Archive for outubro, 2009

ALGUMA COISA ACONTECE

Em menos de duas semanas, experimentei a satisfação de participar de dois salões de livros realizados no Piauí: 1ª edição do SALIPA, em Parnaíba, e a 5ª edição do Salão do Livro de Elesbão Veloso. Em  setembro, teremos a 6ª edição do salão de Valença. Picos, por sua vez, já sinalizou que, ainda este ano, pretende realizar um grande salão. O exemplo de Parnaíba deve sensibilizar outros municípios da região norte, como Piripiri, Esperantina, Barras, etc; o de Picos,  poderá ser imitado por Oeiras, Floriano, São Raimundo Nonato.É bom acreditar que, um dia, todos os municípios piauienses realizarão eventos do gênero. Utopia? Pode ser, mas sem ela como continuar avançando?

O Salão do Livro de Parnaíba já nasceu grande: entre os autores convidados, marcaram presença: Moacir Scliar, Assis Brasil e Ana Miranda, entre outros. O público, por sua vez, compareceu em massa e a Prefeitura da cidade comprometeu-se a viabilizar as próximas edições do SALIPA. É muito bom ver os parnaibanos, sempre refratários a novidades, abraçarem carinhosamente um evento que aponta para o futuro.

A realização de festivais, feiras e salões nos municípios piauienses tem demonstrado claramente a importância da cultura, não apenas na elevação da autoestima da população, mas no fomento à economia regional. Enganam-se os que acreditam ser a cultura apenas entretenimento; cultura é investimento com retorno garantido. Pedro II, Castelo, Batalha, São João do Arraial, Pio IX, Campo Maior, São Raimundo Nonato, Oeiras e Alto Longa que o digam.

Com alguma regularidade, tenho visitado os municípios piauienses e posso afirmar que o trabalho realizado pela Sônia Terra, à frente da FUNDAC, vem frutificando. Sônia acredita nas ações pequenas, pontuais, permanentes. Quando lhe pedem dinheiro para a contratação de bandas do Ceará ou da Bahia, desconversa e pergunta: “Quantas oficinas de arte vocês querem?”. É escusado afirmar que nem todos ficam satisfeitos, mas a estratégia tem dado certo: multiplicam-se, no interior do Piauí, os   “fazedores” de cultura.

Dois pequenos municípios piauienses podem ser tomados como exemplos de que investir em cultura é rentável: São João do Arraial e Vila Nova do Piauí. No primeiro, realiza-se, anualmente, um belo festival que envolve praticamente toda a população do município. No segundo, um encontro cultural  que atrai gente de municípios vizinhos. Há uns três anos, estive em Vila Nova e constatei algo que me deixou muito feliz: a “Biblioteca Patativa do Assaré”, orgulho dos vilanovenses,  tem um acervo três vezes maior que a população do município, que não chega a 4 mil habitantes. O único prédio vistoso da cidade, à época,era justamente o da biblioteca pública. Lá, vi algo extraordinário: antes de convidarem Assis Brasil para participar da festa, compraram os livros do autor para serem adotados nas escolas do município. A maioria dos alunos efetivamente leu a obra de Assis. Que gestos como este possam servir de exemplos para municípios maiores e mais prósperos. Penhorada, a cultura piauiense agradecerá.

Cineas Santos

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DE QUINA PRA LUA

Quando o Comitê Norueguês do Nobel anunciou o nome de Barack Obama como o vencedor do Nobel da Paz de 2009, nem os assessores mais próximos do presidente dos EUA acreditaram. Era verdade. Na cola da notícia, a justificativa: “Obama mereceu o prêmio por esforços extraordinários para fortalecer a cooperação entre os povos”. Incontinenti, Michael Steele, presidente do Partido Republicano, disparou: “É uma pena que o poder de celebridade dele tenha ofuscado defensores incansáveis que tiveram conquistas reais em questões de paz e direitos humanos”. Eu, que nada sei de nada, diria que o tal Comitê manteve-se fiel à tradição de contrariar expectativas e provocar polêmicas. Na literatura, por exemplo, J. Luiz Borges, um autor de primeira grandeza, esperou, com ardente paciência, o prêmio que fez por merecer e que lhe foi negado. Contrariando todas as expectativas, Doris Lessing, uma autora de nível mediano, abiscoitou o Nobel de Literatura, em 2007. No campo da paz, as decisões têm sido ainda mais polêmicas: Gandhi, que deu a vida pela paz, nunca foi contemplado; já Yasser Arafat, considerado um “terrorista”, compartilhou o prêmio com Shimon Peres e Yitzhak Rabin em 1994. Receberam-no “pelos esforços empreendidos em favor da paz entre judeus e palestinos”. Os resultados todos conhecem. O Mago de araque teria outra explicação para o prêmio de Obama: “Quando você deseja muito uma coisa, todas as forças do universo conspiram para que isso aconteça”. Se for assim, quem tiver dinheiro, mulher bonita e outras cositas que se cuide…

