Archive for agosto, 2009

CONSTRUINDO PONTES

O Grupo Harém de Teatro do Piauí comemorou o seu 24º aniversário em grande estilo, promovendo a 2ª edição do FESTLUSO – Festival de Teatro Lusófono (de 23 a 29 de agosto do ano em curso), evento que seria grandioso onde quer que se realizasse. Os números falam por si: foram mais de 30 espetáculos de cinco países lusófonos: Brasil, Portugal, Angola e Moçambique e Cabo Verde, apresentados em diversos espaços de Teresina, inclusive na rua. Além dos espetáculos teatrais, realizaram-se palestras, debates, oficinas, encontros, lançamentos de livros, exibição de filmes e shows musicais.

Durante uma semana, encontraram-se em Teresina algumas das figuras mais representativas das artes dramáticas dos países de língua portuguesa. Estiveram aqui, entre outros: Amir Haddad, João das Neves, Regina Duarte, Fernando Jorge Lopes, João Branco, Rogério de Carvalho, Márcio Meireles, Marcelo Bonnes, José Caldas, Dom Pedro Dikota.

Com a realização da 2ª edição do FESTLUSO, o Grupo Harém de Teatro propiciou ao público piauiense espetáculos de alto nível e a possibilidade de um diálogo necessário e urgente com os nossos irmãos d’além mar, notadamente com os africanos. Mais do que nunca, precisamos buscar uma aproximação cada vez maior com a África, cuja contribuição se faz presente em todas as vertentes da cultura brasileira. Nesse aspecto, o Grupo Harém de Teatro está construindo uma ponte cultural que precisa ser ampliada e fortalecida.

Outro aspecto a ser realçado no 2º FESTLUSO foi a pluralidade. No leque de espetáculos apresentados em Teresina, houve espaço para todo mundo: de atores renomados a simples amadores e iniciantes; do teatrão tradicional às experiências de vanguarda, clara demonstração de respeito à diversidade, o traço mais bonito da cultura brasileira.

Sobrou dessa experiência bem-sucedida uma lição a ser copiada por todos nós: a necessária postura mais profissional. Não por acaso, o Grupo Harém atingiu a maioridade com fôlego para novas investidas. Desde o nascimento do grupo, há 24 anos, a dedicação e o profissionalismo têm sido a marca registrada do Harém. Em Teresina ou em outras praças, o Grupo Harém sempre primou pela qualidade dos espetáculos que apresenta.  Graças a isso, criou um público cativo e conquistou prêmios no Brasil e no exterior. Sem profissionalismo, é impossível contar com o necessário patrocínio das grandes empresas nacionais.

Longa vida, pois (como diriam nossos irmão portugueses), ao Grupo Harém de Teatro que, ao longo desses 24 anos de existência, vem prestando inestimáveis serviços à cultura piauiense. Que continue a construir as indispensáveis pontes culturais entre o Piauí e o mundo. Assim seja.

Cineas Santos

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HISTÓRIA DE MIL E UM AMORES

Ao poeta Paulo Machado

Permitam-me iniciar esta arenga parafraseando Quintana: quem ama reinventa, a cada instante, a coisa amada. Só assim, o amor se faz “infinito enquanto dure”… Gosto de reinventar Teresina, imaginando-a uma colcha de retalhos costurada, carinhosamente, por milhares de mãos, mãos de todas as cores e procedência. A mão fidalga de José Antônio Saraiva assinando o decreto de transferência da capital da província dos ermos sertões de dentro para a esplanada da Chapada do Corisco; a mão firme de mestre Isidoro França traçando o quadrilátero inicial, sob um rústico teto de palhas; as mãos suaves do vigário Mamede Antônio de Lima abençoando a pedra fundamental da igreja do Amparo; as mãos ásperas de centenas de escravos sulcando a terra para plantar nela sonhos que não eram seus… Reinvento uma cidade luminosa brotando do chão da chapada, sob o inclemente sol de agosto, para tornar-se maternal e acolhedora.

Mas essa história já foi contada e recontada por historiadores, poetas e cronistas de reconhecido brilho. Nada tenho a acrescentar. Falemos, pois, do menino velho que, numa esplendente manhã de maio do ano de 65, foi despejado na Praça Saraiva onde ninguém o esperava. Falemos do sujo das estradas grudado nas retinas e do medo vazando por todos os poros. Falemos da cidade hostil onde mil esfinges gritavam em uníssono: “Decifra-me ou te devoro”. E o menino atônito, indefeso e só, ajoelha-se, no adro da igreja de N. S. das Dores, à espera do golpe fatal que, felizmente, não veio. Em vez do cutelo, a cidade lhe ofereceu colo…

É possível que essa história nunca tenha acontecido; que não passe de “ficção da memória” de alguém que, bêbado de luz e encharcado de bem-querer, tenha perdido a noção do que efetivamente aconteceu e do que poderia ter acontecido.  Pouco importa: é preciso que se reinvente incessantemente a própria história para conferir-lhe alguma poesia.

