A GALOPANTE ESCALADA DO MEDO

“Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços” – CDA

Segundo os entendidos, o medo é o mais visível e palpável de todos os sentimentos. Faz-se sentir/notar nos olhos, na boca, no coração, nas pernas e, principalmente, nos intestinos. O homem, por ter consciência do perigo e da finitude, fez do medo permanente companheiro de jornada. Ainda assim, viver sob o domínio dele tem efeitos devastadores em nosso organismo. Deixemos, contudo, de filosofice, que o objeto desta arenga é o chão do chão.

Há 30 anos, juntei os caraminguás amealhados a duras penas e comprei um terreno numa área pouco habitada, nas imediações da Universidade Federal do Piauí. A rua não era calçada, faltava água com muita frequência, a iluminação era precária, mas os vizinhos (mucuras, bem-te-vis  e camaleões) eram discretos e amistosos. Resolvi construir uma casa que, de alguma forma, me remetesse ao sertão do Piauí. Fiz um casarão de fazenda, com cumeeira alta, varandas amplas e até mourões para amarrar meus cavalos imaginários. Decidi que não me cercaria de muros. Finquei estacas, pus uma tela de arame e plantei uma bela trepadeira. As chuvas se encarregaram do resto: uma viçosa cerca viva me propiciava a sensação de morar no meio de uma roça. À noite, deitado em minha rede de caroá,  sentia-me nas brenhas do sertão onde nasci. Como não gosto de ar condicionado, costumava dormir com as janelas abertas. O medo não me tirava o sono.

Tudo ia muito bem até o dia em que surpreendi, entre tufos de helicônias, um indivíduo que, tendo furtado o animal de estimação de um vizinho, escondera-se justamente no meu quintal. Por pouco, não me acusaram de acoitar bandidos em minha casa. A contragosto, resolvi construir um muro civilizado, se é que essa coisa existe. Um muro baixo, de tijolos aparentes, rústico e belo.

Em pouco tempo, a rua ganhou novas edificações, calçamento, água e até rede de esgoto. Foi o suficiente para atrair os indesejáveis “visitantes” que, sem o nosso consentimento, apropriavam-se do que nos pertencia. Os vizinhos, apavorados, resolveram construir cercas elétricas. Assim, de um dia para outro, vi-me meio cercado, refém do medo dos outros. Não demorou muito para que eu descobrisse que, sem cerca elétrica no muro da frente, minha casa tornou-se o alvo preferencial dos larápios. Tentei resistir, mas acabei vencido pelos fatos. No ano passado, no meio da noite, dois pivetes – 14 e 16, respectivamente – entraram em minha casa, arrombaram meu carro e, por pouco, não me converteram em  notícia ruim. Naquela noite, os dois “visitaram” 8 casas, algumas delas cercadas de toda a parafernália vendida pela indústria do medo. O mais novo deles já foi detido 17 vezes. É inteligente, cínico e violento. Se necessário, barbariza, certo da impunidade que lhe garante o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Cansado, vencido, acovardado, fui obrigado a “proteger-me” com cercas elétricas. Finalmente, tornei-me prisioneiro do meu próprio medo. A partir de agora, depositarei, mensalmente, aos pés do deus pavor, o meu dízimo. O Poeta tinha razão: um dia “morreremos de medo/e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.”

Cineas Santos

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O FIM DE TODOS OS MILAGRES

Foto: Paulo Gutemberg

Tenho um amigo estúrdio, especialista em engendrar teses de difícil comprovação. Uma delas: “A morte é má, invejosa e burra: leva primeiro os melhores”. Como não tenho comércio com a morte, falta-me autoridade para contestá-lo. De qualquer forma, passei a prestar mais atenção nas tiradas  do cidadão depois que a indesejada das gentes, no mesmo dia, de uma foiçada, subtraiu-me dona Purcina e Paredão, duas das pessoas que mais amei na vida. Eu teria acompanhado os dois , “sem saudades, pena ou ira”, como queria Faustino no poema “Romance”. Mas a vida tem o seu próprio curso como um rio sinuoso que desemboca no desconecido.