Voltemos a Obama. O que esse moço fez, até aqui, para merecer tal honraria? Discursos, alguns muito bons, diga-se de passagem. Num deles, condenou a proliferação de armas atômicas e pregou o entendimento entre as nações. Bonito, mas inócuo. O que Obama quer, a exemplo de todos os seus antecessores, é a não-proliferação de ogivas nucleares nas mãos de gente do naipe de Kim Jong – Il (Coréia do Norte) e Mahmoud Ahmadinejad (Irã) ou Chavez, mais próximo do “quintal” dos EUA. Barack Obama teria sido bem mais convincente se, no seu discurso na ONU, tivesse apresentado a seguinte proposta: os EUA se comprometem a destruir metade do seu arsenal atômico se os outros grandes do mundo fizerem o mesmo. A bem da verdade, a nossa insegurança continuaria igual, já que, segundo especialistas, existem armas nucleares suficientes para destruir 40 vezes Terra, se isso fosse possível. Ainda assim, já seria um gesto simbólico. Com a máquina de guerra que comanda, Obama não hesitará em bombardear até o céu em nome da “segurança” da América e do mundo. Os EUA pautam sua política externa por um princípio magistralmente resumido por Tom Paine (1737-1809): “A causa da América é, em grande parte, a causa de toda a humanidade”. Mais claro, impossível.

Como bem sintetizou a revista mais endireitada do Brasil, o Nobel de Obama é “um prêmio preventivo”. Tem razão: a “herança maldita” deixada por little Bush compromete seu governo. Obama tem duas guerras em curso e uma crise financeira monumental para administrar. O Nobel só açula o ódio dos radicais contra ele. Tem razão Clóvis Rossi ao afirmar: “Obama precisa é de paz, e não de um Nobel da Paz”.

Cineas Santos

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“PÉROLAS” AOS TOLOS

Afirma-se, com incontido orgulho, que o senso de humor, a irreverência, o escracho, a alegria e o jeitinho são os atributos que distinguem o brasileiro dos demais terráqueos. Com estardalhaço, criou-se o mito do brasileiro feliz, e a coisa vingou. Não por acaso, o poeta Maiakovski escreveu: “Dizem que em algum lugar, /parece que no Brasil,/ existe um homem feliz”. É certo que, vez por outra, aparece um louco para “desafinar o coro dos contentes”, ou um coração machucado para implorar: “Tire o seu sorriso do caminho/ que eu quero passar com minha dor”. Mas a tônica é alegria, alegria!

Confesso que a “obrigação” de andar com os dentes à fresca me deixa um tantinho incomodado. A bem da verdade, esse humor fácil e apelativo, que se exibe na TV e na internet, mais me aborrece que diverte. Para o meu gosto, não há nada mais deplorável que as “pegadinhas” e as “videocassetadas”, sucesso retumbante entre nós. Aprendi com dona Purcina que não se deve rir de quem cai, de quem sofre, de quem erra. Vamos tomar o seguinte exemplo: o garoto assiste na TV à cena de uma criança escorregando do balanço e enfiando a cara no chão. Não se mostra o choro da criança nem a gravidade da contusão; mostra-se a claque sorrindo e o apresentador berrando: “Ô meu, vai gostar de terra assim no inferno”. Um dia, esse garoto leva o irmãozinho menor ao parque e, lá pelas tantas, ele escorrega e cai. Qual será a reação daquele moleque?  Vai sorrir por não entender que aquilo é um acidente e não uma brincadeira. Muito pedagógico, não?

Estamos popularizando, por todos os meios, o escracho, a grossura, a vulgaridade e o mau gosto como manifestações de humor. Agora mesmo, acabo de ver na internet um e-mail com “as pérolas do ENEM”. Trata-se de um amontoado de disparates escritos ou atribuídos aos que se inscrevem no exame. Em primeiro lugar, uma pergunta pertinente: quem “vaza” tais disparates para a mídia? Outra perguntinha inofensiva: é lícito fazê-lo? Poderíamos fazer mais uma dúzia de indagações, mas isso não nos ajudaria a entender os objetivos perseguidos com a divulgação desse material que, até onde sei, deveria permanecer sob a responsabilidade do MEC.

