Archive for julho, 2009

DE BICICLETA, NÃO.

No último final de semana, concedi-me um “descanso na loucura”. Aproveitei a nesguinha de tempo livre para rever Butch Cassidy (1969), um clássico do cinema contemporâneo. Dirigido por George Roy Hill, o filme foi um extraordinário sucesso de público, graças à combinação perfeita de aventura e humor. Não bastasse isso, a trama é consistente e a trinca de atores – Paul Newman, Robert Redford e Katherine Ross – parece ter sido escolhida a dedo. Acrescente-se a isso a trilha sonora de Burt Bacharach na qual figura a inesquecível “Raindrops Keep Fallin on My Head”. Há, no filme, uma cena antológica: para impressionar Etta (Katherine Ross), namorada do parceiro Sundance Kid (Robert Redford), Butch Cassidy (Paul Newman) resolve fazer acrobacias numa prosaica bicicleta que acabara de comprar. Tantas fez, que se estatelou no chão diante de um touro bravo. A cena me trouxe à lembrança uma estripulia perpetrada por mim, cujas consequências foram dolorosas, para dizer o mínimo. Por volta dos 14 anos de idade, trabalhei como um estivador a fim de levantar grana suficiente para comprar uma calça azul-fudente, uma camisa de malha listrada, um relógio Hernavin e um sapato bico fino. Ajaezei-me como uma cortesã e, na bicicleta de um amigo, resolvi dar um bordejo nas imediações do Colégio das Irmãs onde funcionava um internato, recheado de moças bonitas. Com ensaiada displicência, passei em frente à calçada onde as moças conversavam. Pelo menos duas delas me olharam de soslaio. Resolvi assoberbar de vez: soltei as duas mãos, aumentei a velocidade e fiz umas piruetas arriscadas. Não deu outra: esborrachei-me no chão como uma manga podre. Além da galhofa das moças, rasgou-se-me a calça nova e quebrou-se o vidro do relógio que eu ainda nem acabara de pagar. Desastre total.

Pensam que me emendei? Algum tempo depois, parei na porta do mesmo colégio e ofereci carona a uma bela e tímida estudante. Tive de gastar algum latim para convencê-la a aceitar a oferta (a mãe não lhe permitia tais desfrutes). Como quem transporta cartelas recheadas de ovos, levei-a do colégio até bem próximo da casa onde morava. Ao descer da bicicleta, a saia da moça prendeu-se num dos ferrinhos da garupa e rasgou-se, deixando-a muito constrangida. Nunca mais me dirigiu a palavra.

Já em Teresina, tentei comprar uma bicicleta a prestação, digo, aos pedaços. Comprei o quadro, as rodas, os pedais, o selin e a catraca. Dinheiro suado, contado e muita pechincha no Troca-Troca. Antes de terminar de montá-la, um mão-leve fez-me a “gentileza” de levá-la sem minha autorização. Decididamente, não dou sorte no papel de ciclista. No futebol, andei tentando, com relativo sucesso, a jogada inventada por Leônidas da Silva. Na decisão de um concorrido campeonato realizado no Colégio Andreas, jogando contra o fogoso time de alunos, fiz, de bicicleta, o gol que deu a vitória à medíocre equipe dos professores. Foi a coroação de uma carreira que me rendeu inenarráveis alegrias e incontáveis contusões.

No ano passado, uma artrose renitente e progressiva no joelho esquerdo me tirou, de vez, dos campos e das pistas. Hoje, mantenho prudente distância das bicicletas. Talvez eu devesse proceder como aquele louco manso que, na década de 50, perambulava pelas ruas de Teresina. De pilheria, os desocupados lhe perguntavam: – Por que você não anda de bicicleta? E ele: – Esse veículo bípede me dá vertigem. E seguia em frente.

Cineas Santos

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OS IMPERDOÁVEIS

Num país como o nosso onde a impunidade é a tônica, pelo menos três brasileiros, por “mera coincidência”, negros, foram punidos exemplarmente, com pena da execração pública, para todo o sempre. São eles: João Cândido Felisberto (1880 – 1968), Moacir Barbosa do Nascimento (1921 – 2000) e Wilson Simonal de Castro (1939 – 2000). Cada um, a seu modo, cometeu crime inafiançável e imprescritível.

João Cândido, conhecido como “O Almirante Negro”, comandou a famosa “Revolta da Chibata”, em 22 de novembro de 1910. Razão: em plena República, os marinheiros brasileiros, além de salários aviltantes, eram punidos com chibatadas por qualquer crime. João Cândido comandou um motim, apropriou-se do encouraçado “Minas Gerais” e conseguiu a adesão de mais três navios. À frente de mais dois mil marinheiros, ameaçou bombardear o Rio de Janeiro. Pressionado, o presidente Hermes da Fonseca aceitou negociar com os amotinados. A Lei da Chibata foi revogada, mas João Cândido acabou expulso da Marinha, preso e tratado como um proscrito. Até a morte, em 68, trabalhou como estivador na Praça XV, no Rio de Janeiro. Somente em 2008, por iniciativa da senadora Marina Silva, o presidente Lula o anistiou. Ainda assim, a Marinha não lhe concedeu as promoções a que tinha direito. A família não recebeu nada.

