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Das muitas coisas que me escapam ao entendimento, duas ocupam lugar de destaque no meu quengo: a Santíssima Trindade e os buracos negros. É certo que também não tenho a mínima idéia de como funciona a bateria que alimenta as lanterninhas dos vaga-lumes, mas isso é perfunctório.
Na primeira aula de catecismo, a irmãzinha tísica falou, escandindo as sílabas: Deus, criador das coisas visíveis e invisíveis, é uno e trino, onipotente e onisciente. Não entendi nada, mas percebi que se tratava de um ser muito complexo. Pouco tempo depois, ouvi de outra catequista uma história fantástica: Santo Agostinho (se não me trai a memória) passeava por uma praia solitária, meditando justamente sobre a Santíssima Trindade, quando viu um menininho pegando água do mar com um dedal e colocando-a num buraquinho que fizera na areia. Não se conteve e perguntou: – O que você está fazendo, meu filho? O menino respondeu candidamente: – Estou botando o mar no buraco. – E Você acha que vai conseguir? Com um sorriso maroto, o menino afirmou: – É mais fácil botar toda água do mar nesse buraquinho do que você entender os mistérios da Santíssima Trindade. Dito isso desapareceu. Era um anjo. É ou não é uma história fantástica? Certa feita, um vigário me disse algo que me tranqüilizou a alma: “Não tente entender racionalmente o que só cabe no âmbito da fé”. Como minha fé é mais rasa que um pires, deixei a questão para os teólogos.
Quanto aos buracos negros (sem trocadilho), parece que buraco é mais em cima. Quando ouvi falar deles pela primeira vez, corri ao Lunário Perpétuo, um manual que explica todas as coisas, principalmente as improváveis. Não encontrei uma linha sobre o assunto. Mais tarde, li numa revista científica que se trata de um fenômeno tão extraordinário que quase fundiu a cuca de Einstein. Foi aí que decidi recorrer ao google, a bíblia dos internautas. Encontrei essa pérola: “Dependendo da massa da estrela originária, existem vários estados finais da evolução. Quando essa massa é superior a três vezes à massa do sol, prevalece a gravitação devido à qual o material comprime-se, sendo que a concentração na região central cresce e muito. As densidades atingidas são inconcebíveis para nós: nestas condições, uma colher de matéria adensada pesa deveras 10 bilhões de toneladas. Dentro de uma certa distância em volta da estrela , qualquer coisa (incluindo a luz) e atraída e engolida. É assim que se forma um buraco negro”. Não entenderam? Como vocês são lentos!
Meu amigo Jarbas, mais conhecido como “o Inviável”, explica isso de forma bem mais simples. Dia desses, encontrei-o, já meio calibrado. Vejam sua teoria: “Os buracos negros existem, sim. E estão bem próximos de nós. Querem um exemplo? Todo mundo, na vida, já perdeu pelo menos uma dúzia de canetas esferográficas, não? Alguém aí já encontrou uma? Umazinha?! Todas elas foram engolidas pelos buracos negros que nos rondam e espreitam. Cuidado com eles, muito cuidado!” Disse isso e jogou mais uma loura estupidamente gelada no buraco negro que carrega na carcaça. Convenhamos que é uma tese para ser levada a sério.
Cineas Santos