Não é a primeira vez que tenho acesso a essa lista infame. Num programa de TV muito popular, o apresentador diverte a plateia lendo as “pérolas” e acrescentando comentários jocosos. Sucesso garantido. Sou obrigado a confessar que me sinto profundamente incomodado com essa maldita lista. Como sou professor, cada vez que leio um disparate escrito por um aluno (que nem conheço), sinto-me um tantinho responsável por ele. Sou uma espécie de coautor. O raciocínio é bastante simples: se nós professores tivéssemos nos empenhado um pouquinho mais, talvez poupássemos esses pobres alunos de terem seus disparates expostos na mídia como objeto de chacota. Vou um pouco além: se a educação fosse levada a sério em nosso país, os governantes, a sociedade, a mídia, todo mundo começaria a perceber que alguma coisa precisa ser feita com a maior urgência. Essa molecada que escreve bateladas de bobagens é vítima de uma escola que os trata como retardados. A mídia, notadamente o rádio e a TV, encarregam-se de fazer o resto.

Para demonstrar minha indignação de forma clara e veemente, peço permissão aos meus três leitores para encerrar essa arenga com uma piada infame, que também circula na internet: “Quem acha tudo gozado é camareira de motel”.

Cineas Santos

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ECCE HOMO

Na semana passada, um velho amigo me fez um pedido insólito, para dizer o mínimo. Pediu-me que escrevesse uma crônica tendo como objeto o “puto-mor”. Especialista em pensar, falar e fazer besteiras, eu jamais pensara em nada parecido. O que diabo viria ser um puto-mor? Puto, em qualquer dicionário, tem uma batelada de sinônimos, que variam de menino a homossexual, passando por velhaco, devasso, sacana, mau caráter, etc. Mor, como se sabe, significa maior ou hierarquicamente superior. Assim sendo, um puto-mor tanto poderia ser um homossexual famoso, um velhaco rematado ou um PhD em sacanagem. Como escolher, num país com tantos, um que seja o maior? Imediatamente, veio-me à lembrança a figura daquele cidadão que, tendo toneladas de dólares no exterior, desafia as autoridades brasileiras a localizarem em bancos estrangeiros um centavo em seu nome. E termina sua arenga com a proposta acintosa: “Se encontrarem uma conta em meu nome no exterior, podem sacar o dinheiro”. Trata-se inegavelmente de um forte candidato ao título, mas seguramente não é o único. Desisti de escrever a crônica antes de iniciá-la.

No mesmo dia, uma amiga querida ligou-me pedindo um poema do Quintana cujo título desconhecia. Lembrava-se vagamente de um fragmento de verso: “…a casca inútil e dourada das horas”. Não tendo a obra completa do Poeta à mão, recorri ao são Google onde se encontra tudo, até o que ainda não se inventou. Não deu outra: lá estavam quatro páginas com poema. Curiosamente, em cada uma delas, o texto aparecia com um título diferente: “Tempo”, “Vida”, “Lições de Vida” etc. Abri uma a uma, e constatei algo que me deixou estarrecido: o arcabouço do texto era realmente do Quintana, mas havia cacos, enxertos, adereços, adiposidades que comprometiam a beleza do poema. Dir-se-ia uma garrafa de vinho do Porto a que se acrescera água de lagoa. A começar pelo título, que é “Seiscentos e Sessenta e Seis”, tudo nele fora conspurcado. Sem maior esforço, encontrei, na obra completa do poeta, o poema verdadeiro, que transcrevo aqui, na íntegra: “A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa./ Quando se vê, já são seis horas: há tempo…/Quando se vê, já é sexta-feira…/Quando se vê, passaram 60 anos…/Agora, é tarde demais para ser reprovado…/E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,/ eu nem olhava o relógio/ seguia sempre, sempre em frente…/ E iria jogando pelo caminho a casca inútil e dourada das horas”. (Poesia Completa – Editora Nova Aguilar – p. 479), Uns cinco ou seis versos indigentes foram acrescidos à poesia de Quintana, tornando-a quase irreconhecível.

Finda a leitura, puto da vida, lembrei-me do pedido do amigo e gritei: ecce homo! Eis o homem, ou melhor, eis o puto-mor com carteirinha e certificado de garantia. Um canalha que tem a veleidade de “corrigir” ou “melhorar” um poema de Mário Quintana merece o título de puto-mor em letras garrafais. Todo mundo sabe que circulam na “net”, como dizem os teens, dezenas de textos de auto-ajuda atribuídos a Borges, García Márquez, Drummond, Neruda, Millôr, Veríssimo e, naturalmente, Quintana. Trata-se de crime menor se comparado às “tenebrosas transações”, de que fala Chico Buarque. Crime menor porque, via de regra, os textos são tão ordinários que só enganam trouxas. Agora, adulterar um poema qualquer, mesmo de um poeta medíocre, deveria ser crime inafiançável e imprescritível.

Já que escrevi essa baboseira para eleger o “meu” puto-mor, fecho a arenga com uma tirada do próprio Quintana: “Maltratar poeta é indício de mau caráter”.

Cineas Santos

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