Archive for junho, 2009

PÓS-BALZAQUIANAS ENXUTAS

A sétima edição do SALIPI demonstrou, entre outras coisas, que o Salão já não depende do “brilho pessoal” dos organizadores para existir. Brilha por si só onde quer que se realize. É escusado afirmar que tal fato se deve à maciça participação do público que, ao adonar-se do Salão, conferiu-lhe a necessária visibilidade. Ninguém pode ignorar um avento capaz de atrair uma multidão de aproximadamente 100 mil pessoas. É certo que este ano enfrentou alguns problemas adicionais. A mudança do SALIPI para a Praça Pedro II obrigou os organizadores a reinventá-lo. A despeito disso, tudo saiu conforme o previsto. O grande problema do Salão continua sendo o financeiro. Este ano, para fazê-lo decolar, o prof. Luís Romero, presidente da Fundação Quixote, teve de fazer um empréstimo pessoal no valor de 30 mil reais, pagando juros escorchantes. Até onde sei Romero ainda não faz jus à pecha de rico. E pensar que um cidadão que, de tanto estilar veneno contra todos, acabou engolindo parte dele, o que lhe rendeu uma úlcera gástrica, em notinha venenosa, afirmou que “o $alipi tem caráter puramente comercial”. Santa Maria, quem dera!

Este ano, assoberbado com uma avalanche de obrigações, afastei-me da coordenação do SALIPI na expectativa de que teria algum alívio. Ledo engano: nunca sofri tanto em minha vida. Comportei-me como um técnico de futebol que, suspenso de suas atividades, é obrigado a assistir ao jogo das arquibancadas sem poder esbravejar contra o juiz ou orientar os jogadores. Tive participação discreta e pontual. Limitei-me à ajuda institucional autorizada pela Prefeitura de Teresina por meio da Fundação Mons. Chaves. Além disso, mediei os debates em três conferências: a do Dimas Macedo, a do Alcione Araújo e a do Zuenir Ventura. Descobri que eu e os dois últimos temos algo em comum, além do amor à literatura: temos nomes unissex. O dramaturgo e romancista Alcione me contou que, diariamente, ligam para a casa dele procurando por “dona Alcione”. Zuenir, por seu turno, já foi “morto” por uma cidadã que, tendo o mesmo nome do jornalista, cansou-se de atender telefonemas para ele. Irritada, declarou certa feita: “O Zuenir morreu, o corpo dele está sendo velado na capela de Nossa Senhora da Conceição”. Um blogueiro apressado jogou a informação na internet. Resultado: ainda hoje Zuenir sofre para provar que continua vivo. Quanto a mim, já mandaram flores para “dona Cineas” e cheguei a ser convidado para participar de um congresso de mulheres trabalhadoras no México. No final do encontro, decidimos criar um trio com o sugestivo nome de “As Pós-balzaquianas Enxutas”. Estaremos em todas as bocas e vamos botar pra quebrar!

Cineas Santos

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OS CISNES

Irmãos e irmãzinhas: ainda sob o influxo do romantismo, o parnasiano Júlio Salusse (1872-1948) escreveu “Os Cisnes”, um soneto que se tornaria leitura obrigatória nos saraus e recitais da época. Trata-se de uma peça de fino lavor, para fazer jus à linguagem dos parnasianos. Uma semana luminosa para todos.

Os cisnes

A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,
Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.
Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,
Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!

Júlio Salusse

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DAS COISAS QUE NÃO SE COMPRAM

Manuel Bandeira termina o poema “Balada das três mulheres do sabonete Araxá” assim: “Se me perguntassem: Queres ser estrela? queres ser rei? queres uma ilha no Pacífico? um bangalô em Copacabana?/ Eu responderia: eu não quero nada disso, tetrarca. Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá/. O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá”. Esse poema, escrachadamente lírico, sempre me fascinou. Costumo recitá-lo sozinho, trocando apenas a expressão ‘as três mulheres do sabonete Araxá’ pelo substantivo professor. Pode parecer estranho que, num país onde o magistério é tão desvalorizado, alguém queira ser apenas professor. Com incômoda frequência, me perguntam: “O senhor ainda continua lecionando?” Atentem no advérbio ainda. É como se a minha profissão fosse apenas um “bico” enquanto não arranjo “algo melhor”. Com ardente paciência, explico que não estou em sala de aula por exclusão. Tornei-me professor por acreditar que poderia contribuir, ainda que minimamente, para
tornar minha aldeia um pouco melhor. O que o magistério me deu? Tudo: visibilidade, credibilidade, o respeito de muitos e a estima de alguns. Para um homem do meu tope,
é pouco menos que a glória.

