Archive for maio, 2009

DAS COISAS QUE NÃO ENTENDO (II)

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Das muitas coisas que me escapam ao entendimento, duas ocupam lugar de destaque no meu quengo: a Santíssima Trindade e os buracos negros. É certo que também não tenho a mínima idéia de como funciona a bateria que alimenta as lanterninhas dos vaga-lumes, mas isso é perfunctório.

Na primeira aula de catecismo, a irmãzinha tísica falou, escandindo as sílabas: Deus, criador das coisas visíveis e invisíveis, é uno e trino, onipotente e onisciente. Não entendi nada, mas percebi que se tratava de um ser muito complexo. Pouco tempo depois, ouvi de outra catequista uma história fantástica: Santo Agostinho (se não me trai a memória) passeava por uma praia solitária, meditando justamente sobre a Santíssima Trindade, quando viu um menininho pegando água do mar com um dedal e colocando-a num buraquinho que fizera na areia. Não se conteve e perguntou: – O que você está fazendo, meu filho? O menino respondeu candidamente: – Estou botando o mar no buraco. – E Você acha que vai conseguir? Com um sorriso maroto, o menino afirmou: – É mais fácil botar toda água do mar nesse buraquinho do que você entender os mistérios da Santíssima Trindade. Dito isso desapareceu. Era um anjo. É ou não é uma história fantástica? Certa feita, um vigário me disse algo que me tranqüilizou a alma: “Não tente entender racionalmente o que só cabe no âmbito da fé”. Como minha fé é mais rasa que um pires, deixei a questão para os teólogos.

Quanto aos buracos negros (sem trocadilho), parece que buraco é mais em cima. Quando ouvi falar deles pela primeira vez, corri ao Lunário Perpétuo, um manual que explica todas as coisas, principalmente as improváveis. Não encontrei uma linha sobre o assunto. Mais tarde, li numa revista científica que se trata de um fenômeno tão extraordinário que quase fundiu a cuca de Einstein. Foi aí que decidi recorrer ao google, a bíblia dos internautas. Encontrei essa pérola: “Dependendo da massa da estrela originária, existem vários estados finais da evolução. Quando essa massa é superior a três vezes à massa do sol, prevalece a gravitação devido à qual o material comprime-se, sendo que a concentração na região central cresce e muito. As densidades atingidas são inconcebíveis para nós: nestas condições, uma colher de matéria adensada pesa deveras 10 bilhões de toneladas. Dentro de uma certa distância em volta da estrela , qualquer coisa (incluindo a luz) e atraída e engolida. É assim que se forma um buraco negro”. Não entenderam? Como vocês são lentos!

Meu amigo Jarbas, mais conhecido como “o Inviável”, explica isso de forma bem mais simples. Dia desses, encontrei-o, já meio calibrado. Vejam sua teoria: “Os buracos negros existem, sim. E estão bem próximos de nós. Querem um exemplo? Todo mundo, na vida, já perdeu pelo menos uma dúzia de canetas esferográficas, não? Alguém aí já encontrou uma? Umazinha?! Todas elas foram engolidas pelos buracos negros que nos rondam e espreitam. Cuidado com eles, muito cuidado!” Disse isso e jogou mais uma loura estupidamente gelada no buraco negro que carrega na carcaça. Convenhamos que é uma tese para ser levada a sério.

Cineas Santos

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A OPORTUNA LEMBRANÇA DE MACHADO

Com a autoridade de quem já adentrou o solar da senescência, posso assegurar-vos que a velhice não nos traz sabedoria alguma nem nos faz merecedores do respeito ou da reverência dos mais jovens. Num país como o nosso, onde grassa a síndrome de Dorian Gray, envelhecer é quase uma praga. De qualquer forma, há um consolo: não chegar à velhice é um pouco pior. É certo que, para quem se contenta com o mínimo, há pequenas compensações. Uma delas é poder ler ou reler os autores preferidos com paciência, sem a necessidade de prestar contas a ninguém desse raro e incomparável prazer. Machado de Assis, por exemplo, é autor para ser lido e relido por velhos. A cada releitura, se descobrem nuanças que permaneciam acoitadas nas entrelinhas. Em Machado, às vezes, o não-dito é de uma eloqüência sem par.

Dia desses, lembrei-me de um trecho de Memórias Póstumas que tem muito a nos revelar sobre a alma humana. Quem não se lembra daquela passagem em que Brás Cubas encontra, numa calçada qualquer, uma moedinha de meia dobra de ouro? Num gesto largo, de rara nobreza, Cubas remete a moeda ao chefe de polícia para que a devolva ao seu verdadeiro dono. Tal gesto rendeu-lhe a admiração das damas e o respeito dos seus pares. Meses depois, perambulando pela praia do Botofago, o mesmo Brás Cubas chuta um embrulho compacto, atado com barbante. Leva-o para casa e, surpreso, descobre que o pacote agasalha nada menos de cinco contos de réis, dinheiro suficiente, à época, para subornar um ministro. Tivesse procurado o chefe de polícia para repetir o gesto da moedinha, teria alcançado, talvez, o posto de ministro a que tanto aspirava. Preferiu dar “melhor” destinação ao dinheiro: usou-o para subornar a costureira Plácida em cuja casa encontrava-se com Vírgília, a amante.

