Archive for janeiro, 2010

DA ARTE DE ENGABELAR OTÁRIOS

Durante alguns anos, tive um carrinho peba, ronceiro, sestroso que, justo por esses atributos, ganhou a alcunha de “jumentinho”. Vez que outra, em momento de maior necessidade, o ordinário me deixava  na mão. Ainda assim, na hora de me desfazer do condenado, senti uma pontinha de tristeza. Como o carrinho era azul, julguei ser o motivo do apego. Não era. Na verdade, o que me ligava ao caranguinho era a placa: LVO – 0564. No desenrolar dessa arenga, vocês entenderão.

Dia de Reis, no Shopping da Cidade, eu participava, com vivo entusiasmo, da festa organizada pelo professor Vagner Ribeiro. De repente, durante a apresentação do Reisado de Mãe Feliciana, um dos mais antigos de Teresina, fui abordado por um cidadão humilde, idade inescrutável, com  aquele ar de quem não foi acariciado pela vida. Maneiroso, pediu licença para aproximar-se, elogiou a iniciativa da festança  (lembram-se daquela sensação do álcool na pele antes da picada da agulha?) e gaguejou: -Professor, eu gosto muito de reisado; sou do interior e acompanhava essa brincadeira quando era menino… Preparei-me para a facada. – Parei pra apreciar a brincadeira, deixei minha bicicleta ali na porta, com minhas ferramentas na garupa e veja o que sobrou dela! Com ar compungido, exibiu o arco de um cadeado pequeno, o arco sem o cadeado, naturalmente. – Veja o senhor: a gente para pra assistir uma festa de santo e vem um malfazejo e leva o pouco que a gente tem… Agora tô aqui precisando de uma passagem pra voltar pra minha terra… Antes de cair no choro, o que me estragaria a maquilagem, saquei os caraminguás que trazia no bolso e entreguei-lhe. Num átimo, o cidadão soverteu-se na multidão. Com seus botões, deve ter dito: engabelei mais um otário…

O ruim dessa história é saber que está sendo depenado e não conseguir safar-se. Certa feita, em Salvador, resolvi conhecer a tão decantada Lagoa do Abaeté. Bruta decepção! Na verdade, o trem não passa de um barreiro escuro, cercado de areia branca. Nem tive tempo de curtir meu desapontamento. Fui encurralado por um enxame de ciganas, todas devidamente caracterizadas, com aquela prosa preguiçosamente envolvente: “com azeite de dendê, não vai doer nada,meu rei” … Tentei vãmente desvencilhar-me da horda que, como hienas famintas, me cercavam por todos os lados. Uma me falou de “uma loura maldosa que só quer o seu dinheiro”; a outra, de “um sócio que está lhe roubando”, etc. Quando me liberartaram, eu estava literalmente na lona. Retiraram-se cantando uma toada alegre e, naturalmente, comemorando a féria conseguida à custa de  mais um otário

Ao longo da vida tem sido assim: pressinto a facada, mas não consigo evitá-la. Aparvalhado, acovardado, deixo-me explorar  sem reação como uma criança indefesa.

Antes que me perguntem onde a placa do carrinho entra nessa história, lembrem-se das letras LVO. Pois é: um amigo gozador decifrou o enigma com a mais absoluta propriedade: “Lá Vai  o  Otário”. Como diria meu irmão mais lúcido, cada um para o que nasce…

Cineas Santos

posted by admin in Dois dedos de prosa and have No Comments

A CARA MAIS ALEGRE DO PIAUÍ

Há trinta e três anos, por minha conta e risco, arrebanhei um pequeno grupo de jovens (Paulo Machado, Rogério Newton, Fernando Costa, Alcide Filho e Margô Coelho), formei uma trupe mambembe e embrenhamo-nos pelos sertões do Piauí. Objetivo: ver, ouvir, ensinar, aprender, conviver. Amontoados num velho fusca verde-sonho, fomos a Oeiras, Floriano, São Raimundo Nonato e José de Freitas. Por falta de dinheiro para a gasolina do fusca, arquivamos o sonho. À época, nenhum de nós sabia que estava lançando ali as sementes do projeto A Cara Alegre do Piauí. Pouco tempo depois, eu e o Paulo Machado passamos a ministrar cursos de literatura piauiense para professores no interior do Estado. Quando Elias Arêa Leão assumiu a Secretaria de Cultura do Piauí, montamos uma trupe bem mais encorpada e voltamos a mambembar pelos sertões. Finalmente, em 97, na cidade de Parnaíba, o poeta e professor Fernando Ferraz batizou a cabroeira com o nome de A Cara Alegre do Piauí, usando um argumento irrefutável: “Há séculos, mostramos sempre a cara triste do Piauí. O máximo que conseguimos foi a piedade de alguns e o escárnio da maioria. Chegou a hora de mostrarmos a face luminosa de nossa gente: a rica e multifacetada cultura do Piauí”.Com o novo rótulo, o projeto ganhou asas e percorreu praticamente todo o estado do Piauí, de Parnaíba a Guaribas.