Mas deixemos o menino velho em suas deambulações e falemos, ao sabor das lembranças, de algumas figuras notáveis que deram um perfil e uma identidade a Teresina. Falemos, pois, de: A. Tito Filho, o cronista da “Cidade Amada”, com aquele amor possessivo, quase passional, capaz de inventar, para uso próprio, o verbo teresinar; de D. Avelar Brandão Vilela, o pastor de voz reconhecível que apascentava o rebanho da urbe com a “Oração por um dia feliz”; de Mons. Chaves, responsável pela imponência da Igreja do Amparo, o historiador que deu voz ao povo do Piauí; do Prof. Camilo Filho, a melhor tradução da cidade, com seu sorriso farto e a indeclinável vocação para o diálogo; de mestre Odilon Nunes, silencioso, encurvado sobre alfarrábios, na Casa Anísio Brito, colhendo pérolas que seriam lançadas aos próceres; de Wall Ferraz, o prefeito durão, com vocação para donatário; de Marcílio Flávio de Rangel Farias, o “forasteiro” que, ao descobrir que aqui jorrava água potável das torneiras, fez-se o mais apaixonado dos teresinenses: amava a cidade melhorando-a; de mestre Manoel Luciano, autor da mais bela toada que já se fez para a cidade: “Teresina parece um laço de fita / ou uma moça bonita / outra igual eu nunca vi / É a cidade que a gente necessita / é a sala de visita do Estado do Piauí”. Impossível, em espaço tão curto, falar de todos os que amaram e amam esta cidade, reinventando-a incessantemente.

Esqueçamos, de vez, o menino velho com sua arenga interminável. Passemos a palavra ao poeta Moura Rego, de saudosa memória: “Não quero flor nem brilhante / Quero carinhos de amante / Para o mais fino louvor. / A quem já nasceu prendada / A ti, minha namorada, / Teresina, meu amor”.

Cineas Santos

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OS PARADOXOS DA ALDEIA

De repente, não mais que de repente, “o mundão sem porteiras” dos nossos avós converteu-se no mundinho sem fronteiras dos nossos filhos. A internet nos tirou dos ermos das lonjuras e confinou na “aldeia global” preconizada por MacLuhan. No sertão do Caracol, presenciei algo insólito: um garoto entanguido falando internetês com uma “amiga” australiana. Pelo jeito, o diálogo fluía sem maiores dificuldades. Num mundo assim, o espirro de um garoto mexicano em La Glória pode ter disseminado uma pandemia que desafia a medicina moderna. Hoje, sem maiores dificuldades, podemos bisbilhotar a vida do nosso vizinho, logo ali em Dubai…

Tudo isso é muito bom, mas encerra alguns paradoxos. Esse olhar voltado para o próximo/distante pode estar nos afastando da aldeia onde, por alguma contingência, estamos fincados. Um exemplo: no mês passado, dois jovens teresinenses, com o aval e patrocínio dos pais, resolveram visitar Roma. Parafraseando Dobal, Roma evoluiu muito: já recebe turistas piauienses. O certo é que os moços, sem maiores contratempos, chegaram à Cidade Eterna. Como um deles gagueja italiano, não tiveram maiores problemas para pedir pizza e Coca-Cola… Uma semana depois, roída de saudades, a mãe ligou. Um dos jovens queixou-se do clima da cidade: “Mãe, aqui está muito quente”. Como qualquer mãe que se preze, a cidadã perguntou ao garoto se ele estava com saudades. Sem titubear, o jovem respondeu: “Estou morrendo de saudades do meu quarto com ar-condicionado e do meu computador”. E mais não disse.

Essa história pode parecer maluca, para dizer o mínimo. Como pode alguém que mora em Teresina, que alguns acreditam ser “uma sucursal do inferno”, queixar-se do calor de Roma? É simples: aquele garoto de classe média, embora nascido em Teresina, não sabe exatamente onde fica sua cidade. Ele mora “virtualmente” na capital do Piauí. O seu mundo, mais virtual que real, pouco tem a ver com a cidade onde nasceu. Em casa, encafua-se no seu quarto, liga o ar-condicionado e o computador e navega, navega, até os galos amiudarem o canto; o automóvel que o conduz à escola tem ar-condicionado; na escola, mergulhado num clima artificial de doer os ossos, ouve narrativas de professores que falam de quase tudo, menos de Teresina. Nos finais de semana, vai ao shopping empanturrar-se de hambúrguer ou assistir a filmes violentos numa sala climatizada. A academia onde faz ginástica também é climatizada… É natural, portanto, que se sinta desconfortável numa cidade, por mais bela que seja, diferente do seu mundinho artificial e aconchegante…

A parte ruim dessa história é que um desses garotos, depois de cursar uma universidade de ponta no primeiro mundo, resolva retornar à Chapada e, adubado com o dinheiro de algum empresário, possa tornar-se prefeito de Teresina, cidade que desconhece. Por mais talentoso que seja, será sempre um simulacro de administrador, já que lhe falta chão.