Na semana passada, a iniludível contribuiu para dar alguma   credibilidade à teoria do meu amigo maluco: num curto espaço de tempo,  privou-nos das presenças luminosas de Glauco Vilas Boas e Totó Barbosa, dois homens bons. Do primeiro já se disse quase tudo: jornalista, músico, compositor e cartunista, criou uma galeria de personagens que, de tão neuróticos e desajustados, parecem reais. Geraldão, Dona Marta, Zé do Apocalipse, Edmar Bregman, Faquinha, Cacique Jaraguá, para citar apenas os mais conhecidos, fazem parte do nosso dia a dia. Sem eles, o Brasil ficou mais pobre e mais triste. Glauco  foi sacado da vida, aos 53 anos de idade, vítima de um alucinado que, dentro de uns cinco anos, no máximo, estará, outra vez, nas ruas, pronto para barbarizar.

Melhor sorte teve Antônio Barbosa de Miranda, o nosso Totó Barbosa, que viveu intensamente 90 anos e saiu de cena suavemente, cercado de filhos e amigos. Fotógrafo, político e cantor, Totó foi acima de tudo um boêmio alegre, um seresteiro que enchia de beleza as noites de Teresina  no tempo em que a cidade não precisava de “toque de recolher” para dormir sossegada. Gostava de Dick Farney, de Orlando Silva, de Sílvio Caldas, de Nelson Gonçalves, ou seja, gostava de quem efetivamente cantava. Sem ele, Teresina perde muito do seu encanto provinciano.

Tive a felicidade de conhecer os dois: o Glauco, a quem só vi uma vez, me pareceu um puro de espírito, um homem que acreditava na redenção da espécie humana. Não por acaso, fundou a igreja Céu de Maria, ligada ao Santo Daime. Quanto ao Totó, aprendi a admirá-lo desde os tempos heróicos da velha Difusora. Vivia sempre cercado de amigos, contando histórias, bebendo, gozando a vida. Seu maior legado: uma família honrada, bonita, na qual se destaca Luíza Miranda, uma das mais belas vozes da MPB. Coube a ela, com serenidade e competência, dar um toque de beleza ao sepultamento do velho no São José, cantando “A noite do meu bem” e “Manhãs de Carnaval”, as canções preferidas do Totó. Emocionados, os amigos aplaudiram. Despedida digna de um seresteiro.

Na hora, lembrei-me de que, certa feita, resolvemos homenageá-lo na Oficina da Palavra. Totó, feliz, me chamou ao palco e dedicou-me uma canção que falava de cabelos grisalhos e o fez acariciando-me a carapinha branca, num gesto paternal e afetuoso. Glauco e Totó personificavam a palavra beleza. Permitam-me, portanto, usar o velho clichê: a vida perdeu duas belas figuras humanas. Talvez seja oportuno repetir Bandeira: “Tudo é milagre./ Tudo, menos a morte./ Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres”.

Cineas Santos

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O QUE TEM DE SER SERÁ

José Mindlin de saudosa memória, com a autoridade de quem construiu uma biblioteca com mais de 40 mil volumes, definia sua paixão pelos livros como uma “loucura mansa”. Certa feita, o milionário paulista voou do Brasil a Paris para arrematar, pela “bagatela” de 4 mil dólares, a primeira edição de O Guarani, de José de Alencar. Com dinheiro, paciência e paixão, tornou-se o mais famoso bibliófilo do país, fato que lhe abriu as portas da Academia Brasileira de Letras. Num rasgo de generosidade, doou sua magnífica biblioteca à Universidade de São Paulo. Um belo gesto.

Sem a fortuna de Mindlin, mas movido pela mesma paixão e com ardente paciência, venho gastando minha vida na labuta diária de ler, editar, vender e doar livros a mancheias, como queria o Poeta. Curiosamente, só li meu primeiro romance aos 17 anos de idade, quando já poderia ter lido os clássicos da literatura universal. É que na minha aldeia os livros eram tão raros quanto as chuvas. A água que não bebi já não me faz falta; quanto aos livros… Mas vamos ao que ensejou esse arremedo de crônica. Embora não seja um bibliófilo, tenho um punhado de livros raros. Um deles, uma verdadeira preciosidade. Vejamos como este livro chegou-me às mãos.