Mas toda essa arenga é apenas pretexto para contar uma história que me deixou comovido como o diabo”, para usar um verso de Drummond. Na semana passada, fomos ao povoado Santa Teresa, zona rural de Teresina, iniciar um programa de inclusão cultural na comunidade. Na Escola Santa Teresa, fomos recepcionados pelos alunos com uma bela manifestação de canto e dança. Antes do início das atividades (oficinas de pintura, escultura em argila, dança e flauta doce), fui abordado por um garoto negro, de uns doze anos de idade. O moleque queria um autógrafo. Confesso que nunca me senti à vontade distribuindo autógrafos. Não tenho vocação para o estrelato. Diante da insistência do moço, fiz questão de saber o porquê daquele pedido estranho.
Com incrível desenvoltura, ele me disse: “Sou admirador do seu trabalho. Eu sempre assisti àquelas aulas que o senhor dava na TV Assembleia. Quando o senhor passou a fazer um programa na TV Cidade Verde, passei a assistir a todos eles. Mas minha mãe implicava comigo, dizia que o programa era chato, que não via graça nenhuma naquilo. Pra ela parar de me aborrecer, trabalhei duro, ralei muito, mas comprei um elevisorzinho deste tamanho (fez um gesto com as mãos) para assistir ao seu programa sem ninguém me encher o saco”. Fiquei literalmente no ar. Refeito, fiz apenas um comentário bobo: liberdade é isso, garoto: fazer escolhas e pagar por elas. Tudo tem um preço. Certamente aquele adolescente não vê o programa Feito em Casa pela cor dos meus olhos nem pelo algodão que me cobre a carapinha. Ele deve apreciar a prosa informal, mas didática do velho professor. Relutei muito em contar essa história: não faltará quem, maliciosamente, afirme tratar-se de puro marketing ou simples cabotinismo. Felizmente, alguns professores presenciaram a cena. O garoto existe, está regularmente matriculado na 5ª série da Escola Santa Teresa e atende pelo nome de Luís.

Por essas e outras, “ainda” sou professor. Não perdi o prazer de ensinar nem o desejo de aprender. Afinal de contas, Guimarães Rosa estava certo: “Professor é quem de repente
aprende”. Nada além.

Cineas Santos

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MAIS PRÓXIMO DE VOCÊS

A partir de amanhã (dia 8), o SALIPI estará na praça. Sem mim. Não estar entre os coordenadores da 7ª edição do Salão do Livro do Piauí me deixa, a um tempo, aliviado e apreensivo. Aliviado por não ter de ficar duas semanas literalmente no ar, comendo pouco, dormindo mal e sofrendo muito. Apreensivo por não saber exatamente como os velhos companheiros enfrentarão o desafio de realizar o Salão num espaço novo: o complexo Clube dos Diários/Theatro 4 de Setembro/Praça Pedro II/Centro Artesanal.
Posso imaginar que a empreitada não será fácil. É como fazer um salão novo. Até então, o SALIPI se realizava no velho Centro de Convenções de Teresina, limitado, mas administrável.

Realizar o SALIPI é sempre um desafio que parece maior que as nossas forças. Não fosse o apoio imprescindível do Governo do Estado e da Prefeitura de Teresina, o Salão poderia ter morrido no nascedouro. De qualquer forma, foi a presença do público que o salvou. Os piauienses adonaramse do Salão, dando-lhe visibilidade, o que nos permitiu costurar algumas parcerias. Sucesso de pública e de crítica, o Salão do Livro do Piauí sofre de um problema crônico: invariavelmente fecha no vermelho com nuanças arroxeadas. De minha parte, posso garantir que “cavar” dinheiro nunca foi a minha especialidade. Tenho uma enorme dificuldade para vender qualquer coisa, principalmente projetos. A despeito disso, aos trancos e barrancos, chegamos até aqui.

Antes que circulem versões desencontradas sobre minha saída da coordenação do SALIPI, eis a razão: saí por absoluta incapacidade de acumular a presidência de duas instituições atuantes: a Fundação Quixote e a Fundação Mons. Chaves. Não consigo me dividir. Onde
estiver, estou inteiro. Pelas mesmas razões que deixei a coordenação do SALIPI, recusei o honroso convite para assumir a curadoria da 9ª Bienal do Livro de Bahia. No caso, limitei-me a prestar modesta colaboração como consultor.

