Archive for fevereiro, 2010

O DIA EM QUE MACHADO SALVOU UMA BORBOLETA

Mesmo na penumbra, percebi que o banheiro estava limpo: o cheiro de eucalipto o confirmava. De repente, levanto a vista e descubro, na parede frontal, uma mancha escura, feia, disforme. Dir-se-ia um pequeno trapo sujo grudado no azulejo. Acesa a lâmpada, a mancha ganhou vida: era uma borboleta preta, uma autêntica escalapha odorata, se não me trai o São Google. Além de pouco decorativas, as borboletas pretas sofrem de uma enfermidade rara e mortal: desorientação congênita. Explico: são capazes de adentrar qualquer espaço por frinchas minúsculas, mas incapazes de sair, mesmo que portas e janelas estejam escancaradas. Uma vez dentro do espaço, tonteiam pelo ar como anjos bêbados, debatem-se às cegas e se esfacelam, liberando as minúsculas escamas que lhes recobrem as asas: sujam tudo. Não bastasse isso, são vulgarmente conhecidas como “bruxas”. Reza a crendice popular que anunciam maus presságios. Decididamente, não são bem-vindas, razão por que, mal se mostram, transformam-se em repasto de formigas.

Instintivamente, peguei uma toalha molhada e decidi eliminá-la com um golpe certeiro antes que ela sujasse o banheiro recém-lavado. A bem da verdade, cheguei a levantar o braço. Mas me contive: de repente, ocorreu-me a lembrança de um dos capítulos mais belos de Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra-prima de Machado de Assis. O título é justamente “A borboleta preta”. Não resisto à tentação de transcrever um fragmento: “…Dei de ombros, saí do quarto; mas retornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

– Também por que diabos não era ela azul? disse comigo.”

Brás Cubas, personagem que dá título ao romance, era um pequeno-burguês cínico, inútil e dado a filosofices. Depois de matar a borboleta preta, tenta justificar o gesto engendrando uma teoria que efetivamente não se sustenta. Quanto ao texto em si, apenas demonstra o já sabido: Machado, como um verdadeiro alquimista, transformava episódios banais em excelente literatura.

Enquanto “desbebia” sossegadamente, contemplei a borboleta e fiz uma reflexão pueril, digna do Brás Cubas. Os latinos tinham razão: “a arte serve à vida”, mesmo que seja a vidinha errante e efêmera de um inseto repulsivo. Assim, graças à excelência da prosa do Bruxo do Cosme Velho, uma borboleta preta ganhou o direito de continuar em sua vadiice pelos céus de Teresina.

Cineas Santos

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AS REINAÇÕES DE PEDRO MACAQUINHO

Constatei, com uma pontinha de alívio, que a figura mais “notável” de Campo Formoso, que nem existe mais, não sou eu. Trata-se de um certo Pedro José de Sousa que, por suas reinações, ganhou a adequada alcunha de Pedro Macaquinho. Menino ainda, Pedro se deu conta de que não tinha a menor vocação para puxar cobra para os pés, preso ao rabo de uma enxada. Num descuido da família, azulou no mundo e foi cumprir sua sina. Analfabeto, sem maior qualificação, descobriu que o próprio corpo poderia ser um excelente instrumento. Simples: punha a mão esquerda na cova da axila direita e, movimentando o braço, marcava  o  ritmo do xote  “O Cheiro de Carolina”, sucesso de Luiz Gonzaga. Foi nessa época que o agraciaram com o rótulo Macaquinho.

Excelente ritmista, tornou-se zabumbeiro do Mané Vicente, que ganhava a vida judiando de uma pé-de-bode ranheta. Sempre  que o sanfoneiro parava para entornar uma talagada de cana, Macaquinho abarcava a sanfoninha e mandava ver. Acabou aprendendo o mínimo; o mais correu por conta de sua intuição. Tornou-se presença obrigatória em feiras, quermesses, leilões, desobrigas, circos e funções. Sentou praça  no Canto do Buriti e se fez  showman: canta, dança, improvisa e conta piadas. O público o adora. Mas sua carreira artística tem sido marcada por um problema crônico: só querem pagar ao Macaquinho com cachaça. Dinheiro, que é bom, nada. Como qualquer macaco que se preze, entre uma reinação e outra, o Macaquinho fazia um filho. Família crescendo, dinheiro curto, as coisas se complicaram. Pequeno ainda, os macaquinhos do Macaquinho passaram a ajudá-lo: tornaram-se todos sanfoneiros e ritmistas. Nascia o conjunto “Pedro e seus Macaquinhos”. Um dos garotos, o Walmir, é um sanfoneiro de grandes recursos técnicos.

A parceria com os meninos rendeu alguns frutos, mas a grana continua curta, e o tempo começa a maltratar o nosso bravo macaco. De repente, aquele novelo de encrencas, que atende pelo nome de próstata, começou a incomodá-lo. Pedro teve de diminuir o ritmo de trabalho, fazer tratamento, gastar o que não tinha. A magra aposentadoria que recebe não lhe garante a sobrevivência com um mínimo de dignidade. Foi aí que pintou a ideia de lançar um CD artesanal, mas realizado com cuidado e capricho. O CD traz o instigante título de The best of Pedro Macaquinho, com um punhado de canções, entre elas as clássicas “Delita” e “De madrugada no calor do frio”, uma versão light, já que a original , down, é imprópria para menores de 78 anos de idade. Sucesso absoluto: o CD vende mais que farinha nas feiras do Ceará. Sucesso e encrenca: segundo fui informado pelo sanfoneiro, pelo menos duas lojas de discos de Canto do Buriti clonaram o CD e passaram a vendê-lo sem autorização do Macaquinho, ou seja, furtam-lhe a única coisa que tem para sobreviver. Sem ter a quem recorrer, Pedro veio me pedir ajuda.

Denunciei o fato no programa Feito em Casa e o faço agora nas páginas de O Dia. Se a pirataria continuar, irei ao Canto do Buriti, denunciar os criminosos ao promotor da cidade. Não tenho poderes para ir além. De qualquer forma, tenho o dever de tentar ajudar aquele humilde cidadão que, com sua arte feita de pura intuição, destronou-me do incômodo posto de única “celebridade” de Campo Formoso.

Cineas Santos

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