Em 1982, em parceria com M. Paulo Nunes, editei a Antologia Poética de Da Costa e Silva, organizada pelo próprio autor, pouco antes do seu silêncio. Por incrível que pareça, foi o primeiro livro do nosso poeta maior editado no Piauí. Alberto da Costa e Silva, filho de Da Costa, ficou felicíssimo e veio prestigiar o lançamento da antologia em Teresina. Acresce que, pouco tempo depois, denunciei, na televisão, o furto de algumas peças raras na Casa Anísio Brito, onde funcionavam o arquivo e a biblioteca pública. O então secretário de cultura, em vez de mandar apurar os fatos, limitou-se a tentar desqualificar-me. Como a denúncia procedia, o cidadão resolveu vingar-se de mim da forma mais abjeta e rasteira: proibiu-me de participar da organização das festas alusivas ao centenário de nascimento do poeta, em 1985. Fiquei quieto no meu canto.

Para comemorar a efeméride, o governo do Piauí mandou editar 200 exemplares da obra completa de Da Costa e Silva, em papel vergé, com capa dura e fino acabamento. Os exemplares  autografados pelos editores e numerados de 001 a 200,  destinavam-se, naturalmente, às altas autoridades da República. Pois sem sair do meu canto, o exemplar 001 veio cair em minhas mãos sem que eu movesse uma palha. Como sói acontecer em tais circunstâncias, no açodamento, alguns exemplares da obra acabaram esquecidos numa caixa nos porões da secretaria de cultura. Com a mudança de governo, os livros, como entulho descartável, foram atirados às traças. Eram apenas cinco exemplares e o mais raro deles, o nº 1, foi-me doado por um servidor humilde, que não tinha a menor ideia do valor do presente. Ao abrir o livro, limitei-me a dizer: Obrigado, meu Poeta. O cidadão sorriu e disse: “O professor tem cada uma” e retirou-se sorrindo.  Não faltará quem diga: “ pura coincidência”. Eu e o Poeta sabemos que não.

Cineas Santos

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TODOS OS SONS DA ALDEIA

É impossível saber que sonhos aninhavam-se na mente do menino Erisvaldo quando, encarapitado num jegue sestroso, percorria as veredas  do Saco do Engano (hoje Santana do Piauí) onde nasceu. É possível que se contentasse em contemplar as aquarelas vivas produzidas pelas borboletas nos charcos d’água. É possível que sonhasse apenas com a fartura que os dedos das chuvas semeariam nos roçados. É possível que quisesse apenas saber o que se escondia depois do azul que se fundia ao cinza da caatinga…  Mas um dia, Erisvaldo encontrou uma pequena cabaça de pescoço alongado, fez um furo no bojo e acrescentou uma liga de borracha, dessas de prender dinheiro. Nascia ali uma minúscula e tosca caricatura de violão. O menino fez vibrar as cordas daquele instrumento único e o som débil que produziu fez acordar Euterpe, deusa da música. Num átimo, sem que ele se desse conta, a música inundou-lhe a vida e o “condenou” a ser um dos maiores violonistas do Brasil.

Mas deixemos de literatice, que o objeto dessa arenga é outro: um comentário breve sobre a 6ª edição do Festival Nacional de Violão do Piauí (FENAVIPI), que se realizou em Teresina, entre os dias 25 e 28 de fevereiro do ano em curso. Para começo de conversa, hoje, o FENAVIPI é o maior festival de violão que se realiza no país. Quem o diz é Carlos Barbosa Lima, com a autoridade de quem conhece todos. Durante quatro dias, os amantes da boa música instrumental tiveram a oportunidade de ouvir, conviver e aprender com músicos do quilate de Tommy Emmanuel, Xufei Yang, Paul Galbraight, Fábio Zanon, Carlos Barbosa, Nicolas de Souza Barros, Roberto Corrêa, Henrique Annes, Nonato Luiz, Erisvaldo Borges, Franciel Monteiro, para citar apenas os mais famosos. Ao todo, foram 14 concertos, 8 oficinas e 4 shows, disputadíssimos, no Theatro 4 de Setembro. Acrescente a isso, o 6º Concurso Nacional de Interpretação Violonista, que acontece no decorrer do Festival, cujo vencedor, desta edição, foi o promissor Fábio Lima, de Curitiba.