Por que me ocorreu essa lembrança? Uma história banal: no início da semana passada, entrei num armarinho para comprar uma bugiganga qualquer. A moça do caixa estava ocupada em contar e recontar moedas, empilhando-as conforme o valor. Sem levantar a vista, sem prestar atenção em mim, entregou-me o troco e a mercadoria. Fazia uma manhã chuvosa, cinzenta, dessas que pedem cama e livro. Eu deixara o carro distante do local da compra por não encontrar estacionamento. Quando regressei ao veículo, meio molhado, percebi, no saquinho de plástico, cinco notas de dois reais. Disparei um sonoro palavrão e voltei pelo mesmo caminho para devolver os caraminguás à moça desatenta. A infeliz já se dera pela falta do dinheiro e parecia bastante aflita. Sem muita conversa, limitei-me a devolver-lhe os trocados. Nem esperei para ouvir a chuva de agradecimentos. Nesse ínterim, a chuva verdadeira tornara-se mais densa. No carro, completamente ensopado, lembrei-me do Brás Cubas, sorri e me perguntei: e se em vez de cinco notas de dois reais, fossem dez cédulas de cem? Creio que eu também as devolveria: até hoje, não me flagrei furtando nada de ninguém. Mas (por que não confessar?) também jamais fui testado pelo destino. Nunca encontrei, por exemplo, um pacote com cinco mil reais dando sopa por aí. Talvez o Brás Cubas adormecido em mim me aconselhasse a proceder exatamente como ele. Para fechar com Machado, “A ocasião não faz o ladrão; apenas o revela”. Nunca se sabe, nunca se sabe…

Cineas Santos

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O CORDEL NA ESCOLA

Menino, no sertão do Caracol, prometi àquela tia que me pôs a bordo do Pavão Misterioso que, quando crescesse, escreveria uma história tão bonita quanto a de Evangelista e Creuza, cruzando os céus da Grécia naquela geringonça de metal e sonho. Tenho sérias razões para acreditar que não viverei o bastante para cumprir a promessa. Além de me faltar engenho e arte, confesso que não me empenhei o bastante para realizá-la. Ao longo da vida, escrevi meia dúzia de folhetos, nada que um ginasiano aplicado não possa fazer. Um dos folhetos – A B C da Ecologia – já na 6ª edição, brevemente estará nas escolas de Pernambuco como parte do programa de Educação Ambiental implementado pela secretaria de educação daquele Estado. Como tenho cabeça e coração de professor, acabo de me meter em nova encalacrada: transpor para o universo do cordel o malsinado Acordo Ortográfico. Meio enferrujado, estou pensando em recorrer aos préstimos do poeta Barripi, que já escreveu uma gramática resumida em versos. Terminada a empreitada, colocarei o texto à disposição dos secretários de educação do Estado e do Município, que poderão fazer com ele, inclusive jogá-lo no lixo.

Acredito que o cordel pode ser uma excelente ferramenta a serviço da educação. O diabo é que os nossos professores, com honrosas, exceções, saem das universidades empanturrados de Todorov, Saussure, Ferrero, sem jamais terem lido um dos folhetos de Leandro Gomes de Barros. Por oportuno, conto um caso: certa feita, num seminário para professores, em Parnaíba, coube-me a incumbência de falar sobre a literatura infantil na escola. Lá pela tantas, uma professora (bastante bonita, diga-se) interrompeu-me bruscamente para perguntar: – Como é que o senhor quer que eu ensine literatura às crianças se, com o salário que ganho, não posso comprar O Menino Maluquinho, A Fada que tinha ideias, A Bolsa Amarela? E citou mais uma dúzia de obras consagradas. Com “ardente paciência”, esperei que ela terminasse o seu protesto e me limitei a perguntar: – A senhora já tentou trabalhar As Proezas de João Grilo, O Testamento de Cancão de Fogo, As Diabruras de Pedro Malasarte? Arregalando os belos olhos, a cidadã respondeu: – Nunca ouvi falar de tais obras. Voltei à carga: – E o Pavão Misterioso? Cutuquei o diabo com vara curta: – O senhor não está sugerindo que eu use em sala de aula esses folhetos ordinários, cheios de erros e bobagens? Lancei-lhe o desafio: – Leia O Menino Maluquinho, sem que as crianças vejam as ilustrações, e As Proezas de João Grilo. Depois, pergunte-lhes de qual texto elas gostaram mais. Seguramente, a senhora terá uma baita surpresa. E terminei com uma provocação: – O que lhe falta, minha bela senhora, não é só dinheiro para comprar livros caros; falta-lhe competência para utilizar o rico material que tem à mão, quase de graça. E mais não disse.

O poeta popular Pedro Costa, com o Projeto Cordel na Escola, vem demonstrando claramente que, com duas ou três aulas, alunos “travados” começam a escrever com desenvoltura. O problema é que querendo correr antes de aprender a engatinhar. Computador antes do cordel? Pode até funcionar, mas demora uma eternidade…

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