir-me da missão. É que a Liz, sendo única, era múltipla. Como artista plástica, não se contentava com o aplauso fácil: estava sempre buscando novas formas de expressão; como cidadã, nunca se omitiu nem perdeu a capacidade de indignar-se diante das injustiças do mundo. No mais, era uma cara de lua cheia de alegria, um sorriso escancarado e uma extraordinária capacidade de se fazer amada de todos. Não fosse lugar comum, diríamos que Liz Medeiros era uma “tempestade de mulher”, alguém com uma alma tão grande, tão transbordante, tão carente de amplidão, que o corpo não conseguiu comportá-la. Um dia, sem aviso prévio, a Liz livrou-se do corpo debilitado e se fez luz. Deixou uma obra que honra e dignifica a cultura piauiense. Deixou um projeto de inclusão cultural que agora leva o seu nome: PROJETO PICOLER LIZ MEDEIROS Deixou, principalmente, uma lição de vida a ser imitada por todos nós. A bênção, Liz/luz.

Cineas Santos

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FLORADA NA CAATINGA

Quem esteve no Teresina Shopping, na semana passada, certamente viu uma magnífica exposição de bordados – Feira de Bordados da Caatinga – obra realizada, com esmero e arte, por mulheres camponesas do sertão do Piauí. Eram colchas, toalhas, guardanapos e lenços de linho, bordados à mão pelas catingueiras de Dom Inocêncio, um dos municípios mais pobre do Brasil. O que, certamente, pouca gente sabe é que, por trás daquelas peças de fino acabamento, esconde-se um nonagenário meio surdo, quase cego, que caminha tropegamente apoiado numa rústica bengala. Trata-se de Manuel Lira Parente, um padre à moda antiga que não hesita em afirmar: “Deus me deu duas mãos para acariciar e abençoar e dois pés para escoicear. Dependendo das circunstâncias, posso usar o que o freguês merecer”. Mais que um simples sacerdote, Pe. Lira tornou-se uma espécie de legenda no sertão do Piauí.

Nascido em Bom Jesus do Gurgueia (PI) em 1919, de uma família rica, para os padrões piauienses, muito cedo fez sua opção preferencial pelos pobres. Recém-ordenado, mudou-se para São Raimundo Nonato onde ajudou a construir o Ginásio Dom Inocêncio, de saudosa memória. Não satisfeito, atribuiu-se a missão de lutar e pela erradicação da pobreza absoluta e do analfabetismo. Acreditava que, com ações inteligentes, poderia minimizar os efeitos das secas no sertão piauiense. Tantas fez que se elegeu prefeito de São Raimundo Nonato (1955-1958). Desencantado com os rumos da política são-raimundense, “exilou-se” no povoado mais pobre e mais remoto do município – Curral Novo, onde vivia um punhado de camponeses à margem de tudo. Encravado no coração do semi-árido, a 120 Km da cidade de S. R. Nonato, Curral Novo não dispunha de água potável, estradas, escolas, igreja, nada. Como diria o poeta Dobal, ali, entre cactos e bromélias, escondiam-se os homens “e os outros bichos esquecidos”.

Em 1963, o Pe. Lira criou a Fundação Ruralista, iniciativa que mudaria a vida daquela gente sofrida e resultaria na criação do município de Dom Inocêncio, em 1989. Prefeito do município recém-criado (em três legislaturas), conseguiu a rara proeza de transformar Dom Inocência em referência nacional na área da educação. Nas escolas mantidas pela Fundação Ruralista, as meninas aprendiam matemática contando os pontos dos bordados que faziam nas aulas práticas. Hoje, mais de 500 mulheres ganham a vida bordando peças que são vendidas em todo mundo. A despeito da idade, o velho pároco ainda encontra forças para perambular pelo Brasil expondo e vendendo as peças criadas pelas catingueiras de sua paróquia.

Já se afirmou, com alguma propriedade, que nenhum homem é maior que sua época. É inegável, contudo, que existem homens capazes de tornar menos ruim a época em que viveram. Padre Manuel Lira Parente é um deles. Sua dedicação, sua fé, sua ação solidária nos levam a creditar na possibilidade da construção de um mundo melhor. Longa vida, pois, a esse velho guerreiro que, ao contrário da maioria dos seus irmãos de credo, luta pela salvação dos homens aqui na terra.

Cineas Santos

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VELHO TEMA

Só a leve esperança, em toda vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

(Vicente de carvalho – Poemas e Canções)

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