As sementes do FENAVIPI foram lançadas em 1998 quando inauguramos o prédio da Oficina da Palavra e trouxemos a Teresina o violonista Turíbio Santos para “batizar” a casa. No rastro do mestre Turíbio, vieram Nonato Luiz, Toninho Horta, Hélio Delmiro, Guinga e outras feras. Pareceu-nos que estávamos estruindo talento com plateia pequena. Em 2004, decidimos criar o FENAVIPI, com dois objetivos: formar plateia para o consumo de música de qualidade e melhorar o nível dos músicos do Piauí. Em apenas três meses, organizamos e realizamos a primeira edição do festival, que já nasceu grande. Não falaremos das dificuldades para realizá-lo, por uma razão simples: quem tentou fazer algo  parecido  já as conhece; quem nunca tentou não vai acreditar. O certo é que, sob a batuta firme do Erisvaldo Borges, chegamos à 6º edição do FENAVIPI, com uma constelação de estrelas de raro brilho. Este ano, exageramos na dose, para alegria do público. Com o patrocínio da Prefeitura de Teresina,  e  apoio da FUNDAC e Casa do Cantador, fizemos o festival que a cidade merece. Quanto ao Erisvaldo Borges, se parasse agora (e não vai fazê-lo), já teria inscrito o seu nome na galeria dos grandes nomes da cultura brasileira. Não é pouco para o menino do violão de cabaça do Saco do Engano. Mas o garoto cresceu e quer muito mais. Assim seja.

Cineas Santos

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DAS COISAS QUE NÃO PRETENDO VER

Não faz muito tempo, abri a revista ISTOÉ e, na seção de entrevistas, deparei-me com a foto de um cidadão com barba de Rasputin. A barba me pareceu postiça;  o nome do barbudo, não. O entrevistado era ninguém menos que o geneticista Aubrey de Grey, da Universidade de Cambridge. Entre outras atividades, Aubrey preside a Fundação Matusalém cujo foco de pesquisa é o combate ao envelhecimento dos seres humanos. Sem medo de comprometer sua reputação, o cientista afirma que “Em cinquenta anos não vai mais haver definição para expectativa de vida. Teremos um controle tão completo do envelhecimento que as pessoas viverão indefinidamente”. Para o sábio inglês, num futuro próximo, qualquer ser humano poderá, sem problema algum, chegar a mil anos de existência.  A explicação: a exemplo do que acontece com um automóvel, basta fazer a manutenção correta, usar o combustível adequado, trocar as peças danificadas no momento certo e o carro estará sempre novo. Mais didático, impossível. O neurocientista Anders Sandberg, de Oxford, está disposto a cooperar: propõe-se a fazer uma espécie de download do pensamento humano. Assim sendo, o cérebro se comportaria como um software, com todas as funções originais. O futurologista americano, Ray Kurzweil, com sua autoridade de guru dos letrados, garante que, “em duas décadas, os nanorobôs vão fazer as mesmas funções que as nossas células ou tecidos, mas com precisão infinitamente maior”. Sintetizando: no futuro, só morrerá quem quiser. Nessa altura do campeonato, meus três leitores estarão se perguntando: “O ancião endoidou?”. Eu vos asseguro que não: tudo isso e mais coisas encorpam as páginas da Superinteressante de fevereiro. É só consultar.

Enquanto lia a reportagem de capa da Super, ocorreu-me a lembrança de um poema de Drummond  – “O sobrevivente” – publicado em 1930. Lá pelas tantas, afirma o poeta: “Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples./Se quer fumar um charuto aperte um botão./Paletós abotoam-se por eletricidade./O amor se faz pelo sem-fio./Não precisa estômago para a digestão”. A ideia desse admirável mundo novo não parece fascinar o Gauche de Itabira, que afirma: “Mas até lá, felizmente, estarei morto”. Drummond comporta-se como um verdadeiro vate e conclui, pessimista: “Os homens não melhoraram/ e matam-se como percevejos./Os percevejos heróicos renascem./Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado/ E se os olhos reaprendessem a chorar, seria um segundo dilúvio”.

