Até onde sei, ninguém lhe desenhou a árvore genealógica, o que não o impediu de viver mais de 80 anos. É certo que se chamava José Malaquias das Chagas e gastou boa parte da existência mourejando numa gleba perdida entre o nunca e o nada, no sertão do Piauí. Filho de sertanejos pobres, não frequentou escola regularmente. Foi desasnado pelo velho Manuel Luís que, por falta de material pedagógico mais adequado, servia-se, amiúde, de uma fornida palmatória de aroeira. Dava certo: em curtíssimo espaço de tempo, Malaca aprendeu a ler, escrever e contar.
Avesso ao cultivo da terra árida, aprendeu alguns ofícios que lhe garantiram a sobrevivência. Virava-se como pedreiro, carpinteiro e marceneiro. Do que fez, sobrou apenas a igrejinha do município de São Brás do Piauí, rústica e acanhada, mas sólida como uma rocha. Irrequieto, fez-se andejo: perambulou por São Paulo, Brasília, Anápolis e Bom Jesus do Gurgueia onde, aos 82 anos de idade, saiu da vida e entrou para a geografia, deixando 21 filhos reconhecidos.
Malaquias granjeou fama de “sabido” pela prosa “fluviante e flutual”, como diria o poeta. Espirituoso, entre um gole de pinga e uma baforada de cigarro pau-ronca, ditava sentenças que caíam no gosto popular. Sem maior dificuldade, coletei algumas delas que repasso aos meus três leitores.
Certa feita, muito necessitado, aceitou realizar determinado trabalho por um pagamento ínfimo. Um amigo o censurou. Zé Malaquias emendou de bate-pronto: “Meu amigo, mais vale lamber do que cuspir”. Numa manhã de domingo, na bodega de um compadre, encetou-se acalorada discussão sobre a misericórdia e o senso de justiça do Criador. Malaquias, prudentemente, manteve-se à margem da arenga. Alguém o provocou: – E você, Malaquias, acha que Deus é justo? Sem titubear, o velho disparou: “Mais que justo, é justíssimo: quando manda o vento levantar a saia das mulheres, joga areia nos olhos dos homens”. Numa tarde qualquer, passou pela casa de um dos filhos e o encontrou discutindo asperamente com a mulher. Sem interferir, ouviu as “razões” de cada um, limitando-se a propor a concórdia e o entendimento. Na hora da saída, chamou o filho à parte e o advertiu: “Tá maluco, rapaz? Quantas vezes eu já te disse que não se briga com mulher depois do almoço!”.
Em bom Jesus do Gurgueia, disputava com o velho João Batista o título de “melhor marceneiro” da cidade. João Batista levou a melhor: religioso ao extremo, construiu uma igreja liliputiana, hoje tombada pelo IPHAN. Nela, tudo é tão pequeno que parece de brincadeira. Por falta de um santo de gesso ou louça, o velho João esculpiu, em umburana, uma bela imagem de São João Batista. Sucesso absoluto. A cidade inteira foi apreciar a obra de arte. Malaquias, evidentemente, não ficou feliz com a novidade. Quando lhe falavam da imagem, desconversava. Um dia, os amigos literalmente o arrastaram até a igrejinha. Malaquias nem chegou a entrar. Na presença do escultor, fez o seguinte comentário: “Esse João Batista não é um cristão digno de respeito”. Diante do espanto dos circunstantes, sentenciou: “Um cabra que pega um pedaço de umburana, faz uma imagem e ele próprio vai adorar, não é sério”. E mais não disse.
Infelizmente, nada aprendi com ele, nem mesmo o conheci. Não por acaso, esse tal Zé Malaquias era meu avô.
Cineas Santos