Archive for novembro, 2009

RETRATOS DO BRASIL

Tom Jobim, que tinha uma relação complicada com o Brasil, costumava afirmar: “Este é um país de amadores”, e completava o seu desabafo com uma tirada que beirava o escatológico. Por respeito aos meus três leitores, não vou reproduzi-la aqui. A improvisação, o jeitinho e o amadorismo são traços que distinguem essa brava gente da maioria dos terráqueos. Interpretar e compreender o Brasil não é tarefa para amadores, que o digam Darcy Ribeiro e Roberto DaMatta, para citar apenas dois dos que tentaram. Mas chega de erudição barata, que o objeto dessa arenga é o chão do chão. Falemos do que está ao alcance do vulgo.

Dia desses, a televisão mostrou uma cena de matar de inveja os criadores do realismo fantástico. Enquanto facções criminosas digladiavam-se pelo comando de pontos de vendas de droga no Rio e a polícia, atônita, distribuía balas perdidas a quem se dispusesse a aceitá-las, uma mulher do povo, alheia à recomendação de manter-se distante da zona de guerra, catava cápsulas de balas para revendê-las, talvez, aos próprios traficantes, se é que essa gente utilizava cartuchos recarregados. Com a maior naturalidade, explicou ao repórter: “É pra completar a merenda das crianças”. Se os diretores de “Cidade de Deus” ou “Salve Geral” tivessem incluído essa cena num dos filmes citados, não faltaria quem os acusasse de “estarem apelando” ou “forçando a barra”.

Duas semanas depois, no estado mais rico da Federação, estudantes da quarta maior universidade do país, quase curraram e lincharam uma cidadã que, com um sumário vestido pink, atiçou  a libido da moçada. Não fosse a pronta intervenção da polícia, a moça teria sido literalmente devorada. As cenas registradas por alguns celulares indiscretos bem que poderiam ilustrar um clip da música “A Novidade”, gravada por Gilberto Gil, onde se conta a história de uma sereia encalhada numa praia brasileira e estraçalhada por poetas e esfomeados. Em vez de identificar e punir os agressores da estudante, a direção da universidade optou pela solução mais simples: expulsar a moça, sob a alegação de “trajar-se inadequadamente, em flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”. A ideia não poderia ter sido mais infeliz: no mesmo dia, o fato alcançou repercussão internacional, o que levou a direção da universidade a refluir. A emenda saiu pior que o soneto: ao fazê-lo, o reitor da escola deixou evidente que a decisão fora equivocada e arbitrária.

Resumo da ópera: de um momento para outro, a moça de vestido pink tornou-se, a um tempo, “celebridade”, com direito a capa de revistas, entrevistas na TV , convite para posar nua em revistas masculinas e “vítima” da intolerância dos “talibãs brasileiros”. Por vias transversas, a cidadã que, segundo a mídia, não sai de casa “sem se produzir” nem para ir à padaria, atraiu os holofotes da imprensa internacional e deixou o Brasil muito mal na fita. Aos olhos dos “civilizados”, parece incompreensível o fato de o país tentar atrair turistas, exibindo fotos de mulheres seminuas em praias paradisíacas ou desfiles de escolas de samba e, na prática, hostilizar uma jovem por causa de um vestido um tantinho mais ousado.

Como nada entendo de nada, recorro ao Millôr, que entende de quase tudo: “No Brasil pode faltar tudo, menos enredo”, em outras palavras: aqui, qualquer um pode morrer de bala perdida; de tédio, nunca.