Drummond pôs o dedo na ferida: “inabitável, o mundo é cada vez mais habitado”. As estatísticas indicam que, em menos de 50 anos, o exaurido planeta Terra terá nada menos de dez bilhões de bocas para alimentar. Diante de desafio de tal monta, os sociólogos já pensam em exumar as teorias do velho Malthus: a humanidade morrerá de fome. O cientista James Lovelock, autor de A Vingança de Gaia, garante que, nesse ritmo, antes do final do século 21, 80% da população do Planeta terá desaparecido. “A vida, como a concebemos hoje, será praticamente impossível”, afirma. Não é preciso ser muito inteligente para perceber que essa equação não fecha. Há uma pergunta que não quer calar: – Em que planeta viverão os terráqueos  imortais?

Como não sou egoísta, prometo ceder meu lugar, no momento oportuno, a quem se habilitar a ocupá-lo. E fecho  esta arenga com outro poeta mineiro, Murilo Mendes: “Tenho pena dos que vão nascer”.

Cineas Santos

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O DIA EM QUE MACHADO SALVOU UMA BORBOLETA

Mesmo na penumbra, percebi que o banheiro estava limpo: o cheiro de eucalipto o confirmava. De repente, levanto a vista e descubro, na parede frontal, uma mancha escura, feia, disforme. Dir-se-ia um pequeno trapo sujo grudado no azulejo. Acesa a lâmpada, a mancha ganhou vida: era uma borboleta preta, uma autêntica escalapha odorata, se não me trai o São Google. Além de pouco decorativas, as borboletas pretas sofrem de uma enfermidade rara e mortal: desorientação congênita. Explico: são capazes de adentrar qualquer espaço por frinchas minúsculas, mas incapazes de sair, mesmo que portas e janelas estejam escancaradas. Uma vez dentro do espaço, tonteiam pelo ar como anjos bêbados, debatem-se às cegas e se esfacelam, liberando as minúsculas escamas que lhes recobrem as asas: sujam tudo. Não bastasse isso, são vulgarmente conhecidas como “bruxas”. Reza a crendice popular que anunciam maus presságios. Decididamente, não são bem-vindas, razão por que, mal se mostram, transformam-se em repasto de formigas.

Instintivamente, peguei uma toalha molhada e decidi eliminá-la com um golpe certeiro antes que ela sujasse o banheiro recém-lavado. A bem da verdade, cheguei a levantar o braço. Mas me contive: de repente, ocorreu-me a lembrança de um dos capítulos mais belos de Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra-prima de Machado de Assis. O título é justamente “A borboleta preta”. Não resisto à tentação de transcrever um fragmento: “…Dei de ombros, saí do quarto; mas retornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

– Também por que diabos não era ela azul? disse comigo.”

Brás Cubas, personagem que dá título ao romance, era um pequeno-burguês cínico, inútil e dado a filosofices. Depois de matar a borboleta preta, tenta justificar o gesto engendrando uma teoria que efetivamente não se sustenta. Quanto ao texto em si, apenas demonstra o já sabido: Machado, como um verdadeiro alquimista, transformava episódios banais em excelente literatura.

Enquanto “desbebia” sossegadamente, contemplei a borboleta e fiz uma reflexão pueril, digna do Brás Cubas. Os latinos tinham razão: “a arte serve à vida”, mesmo que seja a vidinha errante e efêmera de um inseto repulsivo. Assim, graças à excelência da prosa do Bruxo do Cosme Velho, uma borboleta preta ganhou o direito de continuar em sua vadiice pelos céus de Teresina.

Cineas Santos

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AS REINAÇÕES DE PEDRO MACAQUINHO

Constatei, com uma pontinha de alívio, que a figura mais “notável” de Campo Formoso, que nem existe mais, não sou eu. Trata-se de um certo Pedro José de Sousa que, por suas reinações, ganhou a adequada alcunha de Pedro Macaquinho. Menino ainda, Pedro se deu conta de que não tinha a menor vocação para puxar cobra para os pés, preso ao rabo de uma enxada. Num descuido da família, azulou no mundo e foi cumprir sua sina. Analfabeto, sem maior qualificação, descobriu que o próprio corpo poderia ser um excelente instrumento. Simples: punha a mão esquerda na cova da axila direita e, movimentando o braço, marcava  o  ritmo do xote  “O Cheiro de Carolina”, sucesso de Luiz Gonzaga. Foi nessa época que o agraciaram com o rótulo Macaquinho.

