Archive for setembro, 2009

UM CERTO MALAQUIAS

Até onde sei, ninguém lhe desenhou a árvore genealógica, o que não o impediu de viver mais de 80 anos. É certo que se chamava José Malaquias das Chagas e gastou boa parte da existência mourejando numa gleba perdida entre o nunca e o nada, no sertão do Piauí. Filho de sertanejos pobres, não frequentou escola regularmente. Foi desasnado pelo velho Manuel Luís que, por falta de material pedagógico mais adequado, servia-se, amiúde, de uma fornida palmatória de aroeira. Dava certo: em curtíssimo espaço de tempo, Malaca aprendeu a ler, escrever e contar.

Avesso ao cultivo da terra árida, aprendeu alguns ofícios que lhe garantiram a sobrevivência. Virava-se como pedreiro, carpinteiro e marceneiro. Do que fez, sobrou apenas a igrejinha do município de São Brás do Piauí, rústica e acanhada, mas sólida como uma rocha. Irrequieto, fez-se andejo: perambulou por São Paulo, Brasília, Anápolis e Bom Jesus do Gurgueia onde, aos 82 anos de idade, saiu da vida e entrou para a geografia, deixando 21 filhos reconhecidos.

Malaquias granjeou fama de “sabido” pela prosa “fluviante e flutual”, como diria o poeta. Espirituoso, entre um gole de pinga e uma baforada de cigarro pau-ronca, ditava sentenças que caíam no gosto popular. Sem maior dificuldade, coletei algumas delas que repasso aos meus três leitores.

Certa feita, muito necessitado, aceitou realizar determinado trabalho por um pagamento ínfimo.  Um amigo o censurou. Zé Malaquias emendou de bate-pronto: “Meu amigo, mais vale lamber do que cuspir”. Numa manhã de domingo, na bodega de um compadre, encetou-se acalorada discussão sobre a misericórdia e o senso de justiça do Criador. Malaquias, prudentemente, manteve-se à margem da arenga. Alguém o provocou: – E você, Malaquias, acha que Deus é justo? Sem titubear, o velho disparou: “Mais que justo, é justíssimo: quando manda o vento levantar a saia das mulheres, joga areia nos olhos dos homens”. Numa tarde qualquer, passou pela casa de um dos filhos e o encontrou discutindo asperamente com a mulher. Sem interferir, ouviu as “razões” de cada um, limitando-se a propor a concórdia e o entendimento. Na hora da saída, chamou o filho à parte e o advertiu: “Tá maluco, rapaz? Quantas vezes eu já te disse que não se briga com mulher depois do almoço!”.

Em bom Jesus do Gurgueia, disputava com o velho João Batista o título de “melhor marceneiro” da cidade. João Batista levou a melhor: religioso ao extremo, construiu uma igreja liliputiana, hoje tombada pelo IPHAN. Nela, tudo é tão pequeno que parece de brincadeira. Por falta de um santo de gesso  ou louça, o velho João esculpiu, em umburana, uma bela imagem de São João Batista. Sucesso absoluto. A cidade inteira foi apreciar a obra de arte. Malaquias, evidentemente, não ficou feliz com a novidade. Quando lhe falavam da imagem, desconversava. Um dia, os amigos literalmente o arrastaram até a igrejinha. Malaquias nem chegou a entrar. Na presença do escultor, fez o seguinte comentário: “Esse João Batista não é um cristão digno de respeito”. Diante do espanto dos circunstantes, sentenciou: “Um cabra que pega um pedaço de umburana, faz uma imagem e ele próprio vai adorar, não é sério”. E mais não disse.

Infelizmente, nada aprendi com ele, nem mesmo o conheci. Não por acaso, esse tal  Zé Malaquias era meu avô.

Cineas Santos

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HORA DA REAÇÃO

Dia desses, remexendo um velho baú de “inutensílios”, garimpei uma pepita rara: um CD do Dick Farney com 14 pérolas da MPB. Entre as jóias, figuram: “Copacabana”, “Não tem solução”, “Marina” e “Apelo”. Não bastasse isso, Dick dialoga com Lúcio Alves na faixa “Tereza da praia”,de Jobim e Billy Blanco, coisa de tirar o fôlego. Meus três leitores sabem quem foi Dick Farney e o que representa para a música brasileira. Para os mais jovens, uma dica de Ruy Castro:  “Poder-se-ia dizer que Dick Farney foi uma espécie de S. João Batista da bossa nova – seu apóstolo e anunciador, o homem que primeiro congregou os fiéis para anunciar-lhes a boa nova e,ele próprio, um pregador suave, mas eloqüente”. Para usar a linguagem da galera, na década de 50, Dick Farney era “o cara”.