Barbosa, por seu turno, foi um dos goleiros mais famosos do Brasil. Seis vezes campeão carioca pelo Vasco, era titular absoluto na lendária seleção brasileira de 50. Na tarde de 16 de julho de 1950, diante de uma plateia de 200 mil torcedores, não defendeu a bola chutada pelo ponta Gigghia, e a seleção canarinho, que jogava pelo empate, perdeu o título para o Uruguai. Barbosa foi escolhido para o papel de “Cristo”. Pouco antes de morrer, afirmou: “No Brasil, a pena maior por um crime é de 30 anos. Há 43 anos, pago por um crime que não cometi”. Nem a morte o redimiu.

Quanto a Simonal, entre outros delitos graves, cometeu o de driblar a pobreza e tornar-se showmam num momento complicado: o país estava mergulhado numa ditadura. Espaçoso, cheio de gingas e bossas, Simona era o cara. No Maracanãzinho, regeu um coro de 30 mil vozes, no embalo de “Meu limão, meu limoeiro”. No meio da música, sorria e afirmava: “Que tranquilidade!”. Comandou um programa na TV Record, “Show em Si…Monal”. Provocava reboliço por onde passava. Além de gostar de carrões e mulheres saborosas, andava na companhia de pessoas pouco recomendáveis. Tantas fez que acabou envolvido no sequestro do contador Vivian, suspeito de furtá-lo. O incidente vazou, e a imprensa o acusou de ser “dedo-duro”. Seu mundo desabou. Renegado por todos, passou a vagar como um Zumbi indesejável, até o ano de sua morte, em 2000. Este ano, Cláudio Manoel e Michael Langer fizeram o documentário “Simonal: ninguém sabe o duro que dei”, tentando jogar alguma luz sobre o “Rei da Pilantragem”, como era conhecido. A imprensa graúda voltou à carga e o condenou outra vez.

Curiosamente, quando o presidente Lula criou o Ministério da Igualdade Racial e propôs cotas para os negros nas universidades públicas, as cabeças laureadas da República acusaram-no de “instituir o racismo no Brasil”. O gesto de Lula poderia conspurcar a decantada “democracia racial brasileira”. Tinham razão: em time que está ganhando há mais de 500 anos não se mexe…

Cineas Santos

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CURICAS NO QUINTAL

Certa feita, dileta amiga percebeu em mim uma indeclinável vocação para a pobreza. No entender dela, “pobre se contenta com muito pouco e se alegra até com o nascimento do 13º filho quando não possui o suficiente para alimentar a dúzia já existente”. Respondi com um arremedo de metáfora: pesco minha felicidade em lagoa rasa com anzol de linha curta, ou seja, não preciso ver um anjo de asas iridescente, a exemplo de William Black, para experimentar o gostinho inconfundível da felicidade. Assim tem sido e assim continuará sendo, até que o alemão me sequestre…

De que é que eu falava mesmo? Bem, na semana passada, experimentei uma alegria só comparável à experimentada por menino pobre quando ganha a primeira bola de presente. Gozo do raro privilégio de morar numa casa com quintal cheio de árvores. E onde há árvores, há pássaros e canto e (perdoem a rima) encanto. Certa manhã, despertei com a arenga aborrecida de um velho bem-te-vi possessivo, que atende pelo nome de Balzac. Por estar há muito tempo no pedaço, ele se julga mais dono do quintal do que eu. Naquela manhã, ele parecia particularmente irritado. Levantei-me e fui conferir. Para desespero dele e alegria minha, num cupinzeiro desativado, no pé de jatobá, um casal de curicas escavava seu ninho. Na verdade, a fêmea escavava enquanto o macho, atento, botava sentido no trabalho da companheira. “Pássaro machista”, berrarão as feministas de plantão, mas a Natureza não dá a mínima para o “politicamente correto”.Nela, só duas leis têm aplicação prática e imediata: a da sobrevivência e da perpetuação da espécie. O mais é paisagem. Por duas ou três vezes, eu o vi escorraçar o bem-te-vi que se aventurava a perturbar o trabalho da fêmea. Entretido com o trabalho da dupla, perdi a hora do trabalho…

Antes que me perguntem o que há de tão fascinante no trabalho de um pássaro na construção de um ninho, eu vos direi apenas: a vida é o que realmente importa, seja a do Mozart ou a de um besouro mangangá. A partir daquela manhã mágica, passei a cuidar do casal curicas com o zelo de um pai que prepara o enxoval de uma filha nubente. Ao menor sinal de alerta, corro para o quintal para ver se algum intruso está perturbando o sossego dos pássaros. Não hesitei em atirar pedras num gavião que, com a maior desfaçatez, posou no sapotizeiro com ar de quem estava só de passagem… Ver aquelas curiquinhas nidificarem em meu quintal provoca em mim uma sensação estranha, misto de alegria e apreensão. Alegria por oferecer guaridas a uma ave que, em Teresina, está se tornando cada vez mais rara. Apreensão, por saber que ao buscar abrigo em meu quintal, aquelas aves estão sendo enxotadas do seu habitat pelo desmatamento que destrói o chamado “cinturão verde” da cidade. Neste espaço, já lhe falei da revoada de bem-te-vis que, de repente, invadiu o meu quintal, o resultou numa guerra feroz entre aqueles aves, naturalmente agressivas. Quando aves silvestres começam a chegar aos quintais em bandos muito grandes, deve-se acender a luzinha amarela: alguma coisa grave está acontecendo.

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