Excelente ritmista, tornou-se zabumbeiro do Mané Vicente, que ganhava a vida judiando de uma pé-de-bode ranheta. Sempre  que o sanfoneiro parava para entornar uma talagada de cana, Macaquinho abarcava a sanfoninha e mandava ver. Acabou aprendendo o mínimo; o mais correu por conta de sua intuição. Tornou-se presença obrigatória em feiras, quermesses, leilões, desobrigas, circos e funções. Sentou praça  no Canto do Buriti e se fez  showman: canta, dança, improvisa e conta piadas. O público o adora. Mas sua carreira artística tem sido marcada por um problema crônico: só querem pagar ao Macaquinho com cachaça. Dinheiro, que é bom, nada. Como qualquer macaco que se preze, entre uma reinação e outra, o Macaquinho fazia um filho. Família crescendo, dinheiro curto, as coisas se complicaram. Pequeno ainda, os macaquinhos do Macaquinho passaram a ajudá-lo: tornaram-se todos sanfoneiros e ritmistas. Nascia o conjunto “Pedro e seus Macaquinhos”. Um dos garotos, o Walmir, é um sanfoneiro de grandes recursos técnicos.

A parceria com os meninos rendeu alguns frutos, mas a grana continua curta, e o tempo começa a maltratar o nosso bravo macaco. De repente, aquele novelo de encrencas, que atende pelo nome de próstata, começou a incomodá-lo. Pedro teve de diminuir o ritmo de trabalho, fazer tratamento, gastar o que não tinha. A magra aposentadoria que recebe não lhe garante a sobrevivência com um mínimo de dignidade. Foi aí que pintou a ideia de lançar um CD artesanal, mas realizado com cuidado e capricho. O CD traz o instigante título de The best of Pedro Macaquinho, com um punhado de canções, entre elas as clássicas “Delita” e “De madrugada no calor do frio”, uma versão light, já que a original , down, é imprópria para menores de 78 anos de idade. Sucesso absoluto: o CD vende mais que farinha nas feiras do Ceará. Sucesso e encrenca: segundo fui informado pelo sanfoneiro, pelo menos duas lojas de discos de Canto do Buriti clonaram o CD e passaram a vendê-lo sem autorização do Macaquinho, ou seja, furtam-lhe a única coisa que tem para sobreviver. Sem ter a quem recorrer, Pedro veio me pedir ajuda.

Denunciei o fato no programa Feito em Casa e o faço agora nas páginas de O Dia. Se a pirataria continuar, irei ao Canto do Buriti, denunciar os criminosos ao promotor da cidade. Não tenho poderes para ir além. De qualquer forma, tenho o dever de tentar ajudar aquele humilde cidadão que, com sua arte feita de pura intuição, destronou-me do incômodo posto de única “celebridade” de Campo Formoso.

Cineas Santos

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DA ARTE DE ENGABELAR OTÁRIOS

Durante alguns anos, tive um carrinho peba, ronceiro, sestroso que, justo por esses atributos, ganhou a alcunha de “jumentinho”. Vez que outra, em momento de maior necessidade, o ordinário me deixava  na mão. Ainda assim, na hora de me desfazer do condenado, senti uma pontinha de tristeza. Como o carrinho era azul, julguei ser o motivo do apego. Não era. Na verdade, o que me ligava ao caranguinho era a placa: LVO – 0564. No desenrolar dessa arenga, vocês entenderão.

Dia de Reis, no Shopping da Cidade, eu participava, com vivo entusiasmo, da festa organizada pelo professor Vagner Ribeiro. De repente, durante a apresentação do Reisado de Mãe Feliciana, um dos mais antigos de Teresina, fui abordado por um cidadão humilde, idade inescrutável, com  aquele ar de quem não foi acariciado pela vida. Maneiroso, pediu licença para aproximar-se, elogiou a iniciativa da festança  (lembram-se daquela sensação do álcool na pele antes da picada da agulha?) e gaguejou: -Professor, eu gosto muito de reisado; sou do interior e acompanhava essa brincadeira quando era menino… Preparei-me para a facada. – Parei pra apreciar a brincadeira, deixei minha bicicleta ali na porta, com minhas ferramentas na garupa e veja o que sobrou dela! Com ar compungido, exibiu o arco de um cadeado pequeno, o arco sem o cadeado, naturalmente. – Veja o senhor: a gente para pra assistir uma festa de santo e vem um malfazejo e leva o pouco que a gente tem… Agora tô aqui precisando de uma passagem pra voltar pra minha terra… Antes de cair no choro, o que me estragaria a maquilagem, saquei os caraminguás que trazia no bolso e entreguei-lhe. Num átimo, o cidadão soverteu-se na multidão. Com seus botões, deve ter dito: engabelei mais um otário…