Em Salvador, onde estive no início do ano, tive uma discussão áspera com uma das representantes da FAGGA, empresa contratada para montar a Bienal da Bahia. Lá pelas
tantas, a moça afirmou: – Já realizei bienais no Rio, em Minas e em outros Estados, com sucesso de público e vendas. Eu confio no meu taco. Podem deixar comigo,
que eu sei como fazer. Foi aí que perdi as estribeiras e retruquei: fazer uma bienal com o dinheiro de que a senhora dispõe não me parece tarefa extraordinária. Eu gostaria de vê-la fazendo, com pouco mais de duzentos mil reais, o Salão do Livro do Piauí, com o brilho que o caracteriza. A cidadã meteu a viola no saco.

Sem nenhum bairrismo, o SALIPI é um dos mais belos eventos, no gênero, que se realizam no país. Não é maior nem melhor que os outros; é diferente, muito diferente.

Por tudo isso, vá ao Salão do Livro do Piauí, leve seus filhos e, se possível, compre algum livro. Inclua esse alimento nobre no cardápio da sua família. Num futuro próximo, as crianças agradecerão e o país,
também.

Cineas Santos

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FEITO EM CASA

Desde que me entendo por gente, sofro daquela “inquietação de espírito” de que falava o poeta Bandeira, que me impele a fazer coisas num ritmo alucinante. Tenho sérias razões para desconfiar que talvez eu seja um fóssil do último homo faber a deambular pelo Planeta. É certo que jamais fiz algo de grandioso ou extraordinário. Faço apenas coisinhas, mas faço com tal constância e com tamanha intensidade que o resultado ganha alguma visibilidade. Para que se tenha uma ideia desse incessante labor, cheguei a Teresina em maio de 65 e, no início de 69, já estava à frente de um grupo de teatro amador mambembeando pelo interior do Piauí e do Maranhão. A partir de então, com “ardente paciência”, venho fazendo, fazendo, fazendo…
Graças a essa compulsão por fazer, ministramos milhares de aulas, proferimos centenas de conferências, promovemos encontros culturais, realizamos eventos e percorremos o Piauí inteiro à frente da caravana A Cara Alegre do Piauí. Como só sei conjugar o verbo fazer na 1ª pessoa do plural, sempre estive na companhia de pessoas do melhor quilate, entre elas, Paulo Machado, parceiro de primeira hora. Aprendi com Ulisses Guimarães que “O que não soma não conta”. Somar para acrescentar e compartilhar. Por incrível que pareça, a despeito desse ritmo galopante, sempre me sobrou alguma nesguinha de tempo para ser feliz.
Ao adentrar o portal da senescência, seria natural que eu já estivesse pensando em pijama, cadeira de balanço, sandália franciscana, livro de memórias, passeios com os netinhos (que não tenho) e outras pequenas “regalias” que a velhice nos concede. Decididamente, não. Com a cara e a coragem, estou encarando um novo desafio: apresentar um programa de TV cujo título – Feito em Casa – título diz tudo.

Há coisa de dois anos, Jesus Filho, da TV Cidade Verde, me pediu que pensasse num programa cultural para ser exibido nas manhãs de domingo. De cara, um desafio: como fazê-lo, com recursos limitados e sem apelar para a baixaria capaz de garantir audiência fácil? Não bastasse isso, decididamente não sou do ramo; não sou um bom “garoto de programa”. Ainda assim, resolvi pagar para ver. Montei Feito em Casa com uma estrutura mínima e uma proposta clara e precisa: revelar Teresina aos habitantes da cidade. Nesse aspecto, o programa visa elevar a autoestima do teresinense, cuja visão da capital do Piauí é bastante negativa. Pretendemos mostrar o trabalho das pessoas que fazem, que atuam nas mais diversas áreas, que interferem na vida de todos nós. Teresina tem uma cultura rica e multifacetada, mas pouco valorizada. Vamos abrir espaço para os trabalhadores culturais sem discriminação de nenhuma ordem. O critério a ser observado será sempre o da qualidade. O mais corre por conta do público, que tem a palavra final. Para mim, que só faço o que me dá prazer, Feito em Casa vem se revelando um aprendizado estimulante e prazeroso.

A reação dos telespectadores tem sido positiva, notadamente a das pessoas mais humildes. É gratificante constatar que o porteiro de uma clínica médica sabe apreciar a sofisticação da música “Beatriz, de Chico Buarque e Edu Lobo, executada competentemente pelo violonista Josué Costa. Como diria o meu amigo Jarbas, entre o erudito e o popular, prefiro o bom. O mais é paisagem.

Cineas Santos

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