Cineas Santos

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CAMBALHOTAS PARA NINGUÉM

No final do milênio passado, num arremedo de crônica sobre Teresina, afirmei: ainda não é uma grande cidade, graças a Deus. Ainda há quintais, mangueiras, passarinhos e meninos para persegui-los. Remexendo o baú de “inutensílio”, encontrei a crônica e, consternado, constatei que ela está bem mais velha do que eu. A cidade de que falo  parece perdida na poeira de um passado remoto.  Hoje, eu diria: ainda não é uma grande cidade, mas, infelizmente, já padece de todas as mazelas que infernizam as metrópoles brasileiras. Trânsito caótico, engarrafamento, poluição sonora e visual e, principalmente, estresse e medo. Aquele medo “que esteriliza os abraços”, de que falava o poeta. A cadeira na calçada deu lugar às cercas elétricas; a pracinha do bairro  foi trocada pela praça de alimentação dos shopings, em nome de uma suposta “segurança”. A cidade, numa velocidade desconcertante, vai perdendo aquele ar provinciano que lhe conferia faceirice e graça. A volúpia da novidade parece ter-se apossado dela com reflexos negativos. Na calada da noite, casarões antigos transformam-se em estacionamentos e, a despeito disso, os automóveis ocupam cada centímetro dos espaços destinados aos pedestres. Hoje, é mais fácil comprar um automóvel do que estacioná-lo no centro da cidade…

A exemplo de qualquer grande cidade brasileira, nos semáforos de Teresina, ambulantes pedintes e malabaristas disputam as moedinhas esquecidas no porta-lixo dos automóveis. Para evitar o assédio, os motoristas levantam os vidros ou aumentam o volume do som. À noite, já não é prudente parar em lugar algum, mesmo que isso implique o risco de  multa pesada: melhor perder ponto na carteira que a vida. Um amigo cínico explica tudo com sua lógica enviesada: “somos todos reféns da barbárie civilizada”. Falta-me autoridade para contestá-lo.

Mas o propósito dessa arenga não é denunciar o óbvio nem lamentar o que já se perdeu. Quero apenas registrar uma prática lúdica, lírica e espontânea que, pelo menos duas vezes por semana, se repete na Praça do Marquês. Ali, nos finais de tarde, um grupo de garotos de idades variadas  (de 8  a 17 anos)se reúne regularmente para praticar um pouco de ginástica: saltos mortais, cambalhotas, brincadeiras. Os mais experientes orientam os mais jovens que, a cada conquista, vibram como se estivessem conquistando pontos numa olimpíada imaginária. Quando erram, repetem o salto com aplicação e redobrado esforço. Como sinal de aprovação, recebem tapinhas dos companheiros. Normalmente, os transeuntes apressados não param para aplaudi-los; é possível que nem se deem conta da presença daqueles moleques vadios que, nas tardes de chumbo de Teresina, dão cambalhotas pra ninguém.

Às vezes, paro e fico espiando as estripulias daqueles  garotos pobres  que, indiferentes ao rugido furioso dos automóveis, apenas brincam como deveriam brincar todas as crianças da cidade: ao ar livre, sem o olho vigilante dos pais. Espiritualmente, brinco um pouco com eles enquanto, “sem querer saber de mim, a tarde desce”…

Cineas Santos

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NOTÍCIAS DO FIM DO MUNDO

Viver, sentenciava G. Rosa pela boca de Riobaldo, é negócio perigoso. A despeito disso, vive-se e, nalguns casos, até mais do que o desejável. Estatísticas dão conta de que 6 bilhões de seres humanos navegam nessa frágil casca de noz rumo ao desconhecido. É muita gente gastando perdulariamente o que não ganhou. Mas, segundo o sábio Patrick Geryl , essa farra desenfreada tem data marcada para terminar: 21 de dezembro de 2012. Nesse dia, céus e terra se fundirão, e o Armagedom sairá do mundo das profecias para materializar-se. Poucos, só os escolhidos, sobreviverão para contar a história. Quando tudo serenar, a Terra, ou melhor, o que restar dela respirará aliviada: estará praticamente extirpado “o câncer da natureza”: a espécie humana.