O ruim dessa história é saber que está sendo depenado e não conseguir safar-se. Certa feita, em Salvador, resolvi conhecer a tão decantada Lagoa do Abaeté. Bruta decepção! Na verdade, o trem não passa de um barreiro escuro, cercado de areia branca. Nem tive tempo de curtir meu desapontamento. Fui encurralado por um enxame de ciganas, todas devidamente caracterizadas, com aquela prosa preguiçosamente envolvente: “com azeite de dendê, não vai doer nada,meu rei” … Tentei vãmente desvencilhar-me da horda que, como hienas famintas, me cercavam por todos os lados. Uma me falou de “uma loura maldosa que só quer o seu dinheiro”; a outra, de “um sócio que está lhe roubando”, etc. Quando me liberartaram, eu estava literalmente na lona. Retiraram-se cantando uma toada alegre e, naturalmente, comemorando a féria conseguida à custa de  mais um otário

Ao longo da vida tem sido assim: pressinto a facada, mas não consigo evitá-la. Aparvalhado, acovardado, deixo-me explorar  sem reação como uma criança indefesa.

Antes que me perguntem onde a placa do carrinho entra nessa história, lembrem-se das letras LVO. Pois é: um amigo gozador decifrou o enigma com a mais absoluta propriedade: “Lá Vai  o  Otário”. Como diria meu irmão mais lúcido, cada um para o que nasce…

Cineas Santos

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A CARA MAIS ALEGRE DO PIAUÍ

Há trinta e três anos, por minha conta e risco, arrebanhei um pequeno grupo de jovens (Paulo Machado, Rogério Newton, Fernando Costa, Alcide Filho e Margô Coelho), formei uma trupe mambembe e embrenhamo-nos pelos sertões do Piauí. Objetivo: ver, ouvir, ensinar, aprender, conviver. Amontoados num velho fusca verde-sonho, fomos a Oeiras, Floriano, São Raimundo Nonato e José de Freitas. Por falta de dinheiro para a gasolina do fusca, arquivamos o sonho. À época, nenhum de nós sabia que estava lançando ali as sementes do projeto A Cara Alegre do Piauí. Pouco tempo depois, eu e o Paulo Machado passamos a ministrar cursos de literatura piauiense para professores no interior do Estado. Quando Elias Arêa Leão assumiu a Secretaria de Cultura do Piauí, montamos uma trupe bem mais encorpada e voltamos a mambembar pelos sertões. Finalmente, em 97, na cidade de Parnaíba, o poeta e professor Fernando Ferraz batizou a cabroeira com o nome de A Cara Alegre do Piauí, usando um argumento irrefutável: “Há séculos, mostramos sempre a cara triste do Piauí. O máximo que conseguimos foi a piedade de alguns e o escárnio da maioria. Chegou a hora de mostrarmos a face luminosa de nossa gente: a rica e multifacetada cultura do Piauí”.Com o novo rótulo, o projeto ganhou asas e percorreu praticamente todo o estado do Piauí, de Parnaíba a Guaribas.

O grupo enriqueceu-se, com a participação de músicos, coreógrafos, escritores, professores, ecologistas, etc. Hoje, somos 30 voluntários a serviço da educação e da cultura do Piauí. Tantas fizemos, que fomos tema de um programa especial da Globo News, realizado pelo poeta Claufe Rodrigues. Curiosamente, nunca nos sentamos para traçar um plano de trabalho. Como time que joga junto há muito tempo, ao entrar em campo, cada um sabe  o que vai fazer e faz  com engenho e arte.

No final do ano passado, o Cara Alegre foi contemplado com um ponto de cultura (FUNDAC – MINC). A partir de agora, mais que eventos esporádicos, poderemos dar continuidade às ações iniciadas quando da visita do grupo a determinado município. Inicialmente, vamos oferecer cursos de história do Piauí e literatura piauiense para professores da rede pública de ensino. Para os alunos, oficinas de xilogravura, violão e flauta doce. No campo da música, estamos iniciando a gravação de um DVD – Pássaros da Terra - com os músicos mirins do Piauí.