O grupo enriqueceu-se, com a participação de músicos, coreógrafos, escritores, professores, ecologistas, etc. Hoje, somos 30 voluntários a serviço da educação e da cultura do Piauí. Tantas fizemos, que fomos tema de um programa especial da Globo News, realizado pelo poeta Claufe Rodrigues. Curiosamente, nunca nos sentamos para traçar um plano de trabalho. Como time que joga junto há muito tempo, ao entrar em campo, cada um sabe  o que vai fazer e faz  com engenho e arte.

No final do ano passado, o Cara Alegre foi contemplado com um ponto de cultura (FUNDAC – MINC). A partir de agora, mais que eventos esporádicos, poderemos dar continuidade às ações iniciadas quando da visita do grupo a determinado município. Inicialmente, vamos oferecer cursos de história do Piauí e literatura piauiense para professores da rede pública de ensino. Para os alunos, oficinas de xilogravura, violão e flauta doce. No campo da música, estamos iniciando a gravação de um DVD – Pássaros da Terra - com os músicos mirins do Piauí.

Atendendo a exigência do MINC, vamos adquirir o kit multimídia: máquina fotográfica, filmadora, notebook, data show, etc. Na sede do Projeto – Rua 7 de Setembro – 671, estamos montando um pequeno estúdio para gravação de CDs e DVDs.

É gratificante coordenar um projeto que conta com a participação de pessoas do nível de prof. Santana, Erisvaldo Borges, Paulo Machado, Fonseca Neto, Catarina Santos, Luíza Miranda, Rosinha Amorim, Halan Silva, Luiz Romero, Tânia Martins, Gabriel Archanjo, Geni Costa, Graça Vilhena, Carlos Martins, Vanda Queiroz, Wilker Marques, para citar apenas alguns. A filosofia do projeto continua a mesma: o saber só faz sentido quando compartilhado. Assim seja.

Cineas Santos

posted by admin in Dois dedos de prosa and have No Comments

UM JEITO NOVO DE INICIAR O ANO

No sertão onde nasci, apenas duas datas tinham, efetivamente, algum significado: a sexta-feira da paixão e o primeiro do ano. Na sexta-feira grande, não se podia fazer quase nada. Não se tomava banho, não se tirava a barba, não se ordenhavam as vacas, não se comia carne, não se falava alto. Os mais devotos passavam o dia em completo jejum e alguns até se autoflagelavam . Já no primeiro dia do ano, podia-se quase tudo, inclusive percorrer a pé duas ou três léguas à caça de um forró de latada, mesmo sabendo que o sanfoneiro era ruim, a cachaça estava batizada, as mulheres eram poucas e os arruaceiros, muitos. Não bastasse isso, as escaramuças eram comuns e, por um nadinha, alguém era mandado para o reino da glória…

Quando me transplantaram para a cidade, apresentaram-me a palavra réveillon, que trazia consigo alguns penduricalhos: queima de fogos, roupas brancas, música de gosto duvidoso, espumante ordinário, dor de cabeça e felicidade compulsória. Perdi o interesse pela data. Decididamente, já não se fazem entradas de ano como antigamente. Ganhou-se em barulho; perdeu-se em lirismo.

Este ano, decidi iniciar o ano novo com um programa diferente: passear por ruas, becos e praças da cidade amada. Saí cedo, sozinho e, sem pressa ou roteiro preestabelecido, fui avançando: Monte Castelo, Redenção, Macaúba, Porenquanto, Buenos Aires, Poti Velho, Vila Operária e, finalmente, centro histórico. Sem a torrente de automóveis que entulha ruas e avenidas, Teresina é uma cidade sossegada, encantadora. Lavada pelas chuvas que caíram à noite, a cidade mais parecia uma dessas donas de casa que, de cara limpa, senta-se à porta apenas para olhar o espetáculo da vida na rua. Lembrei-me de um tempo, não muito distante, em que se podia atravessar a cidade inteira, do Poti Velho à Tabuleta, sem risco de ser molestado.  Quando muito, era-se abordado por um bêbado tresmalhado que pedia um cigarro ou um trocado para mais um gole de pinga. Os poetas notívagos, capitaneados por William Soares, eram os pastores da noite a perambular por bares e biroscas onde se discutia poesia, falava-se mal da ditadura e campeava-se mulher disponível, mesmo que fosse a do próximo…