No mês em que em que cidade aniversaria, esse arremedo de crônica quer tão-somente concitar os pais a que levem, pelo menos uma vez por mês, os filhos para conhecerem as ruas, as praças e os becos da cidade. E, principalmente, para que possam sentir o inconfundível cheiro do povo teresinense. Façam isso por Teresina: ela merece.

Cineas Santos

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Menos estrangeiro na própria aldeia

Durante alguns anos – 15, para ser mais preciso – morei em São Raimundo Nonato. Por lá, ainda tenho familiares e um punhado de amigos. Infelizmente, fiquei órfão de d. Purcina, referência mais forte em minha vida errante. Deixaram-me também: Paredão, Maninho, Hamilton Barreto, Chico da Bernaldina, entre outros. Assim, cada vez que retorno à cidade, me sinto mais pobre, mais estranho, mais só. É certo que a Câmara Municipal de SRN, por iniciativa da vereadora Socorro Macedo, concedeu-me o título de Cidadão Sãoraimundense, honraria que não fiz por merecer. Mas o que me deixa constrangido é perceber que não sei nada, nadinha mesmo da vida dos meus conterrâneos. Sei apenas que gostam de festa, de cerveja, de umbuzada, de beiju com carne assada, de tatu ao leite de coco. Sei também que ostentam certo orgulho por terem nascido na terra que é “berço do homem americano”, mas nem por isso deixam de hostilizar a profa. Niède Guidon, cidadã que pôs SRN no mapa-múndi. Da vida política, eu poderia acrescentar que os sãoraimundenses são apaixonados, que fazem campanhas ruidosas e que, com raras exceções, elegem políticos de reputação duvidosa… Mas isso não é “privilégio” dessa brava gente. Acontece em toda parte.

A penúltima vez que visitei a cidade, em 2008, assustou-me o barulho dos carros de som, dos trios elétricos, das motos, aos milheiros, que cruzavam a cidade em todas as direções, conduzindo pessoas de todas as idades, nenhuma delas usando capacete. O trânsito caótico lembrava aquelas cidades malucas da Índia. Afora isso, havia lixo por toda parte e urubus em guerra com os vira-latas, disputando tudo o que tivesse cheiro de comida. Nunca em minha vida me senti tão deslocado, tão triste, tão só…

Na semana passada, o aniversário da irmã querida me levou a SRN. Preparei-me para o pior, já que, na cidade, realizava-se um “carnaval fora de época”, com os indefectíveis e onipresentes trios baianos. Logo na entrada, uma surpresa: a escultura monumental de uma seriema que, de tão perfeita, parecia prestes a cantar. Um pouco mais adiante, um terminal rodoviário decente e, pasmem, todo os motociclistas trafegando com capacetes. Não bastasse isso, as ruas estavam limpas e adequadamente sinalizadas. Num átimo, pensei: todo esse “milagre” deve ser apenas maquilagem para turista ver. Lembrei-me de que, no início do mês, a cidade fora sede do Primeiro Congresso Internacional de Arte Rupestre. Consta que o governo do Estado investiu pesado para “melhorar a imagem do Piauí lá fora”. De uma forma ou de outra, há mudanças significativas na cidade. Pra começo de conversa, o aeroporto, antiga aspiração da Niède Guidon, saiu do papel para tornar-se realidade palpável. Uma bela pista com 1600 metros está pronta.

De tudo o que vi, o que mais me animou foi a presença de uma professora, Samara Negreiros, à frente da Secretaria de Educação do Município. Conheço essa cidadã e sei do que é capaz. Espero que a cidade ajude-a a realizar o sonho que acalenta há muito tempo: melhorar o deplorável nível da educação em SRN. Decididamente, a cidade parece ter engatado uma marcha de força para sair da buraqueira. Como tenho cabeça e coração de professor, com as pequenas mudanças que vi, enchi-me de esperanças, e já me senti um pouquinho menos “estrangeiro” na cidade que, um dia, foi a minha aldeia.

Cineas Santos

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