Atendendo a exigência do MINC, vamos adquirir o kit multimídia: máquina fotográfica, filmadora, notebook, data show, etc. Na sede do Projeto – Rua 7 de Setembro – 671, estamos montando um pequeno estúdio para gravação de CDs e DVDs.

É gratificante coordenar um projeto que conta com a participação de pessoas do nível de prof. Santana, Erisvaldo Borges, Paulo Machado, Fonseca Neto, Catarina Santos, Luíza Miranda, Rosinha Amorim, Halan Silva, Luiz Romero, Tânia Martins, Gabriel Archanjo, Geni Costa, Graça Vilhena, Carlos Martins, Vanda Queiroz, Wilker Marques, para citar apenas alguns. A filosofia do projeto continua a mesma: o saber só faz sentido quando compartilhado. Assim seja.

Cineas Santos

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UM JEITO NOVO DE INICIAR O ANO

No sertão onde nasci, apenas duas datas tinham, efetivamente, algum significado: a sexta-feira da paixão e o primeiro do ano. Na sexta-feira grande, não se podia fazer quase nada. Não se tomava banho, não se tirava a barba, não se ordenhavam as vacas, não se comia carne, não se falava alto. Os mais devotos passavam o dia em completo jejum e alguns até se autoflagelavam . Já no primeiro dia do ano, podia-se quase tudo, inclusive percorrer a pé duas ou três léguas à caça de um forró de latada, mesmo sabendo que o sanfoneiro era ruim, a cachaça estava batizada, as mulheres eram poucas e os arruaceiros, muitos. Não bastasse isso, as escaramuças eram comuns e, por um nadinha, alguém era mandado para o reino da glória…

Quando me transplantaram para a cidade, apresentaram-me a palavra réveillon, que trazia consigo alguns penduricalhos: queima de fogos, roupas brancas, música de gosto duvidoso, espumante ordinário, dor de cabeça e felicidade compulsória. Perdi o interesse pela data. Decididamente, já não se fazem entradas de ano como antigamente. Ganhou-se em barulho; perdeu-se em lirismo.

Este ano, decidi iniciar o ano novo com um programa diferente: passear por ruas, becos e praças da cidade amada. Saí cedo, sozinho e, sem pressa ou roteiro preestabelecido, fui avançando: Monte Castelo, Redenção, Macaúba, Porenquanto, Buenos Aires, Poti Velho, Vila Operária e, finalmente, centro histórico. Sem a torrente de automóveis que entulha ruas e avenidas, Teresina é uma cidade sossegada, encantadora. Lavada pelas chuvas que caíram à noite, a cidade mais parecia uma dessas donas de casa que, de cara limpa, senta-se à porta apenas para olhar o espetáculo da vida na rua. Lembrei-me de um tempo, não muito distante, em que se podia atravessar a cidade inteira, do Poti Velho à Tabuleta, sem risco de ser molestado.  Quando muito, era-se abordado por um bêbado tresmalhado que pedia um cigarro ou um trocado para mais um gole de pinga. Os poetas notívagos, capitaneados por William Soares, eram os pastores da noite a perambular por bares e biroscas onde se discutia poesia, falava-se mal da ditadura e campeava-se mulher disponível, mesmo que fosse a do próximo…

Um dia, alguém acometido de megalomania galopante resolveu trocar o rótulo “cidade verde” por “grande Teresina”. Como se movida por uma força estranha, a cidade verticalizou-se, livrou-se dos quintais, ganhou shoppings,  edifícios com nomes pomposos,  engarrafamentos  enervantes  e encheu-se de lojas barulhentas, templos evangélicos e motéis. Despiu-se do verde, cercou-se de favelas e nunca mais foi a mesma.

No primeiro dia do ano que se inicia, com as “retinas fatigadas”, olhei minha cidade como quem olha o que já não lhe pertence.  Como naquela remota manhã de maio de 65, quando me despejaram na Praça Saraiva, voltei a sentir-me apenas um náufrago…

Cineas Santos

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