Antes dessa data fatídica, profetas, embusteiros e espertalhões faturam alto publicando livros com teses apocalípticas ou filmes aterrorizantes. Até onde se sabe, só os seres humanos são capazes da proeza de pagarem para sofrer. Quanto a mim, sem queixas ou mágoas, saio de cena como entrei: nu e desarmado.

A primeira vez que ouvi falar do fim do mundo, eu era praticamente virgem de pecados, a não ser do tal “pecado original”, que já trazemos embutido em nossas almas. Eu teria uns dez anos de idade, se tanto. Num início de noite, ouvi no rádio do padre Nestor Lima a trombeta do anjo vingador: “O mundo acabará em 1970”. A voz cavernosa do locutor invisível deixou-me petrificado. Aterrorizado, fiz as contas: a partir daquele instante, eu teria uns doze anos, no máximo, para realizar alguns desejos acalentados desde sempre: comprar uma bicicleta Monark, uma sanfona Scandalli, um relógio Lanco, um rádio Philco, uma espingarda Rossi, uma lanterna de três elementos, uma chuteira feita pelo Raimundo do Pedro e um frasco de English Lavander. Tudo isso, na verdade, tinha um único fito: conduzir-me ao coração de Cleonice, com quem eu teria de me casar. Para levantar a dinheirama necessária para comprar tudo isso, eu teria de ir a São Paulo onde, segundo atestava o baião de seu Luiz, “corria ouro pelo chão”. Fiz as contas e vi que não daria tempo. Sofri como um condenado…

Em 1970, eu já desistira da sanfona, do rádio, da espingarda, ou seja, da Cleonice… À época, meu coração bandoleiro errava por uma fulaninha, mais acesa que farol de milha… Conclusão: a despeito da ditadura que prendia, torturava e matava, nunca fomos tão felizes: “noventa milhões em ação” e a inesquecível conquista do Tri…  Marcou-se uma nova data para o fim do mundo: o ano 2000. Voltei a fazer as contas e vi que já estava no lucro…

Manquitolando, cheguei até aqui. Como na canção de P. César Pinheiro & Baden Power, “Não fui feliz nem infeliz/ só fui na vida um aprendiz/daquilo que eu não quis”. Quanto a fim do mundo, 21 de dezembro de 2012 ainda está longe… Até lá, a minha Estrela-guia certamente me terá mostrado o portal do paraíso. Assim sendo, que venha o dilúvio!

Cineas Santos

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ELIAS PAZ E SILVA LANÇA CANTO DAS LETRAS NESTA SEXTA

“Poemas são filhos

Trilhos para o além

Uns nascem amadurecidos

Outros prematuros vêm”

(Poética III)

A partir dessa concepção poética, o poeta piauiense Elias Paz e Silva lança nesta sexta-feira, dia 6, às 19 horas, na Oficina da Palavra, o livro Canto das Letras. Reunindo poesias sobre diversos temas, a obra traz “lições da arte poética que, em alguns poemas, remontam à antiguidade clássica, e, em outros, às experiências pós-modernas”, diz Paulo Machado no prefácio do livro.

Editado pelos escritores Cineas Santos e Paulo Machado, Canto das Letras tem ainda capa assinada por Antônio Amaral e revisão do próprio autor, Elias Paz e Silva. “Para o lançamento, estamos preparando um sarau lítero-musical com apresentação de Luiza Miranda e do violonista Josué Costa, além da participação de poetas piauienses”, destaca o professor Cineas Santos.

A noite de lançamento será aberta ao público e promete reunir importantes representantes do movimento cultural do Estado, que terão a oportunidade de ter contato, em primeira mão, dessa coletânea de poemas, que “são reescrituras contemporâneas de textos que constituem parte das reflexões legadas por algumas civilizações à história da humanidade. Os indícios das matrizes textuais estão estilisticamente incrustados nos poemas e exigem do leitor conhecimento literário e apurada capacidade de compreensão de signos”, completa Paulo Machado, na apresentação de Canto das Letras.

Mais informações:

Oficina da Palavra – 3223-4441

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