Feliz como um garoto que acaba de ganhar a primeira bola de futebol, pus o CD no som do carro e deixei que o velho Dick me acariciasse os tímpanos por horas a fio. Parado no semáforo, ouvia “Aconteceu um novo amor/que não podia acontecer/não era hora de amar/ agora o que vou fazer?”, quando senti um abalo sísmico. Meu carro tremia como se sacudido por um terremoto. Nonada, como diria Guimarães Rosa, era apenas uma Hilux, preta azeviche, parada ao meu lado. A caçamba da caminhonete transportava um som capaz de curar a surdez pétrea do velho Beethoven. A música, digo, a laúza era, para variar,  um  desses “forrós” made in Ceará. No volante daquele bólido de 160  cavalos, um potro saradão, cabelos recobertos de gel, camiseta regata e ar petulante. Por um segundo, pensei em perguntar-lhe: -Moço, meu Dick está incomodando você? Mas, em boa hora, lembrei-me de que esses bem-nascidos desconhecem o sentido da palavra limite e não têm o menor respeito por ninguém, menos ainda por velhos. Limitei-me a levantar os vidros e esperar, aflito, que o semáforo me libertasse daquela tortura. Sinal verde: o moço se foi com seu cometa ruidoso.Parafraseando Caetano: melhor do que o silêncio nem joão. Naquela noite, a sorte não pegara carona no meu carro. Parei no semáforo seguinte, Dick sussurrando: “Eu, você, nós dois/ aqui nesse terraço à beira-mar/o sol já vai caindo…”, a terra voltou a tremer, minto,a vibrar. Ao meu lado, num carro médio, duas jovens esbaldavam-se ao som, digo, ao ruído de uma banda de forró, made in Ceará… Não seria a mesma do carro do rapaz? Impossível saber: são todas tão parecidas que, no meio das “músicas”, tem sempre alguém gritando o nome da banda para que se possa distingui-la das outras…

Incomodado, me perguntei:  será essa merdalhada toda  apenas uma jogada comercial  bolada por um  “gênio” ou terá algo mais grave por trás disso? Não será  parte  de um processo de imbecilização posto em prática pela indústria da maldade? Como  ainda não encontrei a resposta, resolvi assumir parte da culpa. Explico: alguém já lhe feriu os tímpanos com  boa música ? Duvido! Quem gosta de música é sovina: ouve baixinho, curte sossegadamente, não divide com ninguém a não ser com a pessoa amada… Proponho aqui uma reação: vamos botar, em nossos carros, Gil, Tom,Caetano, Milton, Chico, Elis, Ney, Marisa e até o sussurrante João  no volume máximo,  a toda brida. Vamos incomodar, com música de qualidade, os viciados em lixo ruidoso. Uma advertência: poderemos ser presos em flagrante por grave atentado ao despudor reinante.

Cineas Santos

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A PRAÇA É DO POVO

A manhã de sábado, do dia 29, próximo passado, na Praça Pedro II, não prometia nada de especial. Os que moram na praça continuavam espichados nos bancos sujos como camaleões ao sol. O mais era o de sempre: cheiro de urina, sujeira, abandono. A velha P2, que já foi cantada por um poeta medíocre como o “umbigo do mundo”, nem de longe lembra o espaço de encontro dos intelectuais teresinenses, na década de 50, ou “o lugar  dos namoricos”, na  década de 60, como atesta A.Tito Filho, em crônica memorável. Hoje, tudo nela traduz  tristeza, decadência, descaso…

Por volta das 9 horas, o velho trompetista Abdoral Amorim, com sua indefectível banca de CDs “caseiros”, aboletou-se à sombra de um tamarindeiro infestado de parasitas e começou a cantar boleros antigos de que ninguém se lembra mais. Os vendedores de bugigangas esparramaram-se à porta do Theatro 4 de Setembro com a naturalidade de quem se sente em casa.

Às 10 horas, chegou a moçada do hip hop com sua música inconfundível, roupas negras, bonés virados  , molejo, suingue e sorrisos de muitos dentes. Pouco depois, sob a batuta do artista plástico Genivaldo Costa e Silva, iniciou-se o I Concurso de Grafite de Teresina, evento patrocinado pela Prefeitura de Teresina, por meio da Fundação Mons. Chaves. Armados de réguas, lápis, borrachas e spray, dez grafiteiros iniciaram a festiva competição ao som da música dos “garotos de mola”, como são conhecidos os passistas do hip hop. Aos poucos, os passantes começaram a se dar conta de que algo  diferente estava acontecendo ali. Uns olhavam de soslaio, outros paravam por alguns instantes e alguns procuravam o refrigério da sombra  para acompanhar, de perto, aquela festa inusitada. Ao meio-dia, a praça fervilhava de gente e a imprensa resolveu dar o ar de sua graça. Por volta das 14 horas, já se conhecia o vencedor do concurso: Hudson Carvalho Melo, com um belo painel sobre o caótico trânsito de Teresina. O grafiteiro Manim, cujo trabalho enfeita espaços públicos da cidade, ficou com a menção honrosa. Mais importante que o prêmio pago pela Prefeitura foi o ato de propiciar aos grafiteiros um espaço nobre para a exposição do que criam com spray, engenho e arte. Por oportuno, vale lembrar: para muitos, grafiteiros e pichadores são a mesma coisa, o que não é verdade. Hoje, existem obras de grafiteiros até respeitável Museu de Nova York. Os trabalhos realizados em plena praça serão levados às escolas da rede municipal de ensino em exposição itinerante. A FCM já pensa na possibilidade de contratar alguns grafiteiros para ministrarem curso nas escolas de Teresina.

Por volta das 17h,  entrou em cena o lendário Amir Haddad com sua trupe mambembe, o Grupo Tá na Rua que, sob a batuta do velho ator e diretor, vem percorrendo  praças  e ruas desses brasis remotos. Convidado a participar da 2ª edição do FESTLUSO, Haddad demonstrou por que está há 50 anos em cena. Mesmo com o braço na tipoia, comandou, com energia, humor e sarcasmo, a festa que contagiou a todos. Como um exército de Brancaleone, atores profissionais e amadores, moradores de rua, bêbados e loucos irmanaram-se numa ciranda de transbordante alegria. Por um dia, o povo adonou-se da Praça Pedro II como crianças vadias. Oxalá essa experiência possa se repetir com maior frequência: Teresina merece.

Cineas Santos

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