Um dia, alguém acometido de megalomania galopante resolveu trocar o rótulo “cidade verde” por “grande Teresina”. Como se movida por uma força estranha, a cidade verticalizou-se, livrou-se dos quintais, ganhou shoppings,  edifícios com nomes pomposos,  engarrafamentos  enervantes  e encheu-se de lojas barulhentas, templos evangélicos e motéis. Despiu-se do verde, cercou-se de favelas e nunca mais foi a mesma.

No primeiro dia do ano que se inicia, com as “retinas fatigadas”, olhei minha cidade como quem olha o que já não lhe pertence.  Como naquela remota manhã de maio de 65, quando me despejaram na Praça Saraiva, voltei a sentir-me apenas um náufrago…

Cineas Santos

posted by admin in Dois dedos de prosa and have No Comments

POR QUE AINDA ESTOU POR AQUI

Ao longo dos últimos 60 anos, ou seja, durante toda a minha existência, sempre tive o cuidado de manter prudente distância do poder. E nem vou invocar o Lord Acton, que afirmava: “O poder tende a corromper”. O poder simplesmente não me atrai nem me fascina, a não ser o poder de divino, pleno, ilimitado. Parafraseando Paul Valéry, só o poder absoluto tem encanto. Mas deixemos de erudição barata, que o chão é minha praia. Convidado pelo Dr. Sílvio Mendes a integrar sua equipe de governo à frente da Fundação Municipal de Cultura Mons.Chaves, tive o cuidado de adverti-lo: Senhor Alcaide, acredito que sirvo melhor ao município de Teresina longe de qualquer instituição pública.O prefeito não me ouviu e aqui ( ainda) estou.

Dirigir a FMC é uma experiência complicada, para dizer o mínimo. Antes mesmo de sentar-me na cadeira da presidência, já um coro de ensandecidos pedia a minha cabeça. Em um ano de serviço público, já peguei mais cipoadas que durante toda a minha vida. Basta contrariar algum interesse, legítimo ou não, para que chovam bordoadas. Como me falta jogo de cintura, não consigo esquivar-me.

Assumi a presidência da FMC num ano difícil: a crise rondava as prefeituras do país, exigindo prudência, cortes, prudência e muita responsabilidade. A despeito disso, cumprimos rigorosamente o Calendário Cultural da Fundação e, sem estourar o orçamento, iniciamos alguns projetos bem-sucedidos. Ressuscitamos o Projeto Picoler, de grande alcance social; incorporamos o Festival Nacional de Violão do Piauí à programação da FCM; instituímos o Festival de Música de Teresina, cuja primeira edição se realizou no aniversário da cidade; criamos os projetos Música na Praça, Arte Itinerante e Teresina Visita, todos funcionando regularmente. É escusado afirmar que pretendíamos fazer mais, muito mais. Fizemos apenas o possível. Em meio a muitos aborrecimentos, tivemos algumas alegrias: ampliamos o número de alunos inscritos nos projetos Musicalizando e Violão na Escola: hoje são mais de 700 crianças inscritas nos projetos; 50 delas, as mais adiantadas, já integram a Orquestra de Violões de Teresina. Impossível não esquecer a experiência do garoto Leonardo de Cáprio ( 9 anos de idade), que trocou um cabo de vassoura por um violão e, em menos de um ano de estudo, já toca por partitura.É comovente e animador, ver duas garotas, de 11 e 9 de anos idade, tocando sax e trompete, respectivamente, numa das bandas juvenis mantidas pela FMC. Estamos contribuindo para elevar a autoestima da molecada mais necessitada.

Mas as provocações persistem. Na semana passada, um repórter me fez a seguinte pergunta: – O que você vai fazer quando deixar a presidência da fundação? Resolvi dar o nó nos neurônios do impertinente. Respondi: Como faço há 40 anos, vou continuar briquitando em defesa da face luminosa do Piauí sem ter de aturar as aleivosias de néscios e apedeutas do seu jaez. Consta que, desarvorado, o infeliz regressou à redação do jornal onde trabalha, gritando: Meu reino por um Aurélio!

Cineas Santos

posted by admin in Dois dedos de prosa and have No Comments